“ROMEU E JULIETA” de Carlo Carlei

“Romeu e Julieta”

De Shakespeare com paixão…ou talvez não.

“Na bela Verona, onde se vai passar este drama, duas famílias, iguais em nobreza, impulsionadas por antigos rancores, fazem com que entre si se desencadeiem novas discórdias, em que o sangue dos cidadãos tinge as mãos dos cidadãos…”

Quantas vezes já lemos ou ouvimos estas palavras?

Nunca a paixão proibida foi tão cruelmente castigada como na tragédia do “Bardo de Avon”, e nunca também, houve tantas adaptações teatrais e cinematográficas de uma história de amor (excluindo uma outra história de amor mas essa de natureza divina como é a de Jesus Cristo).

Desta vez é Carlo Carlei (“Fluke”, “Padre Pio”), que pega num roteiro de Julian Fellowes (“Gosford Park” e “Downton Abbey”) e tem a ousadia de dar vida a esta imortal história.

Filmado em Verona e em Mântua, onde a história originalmente se desenrola, esta adaptação tem a fotografia como um dos seus pontos mais fortes, existindo sempre impressionantes frescos e palácios sumptuosos onde deleitar a vista.

A história é por demais conhecida e obviamente não sofre alterações estruturais, ainda que a opção de usar os textos originais (o que me parece muito bem) nem sempre é totalmente respeitada, com cortes em alguns diálogos e solilóquios com especial prejuízo para Julieta (Hailee Steinfeld) que perde algumas frases por demais marcantes.

Assumidamente, este filme é inspirado na lindíssima versão de 1968 de Franco Zeffirelli, mas não consegue erguer-se à altura dessa magnífica obra, por variadas razões:

Comecemos pelas personagens principais, Romeu (Douglas Booth) e Julieta, são na obra de Shakespeare dois adolescentes apaixonados capazes de esquecer todo o bom senso e caminhar inexoravelmente para uma tragédia anunciada. Tendo isso em conta e claramente apostando na geração “Twilight”, Carley escolheu para os principais papeis dois jovens que não destituídos de talento, bem pelo contrário, não formam um par tão credível como o desejado.

O problema é que Booth, assim como Pattinson em “Twilight”, apesar de terem talento e o demonstrarem em outros filmes, acabam por não colar totalmente nas personagens. Passo a explicar: A ideia de um vampiro adolescente com crises existenciais que “venderam” a Pattinson na saga “Crepúsculo”, leva-o a estar sempre em cena como se tivesse uma permanente cólica renal. Com Booth o problema é semelhante, interpretar Romeu (personagem dificílima, com cambiantes emocionais muito intensas) não se faz só de choros e de entradas retumbantes em cena qual estátua renascentista que ganhou vida. Tudo isso pode levar ao desmaio, as adolescentes que estiverem na plateia, mas não atinge os picos emocionais exigidos à personagem.

Hailee Steinfeld – é jovem e parece ainda mais jovem, é encantadora e possui um olhar com uma inocência quase angelical. Tudo isso são pontos a favor da personagem. Contudo na interacção com o seu Romeu (e isso é o mais importante) não se nota a paixão avassaladora, destruidora, fulminante, que leva à loucura e á morte.

E isso nota-se e muito.

Depois, toda a intensidade que surge da colisão entre os universos excessivos dos adolescentes e o vingativo e decadente mundo dos mais velhos, raramente é captado pela lente de Carley de uma maneira arrebatadora, e esta é uma história de paixões e descontrolo.

Sem surpresa, o filme acaba por ser levado às costas pelos actores escolhidos para representarem os papéis menores, especialmente o grande Paul Giamatti no papel do bem-intencionado mas desastroso Frei Lourenço e o muito competente Damian Lewis, num convincente patriarca dos Capuletos.

Sem ser sublime como o Romeu e Julieta de Zeffirelli ou original como a ultra-radical versão de Baz Luhrmann, com Leo DiCaprio e Clare Danes, este Romeu e Julieta merece ser visto pelos adolescentes a que se destina, mas também por aqueles que já tendo visto melhor, poderão beneficiar de mais uma revisitação ao velho clássico do bardo.

“Vede como sobre vosso ódio, a maldição caiu e como o céu vos mata as alegrias valendo-se do amor? Por minha parte, por ter condescendido com todos os vossos ódios, dois parentes perdi! Fomos punidos! Ouviram: Todos fomos punidos!”

A exclamação de Escalus, Príncipe de Verona soa como um aviso a todos aqueles que não abandonam o ódio e essa também é uma lição a estudar vezes sem conta.

Só por isso já vale a pena rever Romeu e Julieta.

Se tivesse que dar uma nota?

Sai com um Satisfaz!



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