Rui Poças

Um dos mais activos directores de fotografia do cinema português em discurso directo na rua de baixo.

Embora continue a haver muito pessimismo em relação ao cinema nacional, os últimos tempos têm demonstrado que existe capacidade criativa e público para a 7ª arte produzida em Portugal. Casos de sucesso como “Alice” e “O crime do Padre Amaro” (em géneros completamente dispares), vêm cimentar a opinião daqueles que acreditam que a cinematografia portuguesa tem pernas para andar e encarar o futuro com bastante optimismo.

A rua de baixo sempre acreditou e apoiou a produção nacional, tentando ser mais um veículo dinamizador e divulgador das películas de qualidade que têm surgido nos nossos cinemas. Nesta edição, decidimos dar a palavra a um dos mais activos e reconhecidos directores de fotografia portugueses: Rui Poças.

Natural do Porto, Rui Poças desempenha a função de director de fotografia desde 1993 e já trabalhou em dezenas de projectos, entre os quais “Odete”, que ainda se encontra nos cinemas, “A Cara que Mereces”, “Adriana” e “André Valente”. Em Dezembro de 2005, a Cinemateca de Lisboa integrou a sua filmografia no ciclo “Os Grandes Directores de Fotografia do Cinema Português”. Neste momento encontra-se a preparar o novo filme de Miguel Gomes, “O Cântico das Criaturas”.

Fiquem com a entrevista a este “agente” do cinema nacional onde, para além de ficarem a conhecer o percurso de Rui Poças e o seu trabalho, podem encontrar alguma matéria de reflexão sobre o passado/presente/futuro da produção cinematográfica portuguesa.

RDB: Quem é o Rui Poças?

Rui Poças: Sou Director de Fotografia de profissão. Tenho 39 anos.

RDB: Toda a tua formação é na área do teatro e cinema. Sempre desejaste seguir a área artistica? Não tinhas o sonho de ser bombeiro quando eras pequeno?

RP: Bombeiro não, mas quando era pequeno queria ser astronauta. Os foguetões, as cápsulas espaciais, os animais em órbita e a competição espacial EUA/União Soviética estavam bastante presentes quando era miúdo. E ainda houve (um pouco mais tarde) a série “Espaço 1999”, emblemática para uma geração e que projectava a imaginação para fora deste planeta.

Um dos fascínios que a profissão de astronauta exercia sobre mim era a possibilidade de ver o planeta “de fora”, o que parecia ser uma coisa suprema. Na mesma altura lembro-me de ter ficado igualmente seduzido com outra experiência de observação quando espreitei por um microscópio pela primeira vez! À medida que fui crescendo, fui somando a estes arremessos de voyeurismo, que muito se pode relacionar com o cinema, a possibilidade de outras sensações como o silêncio total e a ausência de gravidade. O sonho de ser astronauta prolongou-se assim para além da infância, mesmo depois de perceber que nunca o seria e de trautear alegremente as desgraças do Major Tom do “Space Oddity” [David Bowie] na adolescência.

RDB: Então como e quando é que surge a Fotografia para Cinema?

RP: Olhando retrospectivamente é-me difícil localizar precisa e claramente um momento de decisão. Nisso creio que tive um percurso de alguma forma típico de parte das pessoas da minha geração: na adolescência tive uma “banda de garagem”, que era um impulso normal na época; experimentei o teatro; envolvi-me na fotografia (aos 17 anos era já formador), fui radialista pirata convicto durante 3 anos (tinha dois programas semanais na mítica “Rádio Caos”, um deles sobre fotografia) e entregava-me um bocado à escrita. É claro que o interesse pelo cinema foi crescendo no meio destas actividades e quando entrei para a Escola de Cinema e, mais tarde, quando escolhi a área específica da imagem no contexto curricular do curso, tudo se parecia encaixar com facilidade.

RDB: A formação no estrangeiro é melhor do que em Portugal? Quais as principais diferenças?

RP: Para ser honesto na resposta não posso generalizar servindo-me da minha experiência pessoal. Mas um dos aspectos que considero positivo em investir numa formação complementar noutros países é o da diversidade de abordagem, inclusivamente do ponto de vista técnico e metodológico, a essa forma de expressão tão complexa que é o cinema. Para mim, para além de algumas questões de pormenor que se referem à especialização profissional, essa é a particularidade mais relevante para um percurso formativo diversificado.

RDB: Como foi o arranque da tua carreira?

RP: Quando terminei o curso de cinema em Lisboa as perspectivas de carreira eram bastantes limitadas e obedeciam a uma lógica de progressão muito precisa: com um pouco de sorte iniciava-se como estagiário, depois como segundo assistente de câmara, uns anos mais tarde como primeiro assistente de câmara e por aí fora. Na altura a janela de oportunidade para se ser director de fotografia era de tal forma estreita que havia mesmo uma geração inteira (bem anterior à minha) que tinha sérias dificuldades em alcançar esse objectivo. Isso devia-se sobretudo a dois factores: a produção de filmes era escassa (em número e em variedade) e, para além disso, parte desses filmes eram fotografados por profissionais vindos de fora, o que restringia a actividade a uns poucos directores de fotografia com comprovada experiência.

O meu percurso profissional desenvolveu-se a início de forma marginal ao habitual. Comecei por trabalhar em televisão, nos mais variados tipos de “produtos”, desde programas infantis, concursos, magazines culturais, dos quais destaco um sobre cinema chamado “Cinemagazine”, com o Fernando Matos Silva e o José Luís Carvalhosa, programas de “apanhados”, “directos”, “institucionais”, “sitcoms”… a documentários. Posteriormente, com o surgimento de alguma regularidade na produção de curtas-metragens, comecei finalmente a fazer os meus primeiros trabalhos em cinema. Em 1995 rodava a primeira longa-metragem.

RDB: Como é ser Director de fotografia em Portugal? Existem muitos?

RP: Como outras profissões, a de director de fotografia, de tão específica que é, sofre com a irregularidade da actividade cinematográfica. A produção de filmes é bastante limitada (com as suas consequências do ponto de vista da estabilidade do próprio meio profissional) e, não sendo exactamente precária, parece quase sempre longe do ideal em termos dos meios disponíveis.

Actualmente existe um número razoável de directores de fotografia em exercício. Para além dos que concentram o seu trabalho em áreas específicas, alguns alternam as suas prestações entre a publicidade, o cinema e a televisão. Inevitavelmente existe “mais oferta que procura”, o que torna também a acessibilidade complicada e agrava a competitividade que a função já por natureza acarreta.

RDB: Participaste em alguns dos mais importantes filmes portugueses. Destacas algum trabalho em especial?

RP: É extremamente difícil responder nesses termos uma vez que cada filme tem as suas próprias características. Precisamente, uma das mais interessantes possibilidades na profissão de director de fotografia é a de se poder mudar radicalmente a abordagem a cada novo filme. E ainda bem, até porque seria uma grande seca estar sempre a fazer a mesma coisa!

Normalmente as pessoas apreciam com mais facilidade a fotografia dos filmes em que a sua exuberância é maior, tendo por vezes, digamos, uma certa autonomia em relação ao próprio filme, o que pessoalmente não me parece bem como princípio.

Por outro lado, ainda que considere que a fotografia que melhor serve um filme é na maior parte dos casos aquela “que não se vê” (ou seja, não chama a atenção sobre si), o inverso é muitas vezes absolutamente verdade pelo simples motivo de fazer parte do projecto uma determinada “adjectivação” visual na linguagem do próprio filme, e logo uma maior “visibilidade”.

Esta consciência parece-me fundamental e deixa por vezes os directores (e os realizadores) com uma questão a ser continuamente avaliada no próprio decurso de uma rodagem na procura de uma contribuição adequada do trabalho de direcção de fotografia para o filme.

RDB: Qual é a tua opinião sobre a situação actual do cinema português?

RP: Gostaria que se fizesse mais e que se visse mais. Mas isso não é uma opinião. É um pedido ao Pai Natal!

RDB: Achas que o cinema nacional deve optar por continuar a ser “alternativo”, ou deve apostar mais no mainstream, para captar a atenção de mais pessoas?

RP: Como director de fotografia devo dizer que seria lamentável que o cinema fosse orientado num único sentido, independentemente de qual fosse.

Essa forma dicotómica de abordar o cinema não é minimamente interessante para quem faz a imagem dos filmes (acho eu). A paixão primordial do nosso métier é o de contar visualmente uma história (ou um poema, ou o que se quiser) recorrendo a uma linguagem visual e aos meios próprios do cinema.

RDB: Conheces o Eduardo Serra? O que achas do seu trabalho e de que forma é importante para o cinema nacional ter uma figura como ele em Hollywood?

RP: Conheço obviamente o trabalho dele, que aprecio.

No que diz respeito especificamente à nomeação para o Óscar e o reconhecimento que ela traduz, fico, claro, muitíssimo satisfeito. Como colega de profissão, em particular, fico ainda mais contente pelo facto de ver um director de fotografia português a ter uma carreira e obras reconhecidas internacionalmente.

Em relação à especificidade da tua pergunta, não sei como referenciar a importância da sua presença em Hollywood para o cinema nacional, até porque a maior parte da sua actividade profissional ocorreu fora de Portugal… mas não há dúvida de que é de certa forma inspirador!

RDB: Gostavas de ter essa oportunidade?

RP: Ver a Terra do espaço continua bem à frente nos meus sonhos a concretizar

RDB: Fala-nos do teu último projecto estreado em Portugal, “Odete”

RP: Alguns dos requisitos da Odete constituíam para mim um grande desafio uma vez que o filme, em termos de tratamento visual teria de se mover em territórios diversos e deveria fazer uma osmose de “estilos” e adaptação de convenções de género, misturando melodrama, fantástico, “realismo”, gótico, pop, etc. e em diversos momentos combinando opostos para criar um determinado efeito.
Pessoalmente estou muito satisfeito com o resultado.

RDB: Tens uma curta carreira como realizador. É algo que queres continuar a insistir no futuro?


RP:
As minhas pouco significativas experiências na realização foram episódicas e não se lhes pode chamar de carreira. Não existem muitas pessoas que têm o privilégio de terem exactamente a profissão que gostariam de ter. No meu caso sinto-me verdadeiramente privilegiado até porque a contribuição criativa num filme inerente à direcção de fotografia se encontra na própria natureza de generosidade que o cinema proporciona e motiva.

RDB: Como estamos em tempo de balanços …

Aqui vai o que me passa pela cabeça hoje, dia x às y horas:

O filme da tua vida: “Dumbo”. Foi o meu primeiro.

O filme português da tua vida: “O Acto da Primavera”. Será por causa da discussão no barbeiro sobre a notícia do homem na lua?

O(s) melhor(es) realizador(es) da actualidade: Clint Eastwood, Tsai Ming Liang, Terrence Malick, Michael Mann… (a lista nunca mais acaba)

O(s) melhor(es) director(es) de fotografia da actualidade: Harris Savides, Darius Khondji, Elen Kuras, Xavi Gimenez, Emmanuel Lubezki… (e muitos mais)



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