Rocky Creed

De Rocky a Creed

uma rocha dura que a água mole não quebrou.

“A última coisa a envelhecer é o coração”
Marie, Rocky Balboa, 2006

O Boxe é talvez o mais polémico dos desportos e um tremendo contrassenso para aquilo que podemos chamar de entretenimento ou estilo de vida saudável.

Dois indivíduos que aparentemente nada têm um contra o outro, digladiam-se em combates encarniçados, por vezes até ao limite da dor e da força humana com o objetivo de levar de vencido o seu adversário.

Contudo o cinema possui o sortilégio de  transformar o  grotesco no inspiracional, a violência em hinos à superação, coragem e honra.

Em poucos segundos, qualquer um de nós é capaz de se lembrar de uma dezena de filmes sobre  boxe ( na realidade, mais acerca de boxers e os seus desafios e sonhos do que sobre boxe) que nos deixaram absolutamente embriagados de emoção e inspirados pelos exemplos de resiliência: Raging Bull ; The Boxer; Ali ; Cinderella Man ; Million Dollar Baby; The Fighter ; Hard Times, são apenas alguns capazes de satisfazer até mesmo aqueles que não gostam de pugilismo.

Os grandes filmes são capazes dessa magia que altera a perceção das coisas. De passarem ao lado do monstruoso, do tétrico ou do simplesmente enfadonho  e seduzirem-nos com histórias ricas, umas belas outras duras, mas sempre entusiasmantes.

Rocky é para mim, um desses grandes filmes que fala de coisas que têm muito a ver com luta, mas que ocorrem essencialmente do lado de fora das cordas. É contudo o nosso objetivo falar de toda a saga Rocky  e não apenas no oscarizado primeiro filme. E a esse respeito, temos novidades.

Creed chega agora aos cinemas e com ele , provavelmente a última hipótese de vermos a mais emblemática personagem criada por Sylvester Stallone. É tempo do mais subestimado pugilista da história do cinema, pendurar as luvas… ou talvez não.

Já falaremos de Creed – mas para já – que suba Rocky ao ringue que o combate vai começar.

“Vais comer relâmpagos e cagar trovões!”
Mickey, Rocky, 1976.

Quando Rocky ganhou os óscares para melhor filme , melhor realização e melhor edição em 1976, tendo como concorrência filmes como : Taxi Driver , Bound of Glory e All The President´s Man,  a vida imitou a ficção e o derrotado antecipado tornou-se o inesperado vencedor.

Muitas são as histórias em torno da inspiração e criação de Rocky , umas serão verdade outras nem tanto, mas todas se tornaram lendas.

A versão oficial é que Sly Stallone passava por enormes dificuldades ( tendo inclusive participado num filme pornográfico, coisa que nunca negou, chegando a afirmar que tirando essa solução, teria de assaltar alguém),viveu nas ruas e a dada altura vendeu o seu querido cão “Butkus” porque não possuía a mínima possibilidade de o alimentar, coisa que muito o  marcou.

Em Março de 1975, Stallone assistiu a um combate histórico entre o maior pugilista da história : Muhammad Ali e o obscuro peso pesado Chuck Wepner, que conseguiu levar Ali ao tapete! Wepner só viria a perder o combate no derradeiro assalto.

A inspiração para Rocky terá surgido desse combate onde um “underdog” quase venceu o ultrafavorito campeão do mundo de pesos pesados.

Rocky Creed

Stallone passou os 3 dias seguintes (alguns afirmam que passou 20 horas ininterruptas a escrever) em modo frenético, a preparar a história de um pugilista semi-amador , que divide o seu tempo entre cobrar dividas para um pequeno marginal e deambular pelas ruas do seu bairro com o seu cão “Butkus” (sim, o cão do filme é o mesmo que Stallone vendeu por 25 dólares num momento de desespero e que mal recebeu o adiantamento para a realização do filme, o comprou de volta por 15.000 dólares!),sem grandes objetivos ou paixões, tem no entanto uma atração por Adrien, uma solitária funcionária de uma loja de animais.

Por uma série de eventos fortuitos, Rocky , tem a chance de lutar pelo título mundial de pesos-pesados contra o melhor pugilista da sua geração , o mestre da destruição : Apollo Creed.

A luta reencena a luta entre Wepner e Ali, mas que podia ser também e reinterpretação da batalha bíblica entre David e Golias.

O final do combate é tão acirrado e emocionalmente tão poderoso, que alguns países como o Brasil deram ao final, uma interpretação diferente do resultado do combate. O  que altera por completo a lógica inerente ao segundo filme.

Uma coisa no entanto é inconteste, nada fazia prever o sucesso da obra, quer em termos da crítica quer  junto do público.

Quando Stallone acabou o script, apresentou-o a vários produtores, tendo conseguido a atenção de  Irwin Winkler e Robert Chartoff, que contudo ofereceram larga quantia de dinheiro( cerca de 450.000 dólares) para que Stallone não viesse a participar no filme como ator, o que desde logo foi  considerado inaceitável por “Sly”. O acordo acabou firmado pela quantia bastante mais modesta de 35.000 dólares , mas Stallone estreou como ator principal.

Rocky Creed
Se o cinema é sempre uma metáfora para a vida, Rocky não poderia ser mais a metáfora da vida de Stallone.  Em termos do filme, este é em muitos aspetos, um representante das peliculas Noir da década de 40, cheio de personagens descrentes da vida e um ambiente em geral muito sombrio e triste. Esta estética acaba por contrariar um pouco o otimismo mágico de muitos filmes de Hollywood, não negando no entanto o sonho americano, ali tão perto, contudo ainda aparentemente tão distante.

Também o cast reflete e muito o realismo ligeiramente depressivo de Sly : Burt Young (Paulie), Talia Shire (Adrien) e Burgess Meredith (Mickey), encarnam sem dificuldade essa melancolia que parece envolver todos aqueles que estão mais próximos de Balboa. Apenas Carl Weathers( Apollo Creed) e Tony Burton (Duke) trazem consigo alegria e esperança, apesar de teoricamente fazerem parte dos “maus da fita”.

Como Trivia, diga-se que não foi só Butkus a entrar no filme, entre aqueles que faziam parte do quotidiano de Stallone. Um deles, foi o  seu irmão Frank Stallone que interpreta um dos cantores de rua  e a quem Rocky a determinada altura diz : Vai arranjar trabalho, vagabundo!

O que diria Freud acerca disto?

Apesar de para o espectador atual, o filme – provavelmente – parecer lento e sem chama, não nos podemos esquecer que pelos anos 70, os planos muito abertos e longos pretendiam aproximar muito o cinema do teatro, algo absolutamente incompreensível para a geração dos planos ultracurtos e cheios de CGI.

Rocky foi um dos grandes filmes da década de 70. Graças essencialmente a um guião muito bom, interpretações sólidas e uma banda sonora inesquecível. Contudo a magia de Rocky passou em grande medida pela capacidade de tocar todos aqueles que se sentindo deserdados da sociedade de consumo e descrentes quanto ao seu valor , empatizaram com a luta de Balboa e com ele se superaram em bravura e força de viver.

Rocky Balboa é a personificação dos esforçados, que não foram bafejados pela sorte ou pelo talento e apenas contam com a sua capacidade de aguentar um soco após outro e após outro, sempre caminhando para a frente, nunca negando a luta, por muito desigual que possa ser.

E isso meus caros é a grande magia de Rocky.

Por isso, quando em 28 de Março de 1977, Rocky surgiu com 9 nomeações a Óscar (melhor filme; melhor realizador; melhor atriz principal; melhor ator; melhor ator secundário; melhor argumento original; melhor canção original; melhor edição; melhor som), todos tinham consciência que algo de novo pairava no ar…sucesso.

Como vimos anteriormente Rocky tornou-se o melhor filme de 1976 para a Academia , além disso ,arrecadou cerca de 117 milhões de dólares nas bilheteiras (custou cerca de 1 milhão) e como cereja no topo do bolo, Sylvester Stallone foi considerado o novo Marlon Brando.

Nunca mais Stallone teria tal reconhecimento por parte da crítica e da Academia.

“Só quero dizer uma coisa para a minha mulher que ficou em casa : Yo Adrien! Eu consegui!”
Rocky Balboa, Rocky II, 1979

Depois do sucesso do primeiro filme, Sylvester Stallone vive tempos mais desafogados. Em 1977 e 1978 entra em alguns bons filmes aclamados pela crítica mas que não entusiasmaram o público (FIST e Paradise Alley são bons exemplos).

Aparentemente, tanto para Stallone como para Rocky Balboa era absolutamente essencial voltar para o ringue.

Rocky II começa exatamente onde o primeiro acabou. O choque do combate entre o “Garanhão Italiano” e o campeão mundial ainda se fazia sentir, e Balboa tenta capitalizar a sua recente fama. Contudo ninguém está disposto a dar-lhe um emprego e todos o aconselham a voltar ao ringue, todos menos a sua mulher Adrien, que pede a Rocky que se afaste do Boxe antes que a sua saúde seja comprometida.

Entretanto Apollo passa pelos seus próprios problemas. Desacreditado pelos críticos e atacado pelos seus fãs pelo desfecho do seu combate com Rocky, este apercebe-se de que existe apenas uma saída para o problema : Desafiar Rocky para um combate de desforra.

Após várias peripécias, ambos encontram-se novamente no ringue para mais 15 rounds de perfeita chacina, onde Apollo mostra ser melhor, mas não o mais esfomeado pela glória e assim, o título passa de mãos e o lutador de Filadélfia atinge o topo das escadarias.

Stallone deve ter sentido a mesma coisa ao voltar ao ringue. Apesar de menos bem sucedido ao nível da crítica (ainda assim ganhou os prémios para melhor filme dos prestigiados : American Movie Awards e People´s Choice Awards) Rocky conseguiu nas bilheteiras o valor astronómico de 200 milhões de dólares.

“Quando lutámos, tu tinhas aquele olhar de tigre, aquele extra! Agora tens de o recuperar, tens de voltar ao inicio. Entendes?”
Apollo Creed, Rocky III, 1982

Se nos dias de hoje perguntarmos a alguém que tenha vivido os anos 80 do que se lembra mais acerca do filme Rocky III, a resposta provavelmente incluirá : Mr.T , a música dos Survivor ” The eye of the tiger” e talvez Hulk Hogan.

Isso não quer dizer que seja este um filme horrível e facilmente esquecível, mas para a grande maioria dos fãs da série, a surpresa já não estava lá.

Mais uma vez acontecia com Rocky o que estava a acontecer com Stallone, o sucesso.  E este por vezes inibe a criatividade e principalmente a “Fome” desse tal sucesso.

Rocky é por esta altura, um campeão  reconhecido, fazendo combates seguros e pensando já na retirada dos ringues.  Vive uma fase confortável da sua vida que partilha com a sua mulher o seu filho e o inseparável cunhado Paulie.

Tudo parece correr na direção certa até que surge Clubber Lang (Mr.T) a desafiar o campeão Balboa para um combate de título. Clubber Lang é tudo o que Balboa já não é , violento, ansioso e com a tal “Fome”. Mickey sente isso e tenta evitar o combate, mas o mesmo fica marcado. Antes do embate começar, estala uma enorme discussão entre Lang e Balboa. Com a comoção, Mickey sofre um enfarte e vem a morrer após o combate. Balboa coloca em causa tudo e é inesperadamente Apollo Creed e Duke que o vão ajudar a se reencontrar.

Este é o primeiro filme da saga onde o

original sofre uma baixa de peso, nada voltará a ser o mesmo.  Tem também os combates mais rápidos da heptologia e foi também aquele onde Stallone se aplicou mais a nível físico, como viria a confessar mais tarde.

Mas mais importante que isso, foi o primeiro a colocar Rocky como favorito e o outro adversário como “underdog”, apenas para o obrigar a reconstruir-se e voltar ao ringue como o desafiador (lugar mais comum ao herói que busca redenção).

Não é uma obra prima, mas também não é horrível. Pecando essencialmente pela falta de profundidade e caracterização psicológica  do “vilão de serviço” e por processos já muito gastos de construção do herói. Ainda assim vale a pena ver e não esqueçamos que foi  também candidato a um óscar, ainda que apenas para o enorme hit , “The eye of the tiger”.

“Se ele morrer…morreu.”
Ivan Drago, Rocky IV; 1985

Este foi o primeiro filme da série que vi no cinema. Com 10 anos de idade, tudo me parecia espetacular e claro:  Rocky representava os bons e Ivan Drago, os maus.

Só alguns anos depois tive a consciência que Rocky IV , foi um dos filmes profundamente panfletários que no auge da guerra fria, foram patrocinados pela administração Reagan e  que visavam dicotomizar o  mundo entre os bons (americanos e seus aliados) e os maus (URSS e os países da cortina de ferro).

Por esta altura Ronald Reagan não se cansava de elogiar Sylvester Stallone e Bruce Springsteen, chegando a considera-los embaixadores do “american way of life”.

Esta 4ª parte de Rocky foi precisamente isso, um panfleto publicitário de uma determinada América que via a URSS como um “Império do Mal” que só conseguia vencer os americanos graças à batota , ao doping e esquemas maldosos.

Rocky IV, foi um esforço sem mérito e enfadonho que apesar de tudo foi um sucesso comercial, muito por culpa do idealismo pró-americano e de mais uma emblemática canção dos Survivor : “Burning Heart”.

Outros motivos de interesse , são inevitavelmente, a morte de Apollo Creed às mãos do terrível Ivan Drago ( Dolph Lundgren), a participação no filme daquela que se viria a tornar a  2ª mulher de Stallone, a canastrona Brigitte Nielsen . Uma aparição em cena do lendário James Brown e os rumores de que Stallone e Lundgren deram socos reais durante as cenas, para lhes aumentar a credibilidade, tendo Stallone ficado bastante maltratado no final.

“Lembras-te de me teres avisado para estar atento às traições  e desilusões? Tu é que devias estar atento.”
Balboa Jr., Rocky V, 1990

Rocky V foi provavelmente o filme mais consensual da saga (até mais que o primeiro):  todos o odiaram!

A crítica caiu com ferocidade neste novo capítulo, onde a família Balboa perde todos os seus bens e tem de ir viver para o antigo bairro onde Rocky, Adrien e Paulie cresceram.

O estilo exageradamente melodramático e as piores interpretações de todos os episódios da história foram provavelmente  as razões principais para o insucesso. A isso poderemos ainda juntar a saturação natural para com a trama cada vez menos original, a mudança de valores dos anos 90  e o formato demasiadamente simplista da velhinha relação de tutor e aprendiz onde esta obra se tenta apoiar.

A única nota que vale a pena incluir, é a cena de pancadaria de rua entre Balboa e o seu ex pupilo Tommy Guns, que bateu em duração a maior cena do género, que era até então detida pelo filme de 1952: Um Homem Tranquilo.

Muito pouco, convenhamos.

“Quanto mais velho fico, mais coisas tenho de deixar para trás, é a vida!”
Rocky, Rocky Balboa, 2006

Por mais inverosímil que possa parecer –  e parece – um ex-atleta que ultrapassou os 60 anos ter a oportunidade de lutar contra um campeão em título, é isso que acontece em Rocky Balboa, o sexto episódio da saga Rocky.

Rocky começa a história como um dono de restaurante que todas as noites diverte os seus clientes com histórias de glórias passadas  ( um piscar de olho a Jack Dempsey, que passou os últimos anos da sua vida a fazer exatamente isso) e que por força da morte da sua amada Adrien e o afastamento do seu filho, vive uma existência muito solitária.

No entanto , uma face do passado e um programa de computador vão trazer uma nova dinâmica à sua vida e retirá-lo do seu torpor.

Sylvester Stallone consegue neste filme recuperar alguma da magia e  nostalgia das primeiras obras e que vinham gradualmente se perdendo a cada novo filme .

Um apontamento interessante deste Rocky Balboa, é o facto de que praticamente todos os atores secundários que dele fazem parte , fizeram parte dos dois primeiros filmes.

Rocky Balboa é construído à volta de uma série de eventos muito pouco verosímeis, mas tem qualidade nas interpretações e momentos bastante interessantes ao nível dos diálogos e das cenas.

É  para mim o melhor Rocky dos últimos trinta anos.

“Conseguimos Rock!”
Adonis Johnson, Creed, 2015

E finalmente chegamos a Creed, a mais nova aquisição ao Universo Rocky. A história é bastante fácil de contar: Adonis Johnson, é o filho ilegítimo de Apollo Creed (que nunca conheceu) e desde cedo sente o apelo para boxe.

Em grande medida ele torna-se uma espécie de autodidata, treinando sozinho e fazendo combates em locais remotos, sempre com receio de ser identificado com o seu famoso pai. No entanto ele desloca-se a Filadélfia, terra do grande combate do pai com Rocky Balboa.

Pede ajuda a Rocky, este recusa. Mas acaba por aceitar. O resto é o esperado…aliás quase tudo é igual ao que aconteceu no passado.

O ciclo fecha-se com Rocky a tornar-se tutor do filho do homem que derrotou no passado e que de alguma forma se sente responsável pela morte.

Creed é o único filme da saga que não foi escrito por Stallone (foi escrito pelo realizador, Ryan Coogler) e é em grande medida , uma sequência do universo origina, na medida em que abre a porta para um novo herói que vem substituir o anterior, o ciclo da vida afinal.

 

É como se Stallone estivesse a passar o testemunho.

Rocky Balboa, o filme, tinha resolvido todas as questões importantes no que dizia respeito à personagem, Creed mais que um Rocky VII, é o primeiro de uma nova saga que dá continuidade à anterior. Nesse sentido é bem razoável observar, as várias homenagens aos filmes anteriores e a “necessidade” de Adonis percorrer os mesmos locais que outrora Rocky Balboa percorreu. Ele torna-se o verdadeiro herdeiro do legado do ítalo- americano.

Michael B. Jordan, é credível enquanto pupilo de Balboa, contudo falta-lhe o carisma de Stallone. O filme conta ainda com a interpretação bastante razoável de Tessa Thompson, ainda que não deslumbre.

A fotografia é ultrarrealista, como agora começa a estar na moda, o que nos permite assistir a cada soco, cada gota de suor.

Pouco poético, mas imersivo.

Creed é um filme com qualidade, bem escrito e bem interpretado. Talvez melhor adaptado às novas gerações. Mas não faz subir a pulsação quando ouvimos a música do genérico nem nos faz dar murros na cadeira da frente durante os combates.

Será um Rocky do futuro, mas algo me diz que terei saudades do Rocky do passado.

Obrigado Rocky e bem vindo Creed!

Se tivesse que dar uma nota… Saía com um Satisfaz Bem!



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