“Regresso ao Admirável Mundo Novo” | Aldous Huxley

“Regresso ao Admirável Mundo Novo” | Aldous Huxley

Toma o comprimido que isso passa

O futuro distópico de “Admirável Mundo Novo” sugeriu a alienação plena do homem através do “excesso de organização”, do torpor e da manipulação, tríplice este que parece estar cada vez mais em consonância com os nossos dias. A par do igualmente célebre “1984”, paralelismos aberrantes com o quotidiano de 2014 serão imediatos para qualquer leitor. Não são despropositadas as comparações com a condição orwelliana da omnipresença totalitária e, para que não restem dúvidas, Aldous Huxley nunca tencionou menosprezar o brilhantismo do autor que nos deu o Grande Irmão.

Vendo laivos do mundo distópico que criara tomarem conta do quotidiano, Huxley quis revisitar os diversos planos temáticos do seu romance mais lido, num “Regresso ao Admirável Mundo Novo (Antígona, 2014). Trata-se de um conjunto de breves ensaios que procuram não só validar a actualidade da obra precedente, como também alertar para a chegada adiantada e sem aviso do contexto imaginado para o ano de 2540 (632 after Ford). Entre a primeira edição de 1932 e este Regresso…”, de 1958, um marco histórico transfigurou o status quo de então. Os escombros da «Segunda Grande Guerra, já precedidos pelo vigor fervoroso dos totalitarismos de esquerda e direita, deram uma nova dimensão de estudo à obra.»

Décadas depois de “Admirável Mundo Novo”, o cariz viral da população humana parecia preocupar Huxley como nunca. O descalabro social e as nefastas consequências da sobre-população para o ecossistema terrestre pareciam adiantar nada mais do que a morte lenta da espécie humana. Aquando da publicação original desta revisitação temática, calculava-se a população mundial em dois mil e oitocentos milhões. Escreve Huxley que quando a sua «neta tiver cinquenta anos haverá mais de cinco mil e quinhentos milhões de seres humanos.» E haverá com certeza, tanto que hoje estamos estimados em sete mil milhões.

De igual modo, a demanda do homem moderno em encontrar deus no capital, no mercado livre e no consumismo não fará abrandar os totalitarismos, a manipulação dos mais susceptíveis e a perseguição daqueles que não são ou são menos passivos de acarretar ordens. Novas formas de repressão e controle sob repetidas garantias de liberdade parecem elevar-se a qualquer sentido crítico, colocando a democracia num plano cada vez mais abstracto, deslocada dos seus princípios.

Mesmo que muitos dos medos de Huxley sejam vividos em 2014, outros tantos faziam sentido na época em que foram redigidos. Fascinante, porém, é a ideia de que este Regresso se dá antes do arranque dos míticos anos sessenta, conseguindo Huxley antecipar o pensamento tão vinculado à década. Refreando a sua visão onírica, Huxley teoriza para além da ficção, disciplinando o tom profético com a busca de validações no presente – algo como para lá caminhamos, mas vejam o que está a acontecer agora. Sabendo que ainda nos resta o livre-arbítrio, quase audível, o mantra de Timothy Leary é o que aqui parece encaixar: «pensa por ti mesmo, questiona a autoridade».



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