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Raiz di Polon

Arte Cabo-verdiana a preço de amigo.

“Enquanto eu for presidente, as aulas não se pagam. Até hoje tive várias sortes na vida, por exemplo, no fim do mês vou para Vermont ter uma formação com um dos maiores encenadores do mundo e não vou pagar nada por isso. Quero dar isto aos outros”. Queriam, não queriam? Nós também. Infeliz ou felizmente as palavras não são nossas mas de Mano Preto, o presidente dos Raiz di Polon. Raiz d quê? Di Polon. Aguenta mais umas linhas e já vais perceber. A Rua de Baixo apresenta o grupo de dança contemporânea mais importante da Europa de África, o país comummente chamado de Cabo Verde. Caríssimos leitores, estes são os Raiz di Polon; a outra parte já é convosco – olhem que se encontram bons pacotes de viagens.

A raiz

Mano Preto ou José Manuel do R. G. Brandão (aqui entre nós, pseudónimos não fofinhos são sempre boas opções, olhem o Mark Twain, a Florbela Espanca ou o Lelo Minsk) é coreografo, interprete, cenógrafo e, vá respira, co-fundador e presidente dos Raiz di Polon. Vamos por partes então. Os Raiz di Polon – embondeiro talvez seja mais explicito ou, pelo menos, de mais fácil visualização. São aquelas árvores gigantes da savana africana, as mesmas que aparecem nas fotografias de férias nos safaris no Kénia, geralmente a serem abraçadas por uma família inteira vestida à Coronel Tapioca – são um grupo, aliás, O GRUPO de dança contemporânea que mais tem posto Cabo Verde na cena cultural internacional. Fundado por Mano e pelo grande bailarino e coreografo Cabo-verdiano Zezinho Semedo, começou numa pequena semente mas pronto de fez raiz.

Numa conversa informal algures em 1994, provavelmente entre uns golos de uma bebida fresca qualquer, pensaram na importância de criar um grupo sério, duradouro, que fizesse perdurar a arte de Cabo Verde. Não sabemos, não cientificamente, se foi do nome mas o certo é que a raiz do tal Polon deu a força necessária para continuar o sonho e vê-lo crescer até ao que é hoje. Ao mesmo tempo, e porque um trabalho assim não resiste sem ramos igualmente robustos, Mano e Zezinho contaram sempre com a ajuda dos amigos, como o já falecido poeta Mário Fonseca, o instituto INAC e Mário Rito. Entre outras coisas menos físicas, conseguiram deste modo arranjar espaços para os ensaios, como a sala actual que foi cedida pela Câmara da Praia, capital de Cabo Verde.

Os Raiz di Polon

Pois que vamos a factos. Os Raiz de Polon têm assumido um papel de extrema importância da divulgação da cultura Cabo-verdiana, nomeadamente na área da dança e expressão dramática. Mas desenganem-se os pensam que neste grupo encontram apenas mornas, funanás e zooks. Até podem encontrar mas, acima de tudo, ali dança-se a sério, à maneira contemporânea, com muito suor e garra equilibradamente misturados. E, a melhor forma de ensinar arte em Cabo Verde é através de aulas gratuitas, acessíveis a todos. Só assim não se deixa ninguém de parte.

Voltando ao Mano, já que não há grupo sem líder, trata-se de um elemento essencial não só para a coesão e organização e próprio crescimento. Como já referimos, Mano Preto é o presidente da Associação Cultural Raiz di Polon e director da Companhia de dança Raiz de Polon – exactamente, são coisas distintas. Este senhor que em 2007 foi homenageado pela Câmara Municipal da Praia em reconhecimento do trabalho que tem desenvolvido a nível da cultura Cabo-verdiana, está em todas. Como se costuma dizer, paixão puxa paixão e, no caso de Mano, foi e o cinema puxou a dança. Desde miúdo que sempre que ia ao cinema ver filmes de acção juntava-se com os amigos para repetir as sequências. Para além disso, sempre foi fã e praticante assíduo de patins em linha, um desporto muito comum nas praças de Cabo Verde.

Mas líder que é bom líder não vive sem uma legião à altura. Deste modo, os bailarinos dos Raiz têm uma capacidade de entrega e dedicação fora do comum, pelo menos quando comparadas com o comum mortal. Convém não esquecer que dança a nível profissional precisa de constante treino, pelo que o trabalho nunca está terminado. Aqui entre nós, é evidente que poder ser uma referência no panorama artístico Cabo-verdiano e mundial dá aquele estímulo. Mas não chega, é preciso garra. E essa eles transpiram.

Os Raiz e os espinhos

Infelizmente nem tudo são buganvílias na história dos Raiz di Polon. O actual espaço de ensaios, cedido pelo Governo de Cabo Verde, começa a ser pequeno para tanto talento e curiosos reunidos em pouco mais de 15 metros quadrados. Até porque as aulas, lá está, são livres e não se nega a entrada a ninguém. Pelo contrário, puxa para aqui, encosta para ali até caberem todos. A solução passa pela abertura de escolas satélite dos Raiz di Polon, em parceria com a Câmara Municipal da Praia de modo a conseguir chamar mais alunos, dar-lhes as condições necessárias para a prática e, consequentemente, continuar o trabalho desenvolvido até então com a mesma qualidade e dedicação. Mas todos sabemos que, infelizmente, nestas coisas a boa vontade não chega por si só. Empresas de Cabo Verde, se estiverem a ler isto, dêem aquela mãozinha monetária, não é preciso assim tanto e fica sempre bem no IRS.

Para além disso, são precisas pessoas qualificadas para desempenhar o papel pedagógico. Neste momento, Mano conta com o apoio de Bety ( a protagonista do documentário Kontinuason), Cacá e Nuno, professores que disponibilizam os seus fins do dia, de semana e feriados para transmitir aos outros a sua sabedoria e amor pela dança. No fundo, é isso que os Raiz di polon têm para dar, essa experiência da dança. E é muito mais do que se possa imaginar com estas palavras, sobretudo num país como Cabo Verde.

Aulas de vida

É de pikinote que se torce o pepino. E, por consequência inevitável, que se constrói a raiz. E os raiz. O número de crianças inscritas nos Raiz di Plon são motivo de orgulho. São mais os que ficam, ano após ano, que os que pensam sequer em desistir. Se passarmos num fim do dia destes pelos ensaios, é vê-los e vê-las (embora mais meninas que meninos) a dançar e a cantar com aquela alegria ingénua dos miúdos. Trancinhas para um lado, carrapito para o outro, lá tentam do entrar no tom, afinar o passo, acertar no balanço. Porque a ginga, essa é natural. Mas mais natural ainda é querer brilhar perante o olhar dos curiosos que vão passando, parando e observando com toda a atenção que este espectáculo pede.

É na sala ao lado que estão os grandes, alguns há mais de cinco anos. Pode não parecer exagerado mas numa sociedade como a Cabo-verdiana, ainda rica em disparidades e desigualdades dificilmente compreendidas perante os avanços dos últimos anos, é de louvar. Não obstante, a postura destes bailarinos e bailarinas é de bem com a vida, de respeito ao próximo. Porque isto de ter um dom especial, a tão aclamada estética da vida, de nada funciona quando guardada no baú pessoal.

Um espectáculo

Então e exibições, perguntam vocês? E nós, que não queremos que vos falte nada, respondemos. Neste momento o trabalho em marcha já há 6 meses, Povo das Ilhas – teve a sua antestreia no passado dia 26 de Março na cidade da Praia e, ao que consta segundo as boas línguas, foi “ Um espectáculo”, esse mesmo, o literal – conta com o apoio de músicas Cabo-verdianas clássicas com o intuito de combater o má onda musical que tem envolvido Cabo Verde nos últimos tempos, ao mesmo tempo que põe os alunos, e consequentemente, os espectadores em contacto com os nomes mais sonantes da música deste país. É estar atento que eles andam aí. Afinal já estiveram em mais de 42 países um pouco por todo o mundo, incluindo, claro está, Portugal. Sim, os Raiz di Polon eles adoram Portugal, a sua plataforma de lançamento para o mundo. Com sorte, contamos com eles já em 2011 com a peça Cidade Velha, homónima da belíssima terra da Ilha de Santiago e reconhecida como património da Unesco. Trata-se de uma co produção com a ONG Holandesa Mundial Productions, tal como o nome denuncia, uma produção mundial original da Holanda.

Como vês, o futuro está criar ainda mais raízes. Segue o balanço gingão e cria também as tuas. Sabemos que a Praia não é aqui ao lado, mas se fores a Cabo Verde aproveita estas aulas à borla. Para isso, basta levares uma roupa confortável, coisa simples, e aparecer na rua 5 de Julho, no Plateau, pelas 18h30. Certamente que não te vais arrepender. Eu cá não me arrependi.



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