“Uma Coisa supostamente Divertida Que nunca mais Vou Fazer” | David Foster Wallace

“Uma Coisa supostamente Divertida Que nunca mais Vou Fazer” | David Foster Wallace

À descoberta da grande verdade

O mercado editorial português foi marcado, em 2012, pelo lançamento de “A Piada Infinita”, de David Foster Wallace. Até à data sem qualquer livro publicado em Portugal, a obra de Wallace começava logo pela edição da sua obra mais colossal que, segundo a revista Time, estará bem posicionada na lista dos 100 melhores romances escritos na língua inglesa.

Continuando uma missão literária orientada para o serviço público, a Quetzal edita agora “Uma coisa supostamente divertida que nunca mais vou fazer” (Quetzal Editores, 2013), livro que revela outra das muitas facetas do escritor norte-americano: a de ensaísta e repórter.

O livro reúne nove textos de uma diversidade extrema, entre o humor e a sátira, que mostram um escritor cerebral e inventivo capaz de questionar a loucura e o absurdo do mundo em que vivemos, de qualquer ângulo ou inclinação.

“Uma Coisa supostamente Divertida Que nunca mais Vou Fazer”, texto primeiro que dá nome ao livro, é uma análise imensamente divertida sobre a sua experiência a bordo de um cruzeiro de luxo, que revela também muito da personalidade atormentada de Wallace. Para ele «há algo num cruzeiro de luxo para as massas que é insuportavelmente triste» e, em cada descrição que faz, seja ela do vestuário que se usa a bordo, das conversas de circunstância ou do barulho do ar condicionado, há a presença constante de uma sombra.

«Enquanto espécie, os escritores de ficção tendem a ser mirones ávidos», atira Wallace em “E Unibus Pluram: a Televisão e a Ficção Americana”, apresentando as situações humanas como o único alimento dos escritores e oferecendo um guia televisivo e uma pequena história recente da televisão americana, «uma dádiva dos céus para uma subespécie humana que adora observar as outras pessoas mas detesta ser observada», que cativa sem nada exigir em troca.

“David Lynch não Perde a Cabeça” é um hilariante texto escrito aquando da presença de Wallace no plateau de um filme de Lynch, mais propriamente durante as gravações de “Lost Highway”, em 1996. «A primeira vez que vi Lynch no plateau estava a fazer chichi numa árvore», começa Wallace antes de resumir o percurso de Lynch em termos de fama mediática, fazer uma crítica da sua obra cinéfila por ordem quase cronológica, revelar que existem 37 possíveis interpretações para “Lost Highway”, defender que os seus melhores filmes são os mais sinistros e doentios e, em jeito de remate bem colocado, fazer uma comparação entre a violência de Lynch e Tarantino, onde o primeiro sai a ganhar por uma confortável goleada: «A violência de Lynch tenta sempre dizer qualquer coisa (…) Quentin Tarantino está interessado em ver a orelha de uma pessoa a ser cortada; David Lynch está interessado na orelha».

“Pensem na Lagosta” parte do Festival da Lagosta do Maine, que decorre todos os anos. Depois de apresentar uma descrição taxonómica exaustiva, Wallace deriva para um cruzamento entre os direitos dos animais e o sentido humano de ética, lançando estas duas interrogações pertinentes: «É correto cozer viva uma criatura senciente só para o nosso prazer gustativa?»; Afinal de contas, ter especial consciência, atenção e cuidado relativamente ao que se come, e ao respetivo contexto global, não faz parte do que distingue um verdadeiro gourmet?»

“O Grande Vermelho” apresenta um facto estatístico capaz de virar do avesso muito bom estômago: «Todos os anos, entre uma e duas dezenas de homens adultos americanos dão entrada nas urgências depois de se terem castrado.» É o ponto de partida para um retrato da indústria pornográfica norte-americana.

«A Vista da Casa da Senhora Thompson» é um instantâneo de uma pequena localidade, anos depois mostrado em “Beleza Americana”: «As pessoas de Bloomington não são antipáticas, mas é verdade que costumam ser reservadas.»

«Como Tracy Austin Me Partiu o Coração» revela o desapontamento de Wallace perante a biografia que leu da tenista Tracy Austin, ficando algures entre a sedução e a decepção (mas mais inclinado para a última).

E também é de ténis que se fala em «Federer: Carne e não só», onde Wallace apresenta o volte-face que a modalidade deu depois de jogadores como Federer – recorda-se o seu ponto impossível diante de Agassi na Final do Open dos Estados Unidos em 2005 – pisarem os courts: a potência e a agressividade tornaram-se vulneráveis à beleza.

«A Água É Isto», texto final, é o discurso singular proferido por David Foster Wallace aos alunos finalistas do Kenyon College, em 2005, tendo então sido convidado para falar sobre um tema à sua escolha. Como em “Uma Coisa supostamente Divertida Que nunca mais Vou Fazer”, por entre muito humor, inteligência e lucidez, Wallace fala do que para si é a educação verdadeiramente importante e do que, em última análise, constitui a verdade suprema: «A verdade com V grande tem a ver com a vida antes da morte. Tem a ver com chegar aos trinta, ou talvez até aos cinquenta, sem querer dar um tiro na cabeça.» Wallace suicidar-se-ia três anos depois, com apenas 46 anos.



Também poderás gostar


There are no comments

Add yours

Pin It on Pinterest

Share This