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“Uma Questão de Culpa” de Jørn Lier Horst

Duplo mistério

Estilo requintado para uns, mais “requentado” para outros, o policial nórdico conta com uma já longa tradição e são muitos os fãs deste género em Portugal. Em comum, com um clima opressivo está a consciência dos protagonistas, sendo o norueguês Jørn Lier Horst mestre na construção de intrigantes narrativas, principalmente quando interroga o passado através de uma lente do presente.

Uma Questão de Culpa (DQ Noir, 2025), que serviu como inspiração para a terceira temporada da série Wisting, por cá transmitida no canal AMC, é mais um excelente exemplo de como Horst se serve com talento da sua experiência enquanto ex-investigador da polícia norueguesa, no distrito de Vestfold, e oferece mais um livro repleto de intriga e ação que é sinónimo do quarto livro da série conhecida como Casos Arquivados, do já famoso inspetor-chefe William Wisting, tendo como ponto de partido o erro, no caso humano, judicial, sistémico.

Com o detetive William Wisting no centro da trama, o romance abre com o desaparecimento de uma mulher, Agnete Roll, que obriga o carismático polícia a interromper as férias. Dias depois, uma carta enigmática reabre um caso de 1999, no qual Danny Momrak, ex-namorado da vítima, foi condenado pela morte de uma adolescente de 17 anos, de seu nome Tone Vaterland. O caso fora dado como encerrado, mas o reaparecimento de pistas lança uma dúvida perturbadora: terá sido o sistema demasiado célere em apontar culpados na sede de fazer justiça?

A partir desta premissa, Horst constrói um enredo de ritmo duplo e tensão constante. Há dois fios temporais que se entrelaçam, o de 1999 e o da investigação atual, mas também uma culpa que parece sobreviver ao passar do calendário, alastrando-se como uma névoa pelas instituições e pelas consciências.

Os fãs de Horst sabem como a sua escrita é meticulosa e funcional, onde os excessos são relegados, e em Uma Questão de Culpa mantém essa filosofia e assinatura. Essa aparente “frieza” condiz com um universo como é o policial, onde os detalhes tem um peso maior do que as emoções à flor da pele, onde o silêncio, a hesitação, a escuta e os indícios desprezam reviravoltas melodramáticas. Pois, tal como quem constrói uma investigação real, fora dos livros ou televisão, há mais para compreender do que para deslumbrar.

Essa ausência de glamour está também na edificação de um protagonista como William Wisting, alguém muito diferente do detetive-herói tradicional, cuja humanidade e fragilidade não escondem um certo cansaço e frustração, mas mantendo intacto o seu profissionalismo e o sentido moral. Acima de tudo, Horst entende o polícia, o agente de autoridade, como alguém que acredita na verdade, mas não fecha os olhos à falibilidade das instituições. E é nesse equilíbrio entre ética pessoal e limites sistémicos que os seus romances ganham profundidade e Uma Questão de Culpa encarna isso mesmo.  

Mas, a singularidade deste livro, o seu coração narrativo, é mesmo o erro judicial. A falência de um sistema que alimenta a possibilidade de que um inocente tenha sido condenado, e que um assassino tenha passado despercebido durante décadas, ensombrando todo o processo, resultando num thriller inquietante e inteligente, não tanto pelo sangue derramado, mas pela inquietante credibilidade dos factos, onde tudo se move na medida certa, sem alardes. 

Mais do que romance policial que se limita a entreter, o mais recente título de Horst levanta questões, interrogando a justiça, o tempo, os métodos e as consequências. Como na maioria das suas obras, é um livro que tem um ritmo próprio, exige paciência, mas que recompensa o leitor com um retrato lúcido de como a verdade pode ser distorcida, até mesmo mesmo quando todos os envolvidos acreditam estar a agir corretamente.



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