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Rita Vian | Entrevista

Rita Vian esteve presente no segundo dia do Tom de Festa - Festival de Músicas do Mundo ACERT. Perspicaz e interventiva, como se ‘crê’ dos poemas mais marcantes e distintos.

Estivemos à conversa com a artista que, naquele fim de tarde do dia 10 de Julho, nos ‘sacudiu’ o coração. 

Obrigada, Rita! Boas escutas deste “SENSOREAL”, fenomenal, sensorial.

Rua de Baixo (RDB): Como é que tem sido o teu crescimento enquanto artista-pessoa, pessoa-artista, e de que maneira isso se reproduz em cada composição?
Rita Vian (RV): Eu acho que no princípio há sempre uma certa ‘capa’ que se leva de tudo o que pode acontecer em palco; vai desvanecendo ao longo do tempo, mas é uma capa que te protege a cantar, a falar sobre as coisas que estás a dizer… com o passar do tempo, tanto os textos que escreves, como a tua performance, vão ficando mais fluídos e mais reais, ao encontro do que querias… e eu acho que o crescimento é sempre exponencial, como se fôssemos parar a sítios de maior força, de mais encontro connosco. 

RDB: Neste desembrulhar que fazes com o passar do tempo, como é que te vais amparando a cada nova composição? O que te segura/agarra?
RV: Olha, sinceramente é o contrário, deixas de te agarrar seja ao que for. Começas a não reparar naquilo que estás a dizer nem naquilo que estás a escrever, estás só a escrever aquilo que queres e que sentes e deixa de existir algum tipo de segundo pensamento.

RDB:  Editaste o teu álbum de estreia, “SENSOREAL”, em 2023. O que revela esse álbum? O que absorve e que ideias se foram desvelando ao longo desse processo em contínuo? (Há um eu e um tu… um tu e um eu. Até onde vai essa comunhão entre dois seres, que se esperam individuais apesar das mãos que dão e não ‘deslargam’?) Consigo separar o título do álbum SENSO + REAL. E acho isso maravilhoso. Fala-me sobre o título do mesmo.
RV: O título do álbum foi uma ideia que eu tive sobre o senso comum ser demasiado abrangente, porque, de facto, a realidade de cada um é muito diferente e esse senso comum é muito utópico. Por sua vez, o senso real é sermos capazes de estar em frente a uma pessoa e ouvirmos o que a mesma tem para dizer, pois a realidade dela, no fundo, é totalmente diferente da nossa. Temos de ter uma boa capacidade de escuta, tanto a nós próprios como aos outros. Às vezes estou a falar para alguém, às vezes estou a falar para mim… como se saísse de mim para me ver de fora também… eu escrevo a falar sobre mim e sobre a minha vida, mas às vezes também estou a falar de pessoas, de alguém e torna-se uma conversa, uma história com alguém. Acima de tudo, a minha escrita está relacionada com a canção portuguesa e o hip hop e a fusão desses dois universos que existem em mim é muito evidente, desde logo porque mais do que enfeitar as coisas de modo bonito com poesia, sempre tive muito mais vontade de escutar a realidade como é – difícil, triste, feliz, desafiante… 

RDB: A tua música é muito voo livre. O que esperas da mesma? Ou, por outro lado, o que procuras através dela?
RV: Procuro liberdade, procuro escrever e estar em palco a dizer exactamente aquilo que eu quero dizer. Não procurar por vezes… e acontece… escreves uma canção e contas, ao criar, uma história… 

RDB: Vou dar-te três ou quatro expressões (pedaços de letras do teu álbum “SENSOREAL”) e quero que me digas uma palavra ou expressão que represente isso mesmo. Começo por “Cedências naturais”…
RV: São fluidez. 

RDB: “Relativizar a altitude”… 
RV: É não te deixares levar pelo teu ego. É saber que és uma pessoa igual às outras e que tens de escutar, e saber fazê-lo. 

RDB: “Viver é um tentar acumulado”…
RV: É cansaço. É ultrapassar esse cansaço.

RDB:  “Paralelo do presente”…
RV: É quando consegues sair dos sítios onde estás para analisá-los, permitindo-te a viver com sanidade. 

RDB: Fala-me deste excerto da música “Animais”, “(…) Animais no meu capuz / Que eu tapo a cabeça com o casaco / Mas recebo logo da outra luz / Tenho a minha aventura e a minha cruz no mesmo sítio / Passeio com os meus pensamentos / E levo-os todos ao princípio / Instalo e desinstalo os fundamentos (…)”.
RV: A primeira parte é… a ideia dos monstros e bichos que temos dentro da nossa cabeça, sendo que se eu tentar tapar a mesma, se eu me esconder, tenho sempre o outro lado. É como se eu nunca estivesse no escuro, como se a minha imaginação, a minha criatividade, os meus monstros, ou até os animais mais afáveis fossem coisas que eu uso para construir a minha vida e não ceder. A segunda parte é… eu viver da minha própria cabeça e as dualidades constantes que a mesma alberga. Eu vivo da minha capacidade criativa… e é aceitar que às vezes corre melhor e outras vezes corre pior… vai haver momentos em que vou ter mais coisas para dizer e outros em que o bloqueio vai aparecer. Vou ter de lidar comigo para sempre, não posso responder por mais ninguém. Mas, no fundo, esta é a maior liberdade que podemos ter. Estou comigo para o bem e para o mal. 

RDB: Se pudesses passar um dia com um músico, quem seria e porquê? 
RV: Com a Amália Rodrigues e com o Manel Cruz. Íamos os três passear, parar a um sítio a céu aberto, à noite, assim mais na floresta, para ouvirmos os bichos e os pássaros… onde pudéssemos pensar em conjunto.

RDB: Quem é a Rita (Vian)? O que fica por dizer? E o que aí vem? 
RV: Vamos esperar. Nada fica por dizer, porque eu vou sempre dizer coisas a seguir. E já disse algumas, não é? Por isso, já valeu a pena. Eu penso muito nisto que é, eu vivo mesmo a fazer o que gosto e fico mesmo feliz que assim seja. Trilhei um caminho árduo e muito solitário… até ter ido parar aos braços das pessoas certas, e isso também é uma grande sorte. 





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