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NOS Alive 2025 | Dia 2 (11.07.2025)

O segundo dia sob a ameaça da chuva que não se concretizou.

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Texto por Miguel Barba e fotografia por Graziela Costa.

Máximo tem vindo a trilhar um caminho mui interessante. Primeiro com o seu álbum de estreia, “Greatest Hits”, que reuniu peças compostas ao longo de muitos anos, até aos 19, sempre só ao piano. 2025 trouxe “Pangea”, mais ambicioso e com banda a acompanhá-lo. E é exactamente neste contexto que Máximo chega ao WTF no NOS Alive.

Quis o destino que um mau alinhamento dos astros levasse o escriba a perder dois metros e um comboio por uma unha negra, reflectindo-se isso na possibilidade de apenas poder ver metade da actuação. Em “Pangea” a introspecção dá lugar ao improviso. A vertente neo-clássica, cede a sua posição ao jazz. Não é complicado imaginar estas composições a deambularem por caminhos nunca iguais, embora semelhantes, cada vez que são tocadas ao vivo. A constante aqui é uma, a beleza comum a elas. No fim a mais recente composição, que não integra “Pangea”, de seu nome Malha.

Marianne arranca no Coreto com um drum’n’bass que funciona como chamariz, cantado em francês e numa voz que surpreende. «Low Key» é a canção que se segue, também com uma camada de electrónica a dar o pano de fundo, mas com os teclados, a guitarra e o trompete a conferirem outras roupagens, o que na realidade define na perfeição o registo que nos ofereceu, e que tão bem encaixou neste final de tarde, mesmo que encoberto.

Sem tempo para nos deixar respirar, os Mother Mother arrancam no Heineken com muita a sua espera. O som é um pop-rock melódico que peca por não oferecer nada que os diferencie de tantas outras bandas que por aí andam.

girl in red, está de volta, depois de ainda nem há um ano ter actuado em Coura. Será esta a ocasião que vai permitir perceber qual é verdadeiramente o seu público, com a certeza de que há muitos fãs aqui à sua espera, com muitas t-shirts espalhadas pelo recinto. A norueguesa continua a procurar trilhar um caminho peculiar, procurando manter uma matriz indie, ao mesmo tempo que pisca o olho ao mainstream. Ambicioso, pois. A resposta é evidente a partir do primeiro momento. Marie Ulven surge incansável desde o primeiro momento e o público vai-se acumulando junto ao palco NOS. Bad Idea. Girls, apresentada comparando a semelhança sonora entre Lisboa e lesbian. «4am» e «dead girl in the pool.»validam o estatuto que vai solidificado.

Os Zarco tocam no Coreto e por isso espreitamo-los um pouco antes dos Backseat Lovers começarem no Heineken. Os Zarco, seguem uma abordagem idêntica à dos Mão Cabeça, mas soam diferente, o que vai de encontro ao que escrevemos aqui. O clarinete a espaços parece invocar Sérgio Godinho. Mas por aqui também há funk e daí até se enveredar por uma curta jam é um pulinho. Concerto exemplar para ligar as pontas soltas entre o eixo Heineken-Coreto.

Os Backseat Lovers chegam directamente das planícies salgadas do Utah. É rock, não nos enganemos, mas aqui e ali há um fogacho de americana, e nesses momentos tudo fica condimentado e mais interessante. O problema é que não é regular. Também há solos aventureiros e depois há o público do burgo que surpreende quando acompanha a letra de forma inesperada para a própria banda. A dado momento eis que irrompe um registo folk. Eficiente.

Seguimos em direcção ao palco NOS para rever os The Wombats, 10 anos volvidos e para substituir Sam Fender. É seguro dizer que a afluência hoje baixou. Será que «Let’s Dance to Joy Division» continua a ser um hino? A resposta daqui a pouco. Matriz britânica por completo. «Moving to New York» continua com sex appeal, mesmo com estes anos em cima e sai com dedicatória para Sam Fender. A forma relaxada e desapegada cimo se lançam às canções funciona a seu favor; podemos não saber a canção mas sentimo-nos compelidos a acompanhá-la de alguma forma, porque convenhamos não são más canções. «Ready For the High», com alguém num fato de Wombat em palco com um trompete, a que se segue «Kill the Director». «Pink Lemonade» foi escrita depois de uma viagem a Barcelona onde foi consumido muito vinho e húmus enquanto pensava que a namorada fazia sexo selvagem na sua ausência. A primeira de duas canções onde os limões serão referidos à grande. A segunda chegará um pouco depois por entre as escorreitas cordas da guitarra. A fechar comprovou-se o que se questionou no início deste parágrafo. E dançámos… juntamente com os quatros Wombats gigantes em palco.

Capicua promove uma ocupação massiva no WTF. «Souvenir» antecede a «Circunvalação». O direito à habitação, de viver e de usufruir da cidade, está sempre no centro. «Vayorken» não tarda. E depois fazemos um «Gaudí». Porque é inevitável ter de apanhar uns caquinhos de tempos a tempos. Chama-se vida. «Meia Romã» dá seguimento a este mantra. Um brinde à aurora, antecedido de uma chamada de atenção. Os tempos são perigosos e estamos a perder a capacidade de escutar o que nos rodeia, de acreditar na ciência. E Palestina Livre. Sempre. «Que força é essa amiga» é apresentada com pompa e circunstância. Primeiro a reverência a Sérgio Godinho e depois sobre a revolução que ainda está por concluir. Dedicada às mulheres. E no final um agradecimento ao Luis Montenegro que interessa pelo arranjo feito na canção. E MC é Maria Capaz. A fechar «Brava» e «Madrepérola», para que saíamos dali prontos para voltar à luta.

Saint Coboclo injecta funk da favela em modo de música de dança e por aqui aguardamos por Finneas, cujo adjectivo que melhor se adequa é discreto. O irmão de Billie Eillish tem  de certa forma vivido na sombra da irmã, embora ele próprio tenha, uma cota parte da responsabilidade por isso. Mas a recepção a que tem direito deita por terra a teoria do discreto; histerismo q.b. e as letras bem sabidas. «Till Forever Falls Apart» (um cover de Ashe), «Break My Heart Again», «Let’s Fall in Love for the Night» e «For Cryin’ Out Loud!», surgem todas de seguida no final e são o exemplo perfeito disso. Tudo funciona na perfeição, como um relógio suíço: todas as peças encaixam na perfeição, tudo está muito bem oleado, e Finneas sabe perfeitamente em que “botões” deve mexer. Há uma entrega imensa, que contagia inclusivamente os muito competentes músicos em palco, que no final fizeram aviões de papel das setlists para atirar para o público. Se Finneas voltar em nome próprio voltará a estar ganho.

St. Vincent regressa a Portugal, ao Alive e ao mesmo palco que a recebeu há 2 anos. O percurso tem sido algo camaleónico, quer nos álbuns, quer como se apresenta em palco. O impressionante é que nunca desilude. «Reckless» é um início que arrepia; a postura, a forma como cada palavra é cantada. A cada digressão parece que assume uma persona diferente. É incrível. Reinvenção. De guitarra em riste oferece-nos «Birth in Revers» e tocando a guitarra de formas que pensávamos não ser possível. «Pay Your Way in Pain» é uma incrível montanha-russa na vertente instrumental e na própria forma de cantar e «Cheerleader» é simplesmente um portento. «Violent Times» e «New York», em toda a sua grandeza, esta última inclui os agradecimentos, as cavalitas de um segurança e crowd diving. Teve tudo. «Sugarboy» é Talking Heads em esteróides e «All Born Screaming», mesmo a fechar, é sacra no seu arranque e nós saímos dali física e psicologicamente de rastos, mas felizes!

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Leiam aqui as reportagens do primeiro e terceiro dia do festival.



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