Tom à la ferme de Xavier Dolan

Tom à la ferme

Uma fábrica de mentiras

O realizador prodígio canadiano, Xavier Dolan, tornou-se ao longo dos últimos anos sinónimo de grandes complicações estilizadas, diálogos empolados, bandas sonoras hipsters e temas que exploram de forma explosiva a sexualidade. Com o seu quarto filme, o realizador demonstra ter-se tornado um cineasta capaz de navegar por um género mais tradicionalista, mas mantendo as técnicas distintas e peculiaridades que, inicialmente, o fizeram sobressair.

Baseado no texto dramático homónimo de Michel Marc Bouchard, este altamente complexo conto começa com o escrevinhar de uma elogia confessional, conduzindo os espectadores para um local de tristeza e compaixão. A partir daí o espectador irá perder-se por entre a sua própria dor e amargura.

O filme é um objecto cinematográfico reflexivo de multi-camadas. O cenário torna-se um factor fundamental o suficiente para justificar a sua inclusão no título. A mencionada quinta isola qualquer tipo de ligação com o mundo e deixa Tom sozinho num mundo novo enquanto tentar lidar com o luto. O ambiente rural justifica ainda o carácter de Francis, ingénuo e completamente ignorante. O ambiente quase claustrofóbico em que este personagem se encontra leva-o a ter medo do desconhecido, sendo esse mesmo medo que gera a sua homofobia.

Há uma forte dinâmica entre os três personagens principais. As cenas em que os três se encontram em volta da mesa da cozinha tornam-se memoráveis. Embora à superfície este conto repressivo tenha um tom melancólico, há uma certa sagacidade obscura predominante contida nessas cenas. Torna-se um deleite assistir como dolorosamente o protagonista se começa a perder numa teia de mentiras descaradas. Estas mesmas cenas são intensas, levando o público a ter os nervos à flor da pele, pois ele sabe que se Tom comete um deslize pode ser o seu fim.

A actriz Lise Roy é Agathe. Inicialmente, ela surge com uma senhora de idade meia senil e esquecida, mas através do argumento de Xavier Dolan a actriz tem a possibilidade de descascar todas a camadas da sua personagem e revelar as suas surpreendentes e inquietantes facetas. Pierre-Yves Cardinal deixará muitos numa pilha de nervos com o seu desmedido, áspero e controlador Francis. Seja nos momentos em que assombra Tom ou nos que se perde por entre jogos emocionais sinistros, o actor é uma força a ter em conta. Ambos os papéis poderiam facilmente ter-se tornado monocórdicos, mas a atenção que o cineasta e os actores dedicaram aos detalhes torna tudo mais emocionante. Apesar do cineasta criar uma atmosfera um pouco over the top, o elenco mantêm as suas explosões emocionais contidas, e o filme nunca desliza para a histeria.

Desde a sua cena de abertura que se torna evidente que o filme está longe de ser um drama banal, que todos já vimos inúmeras vezes. As imagens áreas captada enquanto Tom conduz em direção à quinta são reminiscências da cena de abertura de The Shining, de Stanley Kubrick. A combinação visual e a banda sonora presentes ao longo do filme são homenagens do realizador canadiano ao mestre do cinema. É possível desenvolver um paralelismo entre os protagonistas dos dois filmes, pois ambos lentamente se dirigem à loucura total. No entanto, enquanto Jack acaba por se perde completamente em si mesmo, Tom consegue encontrar uma fuga.

Existe ainda algumas influências hitchcockianas que podem ser vistas na utilização de espaços e quintas no meio do nada, bem como na loucura de Francis e nas gargalhas maníacas, por vezes violentas, de Agathe. Há ainda uma pitada de Roman Polanski em início de carreira, presente na sensação claustrofóbica e de ameaça do filme. Contudo, Xavier Dolan adiciona os seus próprios elementos de comédia por entre momentos de tango num celeireiro ou de música pop num funeral.

Tom à la ferme não é perfeito, e definitivamente não foi feito para todos. É um filme que explora como diferentes pessoas lidam com a dor e o luto. Há de tudo um pouco, do consciente ao louco. Há quem queria saber tudo; há quem não queira que os esqueletos saiam do armário e há quem se deixe levar pelo Síndrome de Estocolmo.

Tom à la ferme foi o filme escolhido para encerrar a edição deste ano do Indielisboa.



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