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O que é a música portuguesa?

Debates em obra com moderação de Tiago Pereira na Baixa-Chiado PT Bluestation. Dia 3 de Dezembro com Paulo Furtado, Pedro Félix e Vitorino

Tiago Pereira, visualista e arquivista da MPAGDP, iniciou este debate apresentando as razões que o levaram a lançar a pergunta: “O que é a música portuguesa?”, sendo que o próprio tem muitas dúvidas sobre a resposta ou as respostas possíveis que, recentemente, colocaram as declarações do conceituado músico Vitorino ao Jornal de Leiria no centro da polémica. Será que cantar em Inglês é música portuguesa? Porque será que as fortes reacções que surgem sempre que se coloca no arquivo da MPAGDP um músico português a cantar em Inglês não surgem quando é emitido um vídeo de um jovem português a cantar num género tão anglo-saxónico como o hip hop? Existe uma espécie de nojo ao cantar em Inglês que define a música portuguesa? E como se cataloga aqueles que, não sendo portugueses, habitam em Portugal e fazem música? E a lusofonia?

Durante muitos anos as rádios habituaram-nos à lingua inglesa como a língua musical. A MPAGDP pretende assim ser um contraponto a isso mesmo, um espaço para a música portuguesa sem hierarquias ou distinções de gosto ou localização, dar a conhecer o que se faz musicalmente em Portugal do Minho ao Algarve e às Ilhas. Muitas as perguntas de Tiago Pereira para um debate com Pedro Félix, investigador e antropólogo da FCSH da Universidade Nova de Lisboa e dois músicos de gerações muito distintas. Paulo Furtado, aka The Legendary Tiger Man e Vitorino, cantor alentejano que também colaborou em projectos mais mediáticos como Rio Grande e Cabeças no Ar.

Paulo Furtado, em primeiro lugar, fez uma intervenção para esclarecer que para ele o assunto polémico em que esteve envolvido, em conjunto com outros músicos, com Vitorino, estava encerrado e declarou que tem um enorme respeito por ele e que todos estavam ali pelas suas obras e não por cantarem em Português ou Inglês.

Para Paulo, Portugal tem características especiais pela localização geográfica que sempre marcou a sua cultura ao longo da história. Portugal estará sempre entre África, as Américas e o resto da Europa, e a música portuguesa, como a cultura a que pertence, tem imensos exemplos dessa miscigenação. “A música portuguesa é um puto que cresceu a adorar hip hop e faz hip hop ou outro puto como eu que cresceu a ouvir Blues e Rock and Roll e agora faz Blues e Rock and Roll. Porque mesmo quando faço Blues na América sou rotulado de português e europeu; aliás, os blues apesar de hoje serem associados à América, não foram inventados por um americano.

A nacionalidade da música é uma falsa questão, estes são tempos em que todos nos influenciamos uns aos outros. Eu adoro ouvir coisas em Português, Inglês ou Javanês, desde que sejam de qualidade.

Portugal tem neste momento, como nunca, uma grande actividade cultural em todo o mundo. A música portuguesa pode até ser feita por aqueles que, não o sendo, fazem a sua música aqui durante um tempo, deveríamos era ouvir mais música. E a arte e a música portuguesa deveria ter mais espaço para ser vista e ouvida. Há pouco espaço e esse é o maior problema.

A nossa identidade é sermos influenciados por tudo o que passa no mundo, é um sinal dos tempos sermos influenciados pelo que se passa desde a mercearia debaixo da nossa casa aos sons de Nova Iorque.

As ideias pré-concebidas também as fazemos nós, como por exemplo a imagem que se tem do fado. Em todo o mundo, depois da Amália, todos acham que o fado é cantado por mulheres, sendo muito difícil um fadista masculino conseguir triunfar no mercado internacional. O conceito do que é falso ou puro é muitas vezes construído por ilusões e pelos fenómenos criados pelas editoras.

Mas a imagem internacional da música portuguesa é hoje muito mais rica do que era há 20 anos, temos é de criar linguagens musicais próprias. Isso sim aumentará a visibilidade da nossa música.

Temos de estar disponíveis para ouvir aquilo que é feito em Portugal. Existe toda uma nova geração que, apesar das facilidades de emissão da net, que emite mas não tem filtros, tem muito mais dificuldade em ser distinguida”.

Pedro Félix começou por explicar que esta pergunta e consequente definição é um problema que temos no meio cultural português sobre a identidade e a negociação das identidades de Portugal e dos portugueses: A questão romântica do que é o espírito dos povos.

“Os resultados destas pesquisas são os cancioneiros do final do século XIX, com a preocupação de registar e representar a música que as pessoas cantavam. O aparecimento de meios de comunicação de massas parece criar uma perversão da música tradicional. No século XX, o Estado Novo teve a preocupação de retratar só o que era antigo e remoto como tradicional. Nos anos 70 o debate tem uma nova forma de perspectivar o problema com o cante de intervenção, que procura reconstruir e recuperar essa mesma identidade nacional considerando o Pop Rock como perversão da tradição nacional. É um debate transversal, dos músicos aos políticos, e aos estetas. Enquanto antropólogo parece-me que é sobretudo um problema de identidade. A MPAGDP tem sido fundamental nestes dois últimos anos para demonstrar como este conceito se manifesta. É um debate em curso.

Mas existe uma regulação legal que define o que é a música portuguesa, dentro da lei dos 40 por cento de emissão de música portuguesa nas rádios nacionais. Uma coisa é considerarmos a música feita em Portugal, mas esta questão da música portuguesa é sobretudo uma questão política. Pedro Félix emitiu aqui um excerto do músico Sam da Kid, «Poetas de Karaoke», como exemplo. Ao longo do videoclip desta música aparecem vários músicos a apoiar uma invasão de um estúdio de rádio, que é ocupado para exigir que a rádio emita mais música portuguesa.

A noção de globalização está aqui. Já não precisamos de fazer 13.000 km para ouvir a música que se faz na China. A minha posição, como investigador, não é a de ajuizar. A mim interessa-me observar estes processos, como por exemplo os discursos de interiorização que os músicos fazem para integrar o estilo da sua própria música.

Desde a atribuição da Unesco ao fado que a música portuguesa emitida em Portugal passou de ser fado em 40% para ser a 60%. Internacionalmente, o percurso de um músico português que usa um género mais internacional é por vezes mais difícil por haver muitas mais opções no mundo. O caso dos Madredeus, por exemplo, é paradigmático. Apesar de ser uma música geolocalizada passou o processo de globalização através de uma amálgama de tradições musicais portuguesas que se assemelham a vários géneros definidos como portugueses.”

Vitorino acha que as definições são sempre redutoras. “Mau é mau e bom é bom. A identidade é que é difícil de definir porque é evolutiva. Em Portugal, temos tendência para ser estrangeirados. Há um lado portuga que é muito interessante, que é a capacidade de nos misturarmos com outros povos mas de não gostarmos de nós proprios. São as elites que não gostam de nós. No século XIX tudo o que era francês é que era venerado. Depois das invasões francesas ficámos afrancesados, as universidades eram bonapartistas até aos anos 80. Até aos anos 70 a segunda língua era o Francês, com cinco anos na escola a falar Francês. O Estado Novo não gostava da influência norte-americana, por isso continuava a promover o Francês aos portugueses. Nos anos 60 havia músicos portugueses que escreviam canções em Francês. As identidades são evolutivas. A briga começa com a influência anglo-saxónica que tem menos a ver com a nossa cultura do que a francesa, que pelo menos é latina.

Os portugueses são rafeiros e isso reflecte-se na nossa cultura. Identitariamente nós somos dois povos: do Tejo para baixo somos mais semitas e árabes e do Tejo para cima somos mais visigodos e celtas.

A música esta em tudo, mas a minha escola musical é a de protestar.”

Aqui Vitorino lê uma citação do suplemento “Actual” do jornal Expresso com 20 discos, sugestões de natal, e apenas um era deles era português. “Pelo menos dez deviam ser portugueses”, afirma Vitorino. “Há um preconceito contra nós nos jornais. Gostava que a media portuguesa desse mais atenção aos artistas portugueses. Nunca na história portuguesa recente a música popular foi tão pujante e interessante mas continua a ser seccionada pelas editoras e pelos media”.

Ainda houve tempo para perguntas do público:

Porque é que a internet continua a ser um parente pobre na divulgação da música portuguesa?

Vitorino achou que a televisão, como fazedor de opinião, é muito mais forte no País.

Paulo Furtado defendeu que a internet é um meio livre para os projectos seguirem o seu livre curso e chegarem a muito mais gente.

Pedro Felix referiu a importância da internet ser também um arquivo potencial da identidade de toda a música produzida.

A busca pela identidade portuguesa não se pode perder por pequenos focos regionais? Ou existe uma identidade nacional mais forte?

Paulo Furtado diz que os casos de Leiria, Barcelos e Coimbra têm momentos identitários fortes por natural convívio espontâneo entre músicos. Deu o exemplo da primeira banda dele é Tedio Boys em Coimbra que mudou a cidade entre os jovens e como fizeram Rock e Punk Rock em reacção ao fado e à tunas. Para teres algum espaço tem de haver alguma ruptura.

Vitorino fala dos grupos da sua terra em que fazem Rock com influência rural alentejana. Mas para singrarem têm de vir para Lisboa.

Tiago Pereira falou da importância dos arquivos para contarem a história da origem dos projectos musicais.

Pedro Felix diz que há identidades regionais muito fortes mas a identificação de um género a uma região pode ajudar a diferenciar um músico num contexto globalizado.



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