Susana Gaudêncio – Chamber of execution. Inaugura a 14 de Setembro na galeria Carlos Carvalho Arte Contemporânea

“Chamber of Execution” é uma recolocação de teorias utópicas na actualidade, feita de um modo não impremeditado que recupera do início do séc. XIX o pensamento visionário e progressista de Saint-Simon no cumprimento dos “interesses políticos da indústria” através da idealização do parlamento em três câmaras onde se veriam representadas as corporações industriais.

Esta renúncia do político em função do desenvolvimento da produção, pressupunha a existência de uma câmara de inventores (engenheiros, artistas ou arquitectos), encarregados de implementar esforços de desenvolvimento económico e social; uma câmara de examinação da viabilidade dos projectos (cientistas, físicos, matemáticos) dos seus antecessores; e uma terceira e última câmara de execução das mesmas ideias que seria dirigida pelas grandes individualidades industriais. Em Selected writings on science, industry, and social organisation Saint-Simon acrescenta: “A câmara da execução irá supervisionar a execução de todos os projectos aprovados. Os membros desta câmara não terão salário, uma vez que serão todos ricos, escolhidos de entre o conjunto de administradores das mais importantes casas industriais.” A câmara de execução deveria conter representações de todos os quadros da indústria, que teriam o total domínio político. Segundo o autor, seriam os progressos da ciência e tecnologia que facilitariam o avanço da indústria, a solução para os problemas da humanidade. Todas as classes profissionais trabalhariam para
transformar a sociedade numa imensa máquina de produção industrial.

Poderemos apreender um sentido de tempo e de construção nos desenhos de Susana Gaudêncio. O acto de desenhar, envolvido numa sucessão de movimentos performativos de configuração, destruição e reconstrução podem ser cartografados num repositório de tempo. Por isso, nos trabalhos da artista o suporte e o gesto têm uma relação com a memória dos espaços pela metaforização dos fluxos sociais históricos que estes lugares acolhem. Também neste sentido, o desenho serve-lhe de análise e de estudo no seu trabalho – compreendemos pelo desenho – aludindo por outro lado à sua utilização como ferramenta da vontade humana de idealização e de construção. “O desenho é uma parte do que é ser humano” diz Emma Dexter, (Vitamin D, p. 005) e parte do que é humano é racionalizar (destruir e reconstruir como no desenho); que o modo “conceptual e teórico do discurso do desenho” (id. ibid.) usado como instrumento de criação, amplifica.



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