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TAV FALCO | ENTREVISTA

Minutos antes do concerto na palco do Sabotage, a propósito do seu 4º aniversário, falei com Tav Falco. Uma figura incontornável do rock n’ roll que nos visitou e que revisitou alguns dos seus temas mais emblemáticos naquela fervilhante hora de espetáculo. Com 72 anos de idade e 38 de carreira, ainda tem os dance moves de um verdadeiro rockabilly e conserva a voz cavernosa que soa tão bem no tango como no rock. Neste frente a frente com o público de fãs, que estava ali por ele, provou que o rock ainda está vivo e de boa saúde!

Colete de cetim, óculos de sol, cabelo negro e olhos profundos, Tav Falco contou-nos como é a sua vida de artista e criador e a angústia que o presente lhe causa sem perder a esperança no futuro e nesta “geração cheia de coragem”.

Quem é o Tav Falco artista e quem é o Tav Falco fora do palco? 

Bem… boa pergunta mas não sei se consigo responder. Há uma sobreposição entre a pessoa e o artista, e por vezes nem eu consigo distingui-los. O que eu faço na minha vida criativa é um trabalho, mas por outro lado não é. É um trabalho com o qual estou comprometido: eu vou a um determinado sítio fazer uma determinada coisa. É um processo criativo contínuo e eu já sinto que não há separação entre a pessoa e o artista. 

Quais foram as maiores influências na construção desta carreira ? 

Panther Burns (nome da banda) é o nome de uma plantação em Mississipi, e ao contrário do que se pensa, não somos uma banda rockabilly per se. Produzimos algum material rockabilly, naturalmente porque sou de Memphis. Eu vim de Memphis e desde sempre toquei rock and roll. Mas o rock and roll tornou-se maior do que aquilo que conhecíamos como rock n’ roll na altura. Foi um género musical que cresceu bastante quando começou a integrar outros géneros musicais e a ser influenciado por eles. Por exemplo, eu sempre me interessei pelo Tango argentino, Samba, Blues, Jazz, etc. tenho bastantes influências até agora.  

Como é a vida de rock star ?

Como é esta vida… bem é mais ou menos uma vida de noite. Alguns músicos e performers mal podem esperar pelo fim do dia. E eu, pessoalmente, não sou madrugador…levanto-me ao meio-dia quando posso. Mas por exemplo, amanhã temos um espetáculo em Granada e vou ter de me levantar as 8h, e sendo que a noite hoje vai ser longa: é uma vida complicada às vezes! E por vezes a nightlife transforma-se em daylife (risos) 

Quais as responsabilidades de quem tem uma carreira tão longa ? 

Chegamos a uma altura em que já não temos nada a provar. Chegamos a uma altura em que temos de ser uma voz. Uma voz não só para nós mesmos mas sobretudo uma voz para quem nos está a ouvir, e uma voz para aqueles que nos poderão ouvir. Ouvir o que temos a dizer, o que temos para expressar. Nos dias de hoje, a festa acabou. Estamos numa situação em que os artistas têm de se levantar e dizer “Basta!”. Basta deste sistema político que não tem saídas. Já sofremos o suficientes com as más decisões de quem nos lidera. E nós não precisamos de líderes, precisamos de quem nos represente. Não precisamos de líderes hoje em dia, o mundo ocidental já está demasiado educado para isso e já não temos tempo a perder com as pessoas que nos controlam, com organizações, políticos… estamos cansados disso tudo! O que aconteceu nos E.U.A. … vários americanos foram traídos. As pessoas no poder são ultra fascistas de direita, conservadores que não ganharam o voto popular! O problema é que existe muita gente ignorante que nos afogou nesta campanha mediática, cheia de promessas vazias. Estas pessoas jogaram contra o seu orgulho, medos e inseguranças. Foi o que aconteceu nos EUA e é o que começa a acontecer na Europa e contra isto temos de dizer: “Basta!”  

Isso é parte do que eu tenho a dizer como artista. Ou pelo menos um artista como eu. É esta a minha responsabilidade. Não me posso calar mais. Entreter as pessoas é parte daquilo que eu faço mas não é o mais importante. A experiência poética, a palavra política é algo pelo qual me considero responsável.  

O rock and roll ainda é relevante como forma de expressão e consciencialização do público? 

A música significa muito na vida das pessoas, em diferentes períodos do tempo. Nos anos 60, a música era parte de um movimento de jovens para as pessoas. Antes do rock, havia o jazz. Quando chegou o rock, eclipsou completamente o jazz, e na altura muita gente ouvia jazz. De repente o rock chegou e uma nova geração chegou com ele. O público do jazz quase desapareceu, mas este estilo musical continuou a reinventar-se. Tornou-se progressivo, criativo e uma forma de arte cada vez mais sofisticada.

Por isso eu não estou muito preocupado com a forma como as coisas evoluem. Hei de continuar a expressar-me desta forma e tenho a certeza que tem significado para alguém. Não vou fazer campanhas ou mudar a minha forma de trabalhar por haver outras tendências no mercado e na cultura. O rock and roll como género musical talvez precise de manifestações culturais para se manter atual como a música electrónica, a pop, etc. e sim, tudo isto é importante mas eu não estou preocupado. Eu vi o que aconteceu com o jazz. O Rock é relevante para mim e isso é que me importa, como artista. 

Quais as perspectivas futuras para a banda ? 

Vamos andar em tour até Junho e eu tenho escrito algumas canções. Uma delas vai ser apresentada hoje pela primeira vez ao vivo. Chama-se “Drone Ranger” e espero que gostem!

É a primeira vez em Portugal? O que espera desta noite? 

Já tinha vindo duas vezes a Portugal, há muito tempo e para hoje eu espero ver muita gente com uma mentalidade aberta e receptiva a ouvir coisas que nunca tenham ouvido antes. É o que eu espero. 



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