Vera Marmelo

Vera Marmelo

A fotógrafa com um coração onde cabe o mundo

Por vezes, de acaso em acaso, nascem coisas nada casuais, excepcionais mesmo. É o caso do caderno da Vera. O caderno da Vera podia ser apenas uma óptima compilação visual do que se faz de melhor na música portuguesa. Podia, mas não é. É, antes de mais o produto da entrega e carinho desta miúda do Barreiro com um sorriso sempre aberto e uma generosidade que transcende. E o resultado são 13 retratos de 13 músicos que, são mais do que isso, verdadeira obras primas.

Vera Marmelo apresentou o seu primeiro trabalho editado em Outubro, e desde então não pára. E ainda bem. O caderno de posters, fotozine ou jornal, como o quiserem chamar, surgiu primeiro ligado a uma comemoração do projecto A Música Portuguesa a Gostar Dela Própria do Tiago Pereira. Acabou por não acontecer aí, mas a insistência de amigas e os acasos da sorte resultaram neste objecto.

Do início do projecto até ao que nos chega agora, nada estava decidido, havia só esta ideia de “um formato jornal, tamanho tipo Expresso antigamente, buéda grande, uma má impressão ou uma impressão menos nobre, e abrires e teres aquilo para dobrares e meteres no bolso, sem preocupações.” A ideia de poster, de puzzle de cabeças e queixos que se montam dos diferentes músicos, só surgiu depois, na colaboração com a designer Sílvia Prudêncio. “Encaixámos aquilo daquela forma, e decidimos não agrafar. Serve mais para tirares de ordem do que necessariamente desmontares tudo e ficares com seis individuais. À medida que ia tendo a cena em casa pensava: Ah! Olha, afinal também dá para poster. E fui inventando.”

Os retratos da Vera têm uma genuinidade patente. A relação que estabelece com o fotografado é muito importante. Por isso Vera gosta de conversar, da amizade que estabelece antes de fazer o retrato. De todos os músicos fotografados para o caderno, só não conhecia a Celina Piedade. “Quando ia ao Andanças, tipo 2005, 2006, eu via a Celina montes de vezes a tocar. Estás a ver aquela sensação que tu tens quando vês uma série de televisão ou um filme qualquer em que te cruzas com o actor e vais ter com ele como se ele fosse o personagem? Houve ali uma ligação automática, e eu já a conhecia na minha cabeça, por a observar há tanto tempo. Portanto saltou-se por cima dessa parte da amizade e foi fácil.”

A primeira edição com 150 exemplares esgotou pouco depois de ser anunciada, a segunda com mais 75 está quase a ir também. No meio de toda esta azáfama, Vera Marmelo entrega em mãos, sempre que pode, cada encomenda. “É só porque é muito divertido, e porque conheces as pessoas. É uma edição tão pequenina, porque não ter esse contacto com quem a quer?” Depois das exposições, do blog, dos trabalhos promocionais de músicos, de videoclips, é a primeira vez que tem um trabalho editado. “Isto é mais fixe. Até agora a exposição que teve mais impacto e mais visibilidade foi no Museu da Música. Mas isso foi muito especial, porque nós fazíamos concertos lá e acabava por ser uma cena em que não percebias muito bem se as pessoas estavam lá para ver as fotografias ou para ver os concertos. Aqui, no início aconteceu um bocado a mesma coisa. A maior parte das pessoas que vieram ter comigo dia 15 (data de lançamento da primeira edição) compravam aquilo porque gostavam muito de Noiserv, porque são fãs da Capicua, porque não sei o quê. Agora, no final, eu já fui a um photobook, que é uma cena que se organiza de fotógrafos. Tens um livro de fotografia, pegas no teu livro, vais a um sitio, está uma audiência, estás a falar sobre o teu livro, sobre o processo que te levou até lá, sobre o teu trabalho. Então com isto, foi agora a primeira vez em que eu fui colocada lado a lado com outros fotógrafos. Até agora tinha tido só essa sensação de que as pessoas eram próximas daquilo que eu fazia, e se calhar apareciam na exposição, ou porque eram meus amigos, ou porque tinham uma ligação ao meio da música de onde aquela gente aparecia. A parte gira é que qualquer pessoa pode ter aquilo em casa. Eu fico bué contente quando penso, isto vai ficar na prateleira de alguém. Na Vodafone FM eles meteram os posters todos pendurados, na Radar também. E depois houve pessoas a quem eu mandei as fotografias por correio e que tiraram, porque eu pedi, fotografias a elas próprias com os cadernos na mão e ficas um bocado com aquela imagem de que aquela pessoa que eu não conheço de lado nenhum tem uma cena minha em casa.”

Nos últimos anos, a Vera tem fotografado muita coisa que vai além da música, mas esta é sempre o ponto de partida. “A fotografia acontece por causa da música. Coisas que não têm nada a ver com a música que têm acontecido, tipo fotografar miúdos, ou aquelas cenas que fiz nos Açores, ou quando foi para o Lux em que eu fui fotografar os artistas todos ou todas estas coisas, aconteceram vindas de outros, de pedidos de outras pessoas. A única coisa que eu provoco, regra geral, é, agora mais do que antigamente, fotografar amigos, fazer retratos a amigos. Não me chateia, não procuro outras coisas e lido bem com fotografar o que quer que seja. É uma coisa que tu fazes sem problemas nenhuns. Depois acontecem cenas muita fora, como em 2014 ir a quatro casamentos e fotografar três deles, e não sou capaz de dizer que não, porque ou são pessoas que são amigas, que são próximas, ou são pessoas que já fotografei. Eu fico um bocado, Isto não é muito a minha cena. É muito difícil, difícil, demorado, muito cansativo e tira-te muita energia, mas tu ficas um bocado com aquela sensação de que, Bolas! estas pessoas merecem. Eu gosto muito das minhas fotografias, então posso dar-me ao luxo de dizer isto, estas pessoas merecem recordações deste dia feitas por mim, porque eu gosto muito delas. Então eu faço as cenas todas sem problemas. Não me chateia fazer cenas diferentes. Pronto, há alturas em que eu estou cansada. Isso já aconteceu, simplesmente cancelar todos os trabalhos que tinha, seja a concertos, seja fotografar músicos, seja o que for, mas isso são fases da vida em que estou super cansada e não apetece.”

Entre retratos e concertos não existem preferências porque, acima de tudo, “gosto de tirar fotografias, não sofro nada com ser retratos ou ser estar com os amigos, não me faz diferença nenhuma. Divirto-me muito a fotografar concertos desde que seja naqueles sítios onde eu vou sempre e já sei as manhas todas como a ZDB, onde gosto muito de fotografar.” No entanto, refere que lhe chocam os fotógrafos que nos concertos abusam e incomodam público e músicos. “Estas coisas deixam-me incomodada, e eu quase deixo de fotografar por pensar que não quero fazer parte deste espectáculo que se está aqui a passar, que é uma pessoa a estragar o concerto de alguém. Isto tem acontecido muitas vezes. Acabo por estar em contacto quer com os programadores, quer com pessoas que vão assistir aos concertos que depois me dizem: Não tens noção. Este último concerto a que fui era mais fotógrafos do que outra coisa qualquer. No Out.fest isto aconteceu, houve assim cenas terríveis. Custa-me fotografar concertos em que sinto que poderei estar a incomodar, mas regra geral divirto-me muito a fazê-lo e já se transformou em algo que é meio viciante, e de certa forma é um bocado a minha justificação para estar naqueles sítios. As pessoas já estão à espera que eu o faça e eu própria já estou nessa disposição. Eu agora prefiro mil vezes sair de casa com a minha mediozinho formato, estar a conversar com alguém e depois fazer uns retratos mas divirto-me muito a fotografar concertos. Tenho esta preguiça de levar a maquina atrás porque é muito pesada e às vezes bate a saudade de ver um concerto sentada sem estar com a ideia de fotografar. Porque não tem nada a ver. Não vês o concerto ou então pensas o concerto de uma maneira diferente. Não ouves da melhor forma, mas tens outra coisa não é? Tens um contacto com o músico que é super especial e eu às vezes quase que sinto que eles conseguem, não conversar comigo, mas existe uma troca de olhares em que se percebe que a pessoa está ali.”

Para o ano já está a ser pensado um novo trabalho editado, desta vez a dois. “Já está algo a ser feito a meias com outra pessoa para o ano que vem. Essa aí está garantida e acho que temos tempo suficiente para a coisa ser mesmo fixe e feita como deve ser. Entretanto também já pensei que poderia ser muito giro fazer uma coisa exactamente igual mas com os que faltam, para ir buscar o Bernardo (BFachada), o Tiago (Tiago Sousa) e se calhar outras pessoas que façam mais sentido agora. As pessoas até podiam se quisessem juntar os dois cadernos num só. ”

De resto, confessa que tem muita vontade de fotografar o trabalho do pai. “O meu pai trabalha em garagens que têm imensas coisas, é um trabalho bué manual e eu estou a adiar constantemente ir fotografá-lo a trabalhar. Quero fazer disto um projecto a longo prazo. Ainda nem sequer lhe disse mas tenho vontade de o fazer há meses. Começo a pensar… já que guardei a vida toda de tanta gente porque é que não começo a guardar outras coisas. Ya, é isso.”



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