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Os arquivos do património musical português

Debates em obra com moderação de Tiago Pereira na Baixa-Chiado PT Bluestation. Dia 17 de Dezembro com Carla Raposeira e Vasco Casais

Tiago Pereira começou por apresentar as razões pelas quais estes eram os convidados do último debate do mês de dezembro: Carla Raposeira da Fundação Inatel, pela importância que a fundação teve no início da MPAGDP, e Vasco Casais pelas remisturas que tem feito, no projecto musical Omiri, a partir dos arquivos da MPAGDP.

“Dentro da função arquivadora do projecto da Música Portuguesa a Gostar Dela Própria, ligar os seus arquivos com as tradições musicais das suas regiões de origem é fundamental. Através da criação de um sistema de georeferenciação que identifique os arquivos com os locais a que pertencem.” Tiago Pereira informou que esse sistema está em construção, e defendeu que os arquivos musicais não devem ser estáticos, mas que devem ser continuamente remisturados para se manterem actualizados. E que uma forma muito importante de manter os arquivos do património musical português vivo é através dos instrumentos tradicionais de cada região: “Os instrumentos musicais de cada região deveriam fazer parte da música estudada nos conservatórios de música e nas escolas do 1ºciclo locais. Apesar de haver excepções, essa não é ainda a regra.”

Carla Raposeira iniciou a sua intervenção lembrando que desde 1957 que o Inatel, actualmente uma fundação, sempre trabalhou na cultura tradicional e na etnografia, apoiando edições discográficas e registos vídeo. “Temos uma colecção de arquivos, de cerca de 7000 exemplares, compostos por vinis e cd’s feitos pelos próprios grupos etnográficos e por registos de investigadores. Em Portugal não existe um registo, organizado, da nossa história musical. A biblioteca nacional não tem depósitos sonoros, daí a dificuldade em fazer a história da música portuguesa. Queremos fazer esse arquivo nacional, não faz sentido não termos esse arquivo.”

Sobre o remisturar dos arquivos, Carla Raposeira respondeu: “sobre o remisturar sou totalmente a favor. Alguém ligado à antropologia não pode defender a cristalização das práticas culturais. Se as culturas não se remisturassem ainda estaríamos na idade das cavernas. O papel do arquivo é funcionar como registo da história do que aconteceu para termos um presente musical muito mais esclarecido.”

Vasco Casais, dos Omiri e Dazkarieh, começou por perguntar pelas recolhas de Michel Giacometti, etnomusicólogo famoso pelas suas recolhas musicais em Portugal durante os anos 60 e 70 e criador com o compositor Fernando Lopes Graça dos Arquivos Sonoros Portugueses.  Ao que Carla Raposeira respondeu: “As recolhas estão espalhadas por várias colecções privadas. Quatro mil registos em Sendim, no arquivo sonoro de António Maria Mourinho. Lopes Graça está noutro sitio, as coisas estão espalhadas. E não existe um arquivo central onde se possa aceder aos arquivos.”

Tiago Pereira perguntou a Vasco Casais sobre o tema das misturas dos arquivos: “Não tenho grandes filosofias, pego em coisas antigas e adapto ao que quero fazer hoje. Pego numa velhinha e descontextualizo as canções, mudando as notas ou os ritmos para lhes dar o meu contexto, tornando-a na música com que me quero expressar. Mostrando as versões das músicas descontextualizadas aos proprios velhotes, eles até gostam mais. Ao contrário do meio académico urbano, que é preconceituoso sobre o que é tradicional ou não. Chamamos tradicional a coisas do passado, mas ao trazê-las para a cidade estamos a trazê-las para este tempo.

“Eu tive uma formação clássica, e todos estamos habituados a uma afinação temperada nas rádios. Os instrumentos são geralmente de má qualidade. Porque os bons construtores não se envolvem muito na construção de instrumentos tradicionais. Se os instrumentos são maus os bons músicos não querem pegar neles e não dão exemplo aos músicos mais novos. O Júlio Pereira é uma excepção e um exemplo para quem, hoje, quer tocar cavaquinho ou viola braguesa. É uma espécie de pescadinha de rabo na boca. Em geral há uma questão problemática com a cultura popular, em que os músicos tocavam e cantavam de ouvido e há musicas que depois não valem muito. Os próprios autores da maior parte das músicas são anónimos. Eu, próprio, ainda tenho preconceito com alguns dos géneros mais populares e estereotipados, e costumo só usar sonoridades tradicionais com que me identifico mais. Contra mim falo.”

Tiago Pereira perguntou a Carla Raposeira sobre os autores nos grupos tradicionais: “Nas músicas tradicionais há muito a ideia do anónimo e isso não existe. A música popular tem sempre um autor, e muitos grupos até não querem admitir que esse autor existe. De facto, existem excelentes autores de música popular. O exemplo madeirense da música popular mais conhecida e mais ligada à região da Madeira é uma peça do Max, conhecido cantor dos anos 60.

O preconceito é que não aproximou bons músicos, que assim desenvolveram outras áreas da música não tradicional. Se houvesse um trabalho mais pedagógico com o público haveria mais aceitação. Já vi espectáculos etnográficos com salas cheias e bilheres esgotados. A ideia de que a música popular e tradicional tem de ser feita pelo povo ignorante e anónimo é falsa. Sempre houve autores e sempre houve música escrita mas como não há arquivo musical não sabemos a história desses autores e dessas músicas.”

Vasco Casais lembrou que há exemplos de outros países onde a relação com a música tradicional e os seus autores é diferente: “Na Galiza a gaita de foles é o instrumento nacional, em França há varios conservatórios de música tradicional. O nível técnico do ensino da gaita de foles na Galiza é equivalente ao ensino de um violino cá.”  De qualquer maneira, Vasco Casais já acha que falta pouco para darmos um grande salto. “Os meus alunos de gaita de foles já subiram um nível, e eu para os acompanhar agora já teria de voltar a estudar. Por isso os alunos deles já estarão num nível ainda mais acima.”

O debate evoluíu, com a discução a centrar-se nas identidades da música portuguesa vista por cada um dos intervenientes:

Tiago Pereira: ”Em Portugal, quando perguntas a alguém de onde é, as pessoas nunca dizem de que aldeia são, mas da cidade que ficar mais perto.”

Carla Raposeira: “A preocupação com a identidade é uma coisa recente. Ao início as pessoas, quando lhes dizia o que fazia, brincavam comigo a dizer que eu ia trabalhar na pimbologia. Nós temos muito a tendência de querer ser iguais aos outros mas nós só nos destacamos por aquilo em que somos diferentes dos outros. Também acho que é uma questão de tempo até os conservatórios terem cursos de música tradicional. A evolução da música é constante. Basta ver a história dos instrumentos vermos como evoluiram e são tão diferentes de há 200 ou 300 anos.”

Vasco Casais: ”Primeiro conheci as músicas do mundo, e só há coisa de cinco anos comecei a reparar que haviam muitos a fazerem isso mas dentro das suas próprias tradições, e que eu devia investir nas tradições portuguesas. Em Portugal só gostava dos Gaiteiros de Lisboa. O que os diferencia é o trabalho feito por cima das recolhas do tradicional. O vintage está na moda mas não é o vintage português, é o vintage americano dos anos 50. Nós importamos tudo e temos pouco brio naquilo que é nacional.”

Aqui Tiago Pereira mostrou um exemplo simples de como o tradicional e o moderno podem coexistir, sendo que esse foi sempre o subtexto destes debates sobre a música portuguesa a celebrarem a tradição do futuro.



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