Suede @ Coliseu dos Recreios (7.11.2013)

Suede @ Coliseu dos Recreios (7.11.2013)

He`s in fashion

Ao longo da história da música, muitos são os exemplos de guerras de protagonismo promovidas entre o vocalista e o guitarrista de bandas do universo pop, umas resolvidas com reencontros, outras com desencontros e, outras ainda, com o lançamento da bomba atómica. Foi assim com os Verve, foi assim com os Smiths, foi assim com os Blur. E, para aquilo que nos interessa, foi também assim com os Suede.

Brett Anderson e Bernard Buttler deram-se razoavelmente bem entre 1989 e 1994, altura em que Bernard bateu com a porta e decidiu fazer-se à vida fora dos Suede. Para trás ficaram dois grandes discos gravados em conjunto – “Suede” e “Dog Man Star” -, mas a história dos Suede, felizmente – talvez à excepção de “A New Morning” (2002) -, não se ficou por aí. Os dois ainda se reencontraram para formar os The Tears, em 2005, tendo dessa relação resultado um filho único – “Here Comes The Tears” -, não se sabendo se a prole poderá aumentar nos tempos vindouros.

Ontem, um Coliseu dos Recreios tristemente despido comprovou por que razão seria difícil Brett e Bernard estarem na mesma banda sem começarem a arrancar cabelos um ao outro. Para todos os efeitos, os Suede são o parque de diversões de Brett Anderson, que chama a si todas as atenções e, basicamente, não interage com a banda durante todo o concerto. Será isso mau? Para a banda talvez seja uma maldade – provavelmente já estão habituados e conformados com viver na sombra – mas, para os fãs, é um puro deleite.

Depois de um hiato de uma década, os Suede voltaram este ano à vida activa com um grande disco, “Bloodsports”, que, de certa forma, recupera a aura iniciática da banda. No concerto de ontem, a banda ofereceu alguns temas novos em quase duas horas em modo best of para os poucos privilegiados que compareceram a este “revival” sem ar de dinheiro fácil, num concerto com tanta electricidade que daria para alimentar uma cidade inteira durante um mês.

No início chegou a temer-se o pior. Depois dos temas da praxe para captação de imagens, Brett despachou os fotógrafos com um amoroso «you guys fuck off» para, pouco depois, lançar um ultimato ao público: «If you don`t dance fuck yourself».

Numa actuação imaculada, os Suede percorreram em modo agridoce muitos dos seus clássicos, como «Film Star», «Animal Nitrate», «We Are The Pigs», «Barriers», «By The Sea», «Can`t Get Enough», «Another No One» ou «For The Strangers», terminando com um encore apoteótico onde foram servidas duas sobremesas de eleição: «So Young» e «Metal Mickey». Antes, houve ainda uma versão acústica de «She`s In Fashion», tema que, segundo Brett, a banda já não tocava há algum tempo. Um festim.

Os Suede podem já não ter o peso de há uma década, seja pela morte da brit pop ou por uma época musical onde predomina um certo ar de fast food, mas o seu regresso constitui um motivo de celebração para quem não tem vergonha de gostar de uma pop sofrida, romântica e imensamente trágica, que pretende que a juventude dure para sempre de modo a que se possam repetir ou fintar os erros cometidos.

Brett Anderson é, se quisermos atribuir-lhe uma espécie de máxima arrancada à literatura ou a um filme a preto-e-branco, “um homem que se recusa a morrer”, e que precisa da devoção popular para se sentir completo. Ontem, tudo fez para isso: injuriou fotógrafos, encostou os fãs à parede, andou no meio do público como se navegasse num mar de sonho – curiosamente em «The Drownwers» -, dançou com a sensualidade e o estilo que lhe correm nas veias, fez do microfone hélice de helicóptero e camisa-de-forças. A forma como sorriu durante o concerto e no final da actuação mostra que se divertiu à grande, como se tivesse encontrado, em Lisboa, o elixir da eterna juventude que tanto procura.

He`s in Fashion. Sorte a nossa.

Fotografia por José Eduardo Real



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