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Sharon Jones & The Dap-Kings @ Cool Jazz Fest

Energia Soul em todo o seu esplendor.

Talvez o que se tenha passado na noite de 4 de Julho no Parque Marechal Carmona, em plena Vila de Cascais, não justificasse as cadeiras por ali colocadas, talvez o momento que ali se viveu, pela sua grandiosidade, dispensasse quaisquer golpadas de marketing e promoção dos seus investidores e, em última análise, talvez o próprio nome do evento pudesse de Cool Jazz Fest passar a algo como Hot & Cool Soul Fest, que a noite que ali se viveu justificaria tamanhas mudanças de rumo/orientação pró-festivaleira.

Não há música da grande Alma que o seja realmente sem a potência e rugosidade de uma grande voz, que reconhece as raízes daquilo em que crê e as transporta onde quer que vá como um álbum de retratos onde permanentemente se revê. É assim Sharon Jones; nesse álbum de recordações que carrega religiosamente e onde vemos ora a Soul de Memphis com a aspereza que a envolve (tão bem referenciada em vultos como Otis Redding ou mesmo Aretha Franklin, Booker T&Mgs, entre um punhado de outros), ora a Soul acetinada de Detroit e o funk do seu frenético balançar (onde tiveram um alcance mundial génios como James Brown, Joe Tex, Sly & Family Stone, etc). Vimo-la aí e ali mesmo na nossa frente, única, contagiante, em união perfeita com o seu público, numa entrega total: corpo, alma, espontaneidade e uma sensação de quase  divina exaltação de todas as suas potencialidades durante cerca de duas horas de espectáculo.

Aquele Parque poderia ser uma Igreja, que o mais adestrado dos ateus que ali circulasse, estou certa que se converteria no espectro sonoro da norte-americana e seus músicos.

Partilhar e festejar uma grande voz, com alguns bons instrumentistas que a acompanham em tour – onde se impõem essencialmente os instrumentos de sopro como saxofone, o impacto rítmico quente das percussões e a envolvência do  baixo – faz acreditar o mais religioso melómano que ali se tenha concentrado para sentir a sua Soul, numa grande abertura que justifique a viagem e espera.

Não poderia ser melhor a escolha recaída sobre quem abriria a cortina celebratória da noite mágica, Cais do Sodré Funk Connection. O super conjunto de criativos músicos que aquecem o Musicbox várias vezes ao ano também ali arrancariam os primeiros resistentes às cadeiras distribuídas pelo Parque.

A energia já conhecida do carismático, também, Mister Lizard e Funky Messengers (Fernando Nobre), a voz quente e, talvez, uma das mais Soul de Portugal (Tamin Santos), os músicos de várias frentes e projectos diversos – de Cool Hipnoise a Orelha Negra, dos longínquos Spaceboys a Cacique 97, etc- como Tiago Santos, João Cabrita, Francisco Rebelo, entre outros acenderam a turbina, com a sua sonoridade tão funky e 70’s que contou, inclusive, não esqueçamos, com a colaboração experiente nestas derivas do norte-americano Rickey Calloway.

Há uma convivialidade incrível com o que etiquetas como Tamla Motown, Atlantic ou Stax trouxeram para a história da música popular nos States, essencialmente na Soul, não só na sua musicalidade – com a revisitação de Brown, Etta James, Bar-Kays, Stevie Wonder ou mesmo Ella Fitzgerald, entre outros – como no décor, com a sua dança (sobretudo a de Silk ou Fernando Nobre se preferirem) e dedicação/encarnação na história musical/artística de um país que não é de facto o seu, mas quase acreditaria, não o soubesse, que era.

Mas, é a senhora mais quente e geradora de empatia com os expectantes da “longa” noite (que foi muito o tempo levado para cessar a pólvora deixada no Parque pela Senhora Jones) quem mais sentido à filosofia – sensorial e fulgurosa – adicional da grande música consegue atribuir.

Sharon Jones já está nesse pelotão do álbum de retratos inspiradores que carrega, e que referi lá atrás, numa página onde lhe conferirão – creio – o estatuto de animal de palco, dentro da tipologia musical, que abraça com paixão como abraçou o seu público (mesmo o que fez subir ao palco para regozijo da extensa plateia).

Uma sonoridade que nela não conhece limites, só quando o corpo parece não dar mais de si porque o tempo o ordena.

Uma riqueza vocal que atinge registos complexos e se/nos diverte em simultâneo com eles, enquanto o corpo frenético balanceia provocante pelo palco e o percorre de um lado ao outro, sem escapar um canto ou olhar sincero em todas as direcções.

«The Game Gets Old» ou «Mama Don’t Like My Man» teve direito a coro lá na frente, «100 Days, 100 Nights» a espaços com alguma improvisação livre da cantora e «If you Call» entre tantos outros momentos em que o foco foi, efectivamente, a apresentação ao vivo do seu mais recente “I Learned the Hard Way”, mantiveram a chama acesa até ao fim do espectáculo.

Não sei se a Invicta se terá rendido aos encantos da afro-americana e do seu Soul poderoso, uma coisa garanto: em Cascais dificilmente alguém te esquecerá, big sister!



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