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“A Mais Terna Ilusão“

"Será preciso que eu vos fale ainda mais do meu sonho?" 

O Marinheiro” de Fernando Pessoa é um texto que relata um intenso e prolongado diálogo entre três irmãs que acontece noite dentro e que nos convida a reflectir sobre o sonho e a vida, a realidade e a ficção, os momentos passados e os presentes ausentes.

Ao longo de uma noite estas três irmãs navegam por entre mares passados e relembram a história de uma quarta personagem que aparentemente pertence apenas ao universo do imaginário. Um marinheiro que se constrói por entre parênteses, indagações, sonhos e imaginação e que existe enquanto elemento suspenso no espaço e no tempo. Esta noção de reticências ausentes em pontos finais é também a que pauta toda a narrativa, sendo que ao longo do diálogo as falas vão sendo interrompidas de uma forma mais ou menos contínua. São cortes, supressões e anulações da palavra que procuram transmitir uma ideia de destino e de existência que é igualmente pouco lógica e contínua.

É a partir deste belíssimo texto que ganha vida a peça “A Mais Terna Ilusão” na qual a talentosa actriz  Cátia Terrinca se propõe a personificar não uma, mas as três personagens idealizadas e criadas pelo poeta. Num cenário enigmático e de uma atmosfera intensamente misteriosa a palavra da actriz personifica a temática Pessoana e, se no peito lhe sentimos o desespero da procura do sonho, no choro é a frustração que protagoniza a constatação de não conseguir ser mais do que isso mesmo, um sonho.

O passado é relembrado enquanto noção de felicidade e é revisitado como que se de um refúgio se tratasse face às memórias que teimaram em ficar. Esta noção de felicidade que é associada à nostalgia da infância só existe porque se trata de uma felicidade despreocupada, não pensada e apenas vivida. “Eu fui feliz pra além de montes, outrora… Eu era pequenina. Colhia flores todo o dia e antes de adormecer pedia que não mas tirassem…O passado não é senão um sonho… De resto, nem sei o que não é sonho. Se olho para o presente com muita atenção, parece-me que ele já passou”. Agora, nas três irmãs, resta-lhes o cansaço e a raiva que decorrem da consciência de que não é possível resgatar o passado e de que o presente não poderá ser mais do que uma espécie de realidade sonhada. 

O intenso jogo de luz em palco poderá eventualmente remeter-nos para a presença dessas três personagens sem que no entanto deixe de ser apenas uma ficção, assim como o são as vidas que vão sendo revisitadas durante o diálogo. Nesta declamação tudo é imaginado, os lugares são passados e apenas a palavra é real. Cria-se entre o público e a actriz uma relação íntima construída através de um tempo de discurso que se vai pontuando com ganchos e pausas dramáticas através das quais embarcamos na dúvida e no pensamento crítico que nos propõe Fernando Pessoa. Esta peça é como que um convite a envolvermo-nos com uma noção ficcional de nós mesmos e que apenas pode ser interrompida caso amanheça o dia.

“O horizonte empalideceu… O dia não pode tardar.”
Para ver entre de 11 a 29 de Dezembro na Casa Fernando Pessoa e no Teatro Turim.

Interpretação | Cátia Terrinca
Dramaturgia | Ricardo Boléo
Luz | Sara Garrinhas
Movimento | Daniel Gorjão
Fotografia | Sara Marques Moita
Design | Salvador Figueiredo

 

Passatempo aqui.

 

Fotografia de Alipio Padilha.



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