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Charles Bradley & The Budos Band @ Cool Jazz Fest

"No Time for Dreaming".

Se houve músicos que ficaram, pelo tempo musical em que surgiram, glorificados entre uma legião de outros a uma categorização – a soul – que os apontou como audazes, celebratórios, de carácteres e vozes grandes e de um alcance quase universal que lhes permitiu conviver lado-a-lado com outros registos que por eles se interessavam, como a pop, o r&b, os blues, etc, também houve receptores, públicos e melómanos que se reviram no seu cantar e entrega.

Charles Bradley, estou convencida, foi talvez um desses receptores de ouvido educado que no âmago dos r&b, soul e funk dos EUA, com os seus protagonistas mais eloquentes, ia ascendendo, de uma forma meteórica, enquanto bom ouvinte/captador das sensações expressas pelas sonoridades que lhe ocupavam o coração.

Se se pudesse apontar um padrinho para o gosto e modo de expressar a música para Charles Bradley quase nem seria preciso ser o próprio a dizer, que depois de assistir à sua entrega no palco do Cool Jazz Fest, no passado dia 17 de Julho, o nome do mesmo viria sem quaisquer esforços na contextualização do que ali ocorreu: James Brown, sure.

Claro que Charles Bradley é peculiar, claro que tem, como outros afro-americanos, a sua história de vida carregada pelas adversidades de um negro que viveu e conviveu com algumas das zonas, à época, problemáticas da urbe – Brooklyn – mas no seu percurso atribulado (onde viveu como cozinheiro, em lugares inóspitos e fugiu à polícia) mantinha o sonho aceso que nunca lhe exterminou a vontade de sonhar com aqueles que, enquanto melómano apurado, ouvia e com quem desejava um dia privar, enquanto cantava em bares os êxitos daqueles que lhe enchiam a alma de uma temperatura difícil de baixar. James Brown estava no seu topo de preferências, como conta ainda hoje, e talvez por isso, naquela noite de Cool Jazz Fest se tenha sentido tanto o funk deliberado que também existe na soul.

Tal como o primeiro longa-duração assinala: “No Time for Dreaming”. E se há alguém que o pode comprovar, volvidas cinco décadas de manifestação de procura, interesse e receptividade num círculo que sempre o fascinou, esse será com grande certeza Charles Bradley, que nos fez acreditar nessa noite no soul e funk como figuras sempre activas no seu trajecto de vida.

Assimilou todas as explosões de um circuito fervilhante na América do Norte da segunda metade de 60 – onde ascendiam meteoricamente James Brown, Commodores, Funkadelic/Parliament, Al Jarreau e uma série de outros e foi macerando-a e tornando sua, interiorizou-a em todos os poros e a prova disso é não só o disco maduro com que se apresenta como o espectáculo com que nos acendeu as emoções e as deixou em passeio contínuo durante qualquer coisa como hora e meia.

A alguém que se “aguenta” durante tanto tempo enquanto receptor de boas linhas melódicas não se pedirá menos do que, ao aparecer já no cimentar de todas essas noções rítmicas e de entrega musical totais, um grande disco e espectáculo. E Charles Bradley não só nos apareceu carregado de musicalidade como se fez acompanhar por um grupo de instrumentistas capazes: os Budos Band, que têm, tal como Bradley, a protecção da etiqueta Daptone Records.

Os Budos Band compostos por cerca de dez elementos entregaram ao espectáculo soul-funk de Charles Bradley algum jazz e afro-beat que exprimiram na toada rítmica e melódica da sua execução e donde apraz ressalvar a guitarra baixo, os saxofones – barítono e tenor – e os ritmos calientes das congas que em comunhão com a voz quente e rugosa de Charles Bradley iam aquecendo a noite.

O público, vasto, foi embalado pela qualidade da interpretação do soul man e sua banda e várias foram as ovações durante o concerto.

O que se reserva na memória auditiva é a confiança, celebração, exuberância, carácter orquestral – com os Budos Band – e excelência interpretativa, entre o dramatismo de um «Why is It So Hard» e a esperança de um «No Time for Dreaming», a festividade de um «The Telephone Song» e o sentimento passado e posto num «Lovin’ You Baby».



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