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Teatro Rápido – Janeiro de 2013

Propostas de qualidade no TR. Sim, prometemos

Janeiro é o mês dos começos, das resoluções que tantas vezes demoram em tornar-se em soluções. É o mês em que prometemos fazer dieta e caminhadas (para esquecer os efeitos secundários das festas); nesta altura, todos decidimos que nos vamos tornar seres humanos melhores e até compramos um recipiente para começar a fazer a reciclagem lá em casa. Escrevemos a lista de resoluções de ano novo num papel que acaba por ir para o lixo, quando tínhamos o papelão ali mesmo ao lado.

O Teatro Rápido (TR) inicia 2013 com o tema Promessas, oferecendo propostas diferentes com sabor a desilusão, desespero e realidade. Muita, às colheradas.

Sala 1 – “Bolas de Neve”

Ana Varela (Dalila) e Ricardo de Sá apresentam-nos um texto de Susana Romana. “Bolas de Neve” veste-se de culpa, do primeiro ao último minuto; uma culpa encaixotada algures, não sabemos onde, mas apontada a alguém (eu, tu) que não conhece aquele que lhe dirige o dedo acusatório.

É pesado imaginar que um encontrão que damos, sem querer, num estranho com quem nos cruzamos na rua, pode despoletar uma bola de neve que culmina, por exemplo, na morte de alguém.

Em “Bolas de Neve” está presente um jogo de sombras, a fazer lembrar a alegoria da caverna; a Dalila, prisioneira, é enclausurada no mundo das sombras e só uma bola de neve a pode salvar. Mas qual? Não sabemos, mas duvidamos que seja um daqueles rebuçados brancos, envoltos em papel vermelho. Duvidamos que seja doce, essa bola de neve.

A encenação está a cargo de Bernardo Gomes de Almeida e prima pela simplicidade, “encaixando” perfeitamente no texto, que é pleno de interrogações, de confronto, de culpa.

Horário das sessões: 18h00 / 18h25/ 18h50/ 19h15/ 19h40/ 20h05
quinta a segunda | M/12 | 3€

Sala 2 – “Professor Roberto”

Rafael Dias Costa escreveu o texto da sala 2, sendo também o actor que dá corpo ao Professor Roberto. Lado a lado com Sofia Helena, Rafael é o protagonista da  interpretação surpresa das Promessas de Janeiro.

O Professor Roberto está longe de ser uma figura unânime ou capaz de conquistar, no primeiro olhar, o carinho do público. Todavia, Rafael é capaz de nos fazer sair da sala com a sensação de que o Professor não era o mau da fita.

O texto é poderoso, sacode os alicerces e faz-nos pensar sobre as vidas por detrás dos rostos de todos os dias, sobre as promessas de vida melhor, sobre a forma como uma arma pode ser o objecto que nos conduz à libertação. Em “Professor Roberto”, alguém leva mesmo a sua promessa até às últimas consequências. A peça apresenta-nos um problema e uma solução. Saímos da sala com a sensação de que a harmonia se cumpriu, apesar dos estragos ou danos colaterais.

A encenação e direcção de actores está a cargo de Susana Vitorino; a cenografia é da responsabilidade do Projeto Resgat.art.

Horário das sessões: 18h05/ 18h30/ 18h55/ 19h20/ 19h45/ 20h10
quinta a segunda | M/16 | 3€

Sala 3 – “Pode beijar a noiva”

“Prometo amar-te, honrar-te e essas tretas todas” – Maria Carson representa alguém que vive agarrada às promessas inscritas numa aliança. Dessas promessas ficou-lhe o vazio, a noite escura, a solidão e um dedo sem aliança.

Temos dúvidas que a aliança alguma vez tenha existido e que as promessas tenham também existido, por parte de um tal Carlos. Desconhecemos o seu rosto; na verdade, também nos será difícil reconhecer o rosto da mulher que se encontra, numa vida escura, à procura da tal aliança.

“Pode beijar a noiva” revela-se (n)uma sala fria, demasiado fria, sem fé nem esperança para quem a visita. Vão-se os anéis, ficam-se os dedos, já diz o povo. Mas também estes dedos desaparecem, de dia para dia.

O texto e a encenação estão a cargo de Tiago Torres da Silva.

Horário das sessões: 18h15/ 18h40/ 19h05/ 19h30/ 19h55/ 20h20
quinta a segunda | M/12 | 3€

Sala 4 – “Diagonais”

Na sala 4 a proposta é-nos servida em movimentos diagonais, entre um fugitivo que não volta e alguém que espera que o fugitivo cumpra a promessa de regressar. Cátia Terrinca e Francisco Sousa protagonizam uma espiral sucessiva de eternos retornos, que dura doze anos, e durante a qual nenhum dos personagens cresce ou acrescenta beleza à sua vida. Sim, ela aprende a dançar, mas só o movimento das pontas (que não chega a calçar) é que se revela verdadeiramente belo.

“Diagonais” deixa-nos algures entre um Prometeu que vê o fígado restaurar-se dia após dia para alimentar os abutres e um cisne cinzento obcecado pela dança. Saímos da sala com a sensação de que aqueles passos de dança nos levam a nenhures.

O texto, a interpretação e a criação do espaço cénico são um trabalho conjunto de Cátia Terrinca, Francisco Sousa e Ricardo Boléo.

Horário das sessões: 18h20 / 18h45 / 19h10 / 19h35 / 20h / 20h25
quinta a segunda | M/12 | 3€

As propostas de Janeiro, no TR, são a prova de que as promessas que fazemos são tantas vezes feitas para não se cumprirem (será esse o seu único propósito?). Porque temos que dizer alguma coisa, faz parte da época e do momento, porque nos pedem para repetir uma frase feita, porque ele te pede para prometer que não o vais esquecer (e tu soltas um apressado sim, enquanto mexes na mala, à procura do gloss). Mas durante este mês podemos todos prometer tudo. Não tem mal algum, até porque em Fevereiro chega o amor – é o tema do Teatro Rápido. E mal podemos esperar por sentir as borboletas na barriga.



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