Tigran Hamasyan @ CCB (26.02.2014)

Tigran Hamasyan @ CCB (26.02.2014)

Música popular e cacofonia electrónica em teclas de um homem só

O pequeno auditório do CCB encheu-se ontem à noite para testemunhar o regresso de Tigran Hamasyan a Portugal, em estreia na capital. O jovem arménio tem vindo a dar que falar nos meandos do jazz, pela destreza e domínio técnico que materializa a solo ao piano – o que talvez não esperássemos era ver essa sensibilidade ser transportada para composições cuja génese bebe de terrenos vincadamente díspares.

Mas a capacidade de improvisação de Hamasyan não nos era completamente estranha – no passado Julho, o dueto que tinha previsto com o percussionista Trilok Gurtu em Sines foi transformado em solo devido a problemas logísticos -, e a intensidade é raramente abalada. Com um pequeno conjunto de instrumentos dispostos em seu redor, o músico vai erguendo composições, ora reproduzidas ora produto do momento, que vão desafiando a génese de trabalhos que se mutam numa busca. Busca essa que é menos sobre o destino e mais sobre a viagem.

O último concerto a solo de Hamasyan da digressão assomou-se como um desafio ao próprio músico – admite às tantas que costuma tocar acompanhado. Para nós isto é novo – nunca o vimos nessas circunstâncias –, e os temas de “A Fable” vão tomando o auditório em composições que não destoariam num recital de piano, mas também em cacofonias emprestadas a ambientes electrónicos, numa fusão que tem tanto de envolvente como de intrigante. Em boa verdade, esta capacidade de reinvenção – às tantas a percussão em forma de beat-box é que carrega a melodia – é uma das capacidades mais implacáveis do jovem pianista.

Como dizíamos, o importante aqui é a viagem – e essa é bem mais visual do que o cenário minimalista faria antever – começando em variações harmónicas remascentes da música popular arménia, passando por paisagens pós-apocalípticas construídas às camadas por loops sucessivos, e chegando a improvisações de que o próprio jazz mais livre não desdenharia. Tudo isto é conduzido por uma linha que não dispensa uma clara influência clássica que é automaticamente identificável numa noção de ritmo sem grandes paralelos: ora cabisbaixo sobre as teclas, ora hirto sobre tons mais graves, cada compasso é debitado com uma paixão que não pode ser simulada. Bravo!



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