“Reflexões sobre a escravidão dos negros” | Condorcet

“Reflexões sobre a escravidão dos negros” | Condorcet

A idealização do homem integral

Publicado pela primeira vez em 1781, “Reflexões sobre a escravidão dos negros” (Antígona, 2014) passou sem deixar rasto, tendo tido apenas algum reconhecimento quando a segunda edição surgiu em 1788. Aliás, a história por detrás da edição deste manifesto de Condorcet é bem curiosa.

A carta de recusa que Condorcet recebeu dos editores não podia ser mais explícita, acusando a obra de conter «coisas banais, escritas num estilo pouco correcto, frio e sem elevação.» Condorcet não se ficou. Ao invés de atirar com a missiva para o caixote do lixo ou de a guardar para ler mais tarde quando o futuro lhe sorrisse, escreveu de volta aos editores. A carta comoveu estes últimos de tal forma que uma nova missiva foi enviada a Condorcet, entre o risco assumido e mostrando um claro sentido de humor: «Esta carta parece-nos de um homem tão bom, que resolvemos publicar a obra. Arcamos com os nossos custos tipográficos, ou os leitores com algumas horas de tédio.»

Editadas com o pseudónimo de Schwartz (“negro” em alemão), estas Reflexões foram escritas à luz da Popularphilosophie, que tinha como meta superar ou compensar a clivagem entre iletrados e eruditos, a fim de idealizar o homem integral.

A obra, que se tornou num clássico sobre a denúncia, é um violento ataque à escravatura, bem como uma condenação geral das injustiças e ultrajes que a Humanidade parecia ter abraçado até então e que, em algures lugares do globo terrestre, permanece ainda hoje como uma triste realidade.

«Meus amigos, ainda que eu não seja da mesma cor que vós, sempre vos considerei meus irmãos», começam desta forma as Reflexões que ajudaram a expor um dos mais trágicos períodos da história da Humanidade. Apesar de uma vida dedicada em grande parte às causas do anti-esclavagismo e dos direitos das mulheres, tendo também proposto uma reforma geral do ensino público – baseada nos princípios da gratuitidade e do laicismo -, Condorcet criou inúmeras inimizades, sendo acusado de traição em 1793 e passando os seus últimos dias no cárcere. Estas “Reflexões…” são, se quisermos, o seu bravo testemunho.

A edição da Antígona oferece ainda os textos “Ao Corpo Eleitoral, contra a Escravidão dos Negros”, destinado a apaziguar os receios económicos dos colonos da época e “Sobre a Admissão dos Deputados dos Plantadores de São Domingos à Assembleia Nacional”, que põe em causa o direito dos esclavagistas à representação parlamentar.



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