“A rapariga com gelo nas veias” de Karin Smirnoff
Nas asas da rebelde andorinha
A partida precoce de Stieg Larsson em 2004 deixou os seguidores da saga Millennium de luto e órfãos de uma das mais importantes séries de narrativas que tornaram o policia e/ou thriller nórdico num género apreciado por milhões em todo o mundo. A promessa de Larsson em fazer um conjunto de 10 livros com as aventuras erráticas da dupla Mikael Blomkvist e Lisbeth Salander ficava assim pelo caminho.
Sabia-se que o escritor sueco tinha deixado uns manuscritos sobre como poderia evoluir a saga e, em 2015, surgiria, de forma mais ou menos esperada face ao muito que se falou nessa possibilidade, um quarto volume. Esse livro foi assinado pelo também sueco David Lagercrantz, conhecido jornalista e escritor, a convite da editora, mas a história acabaria por evoluir por outros caminhos por questões legais e que não os deixados por Stieg Larsson.
David Lagercrantz acabaria por escrever três volumes, mantendo o ambiente pensado por Larsson, onde as críticas sociais, a violência contra as mulheres, os jogos de poder e a corrupção e as novas tecnologias sublinhavam o core das desventuras de Blomkvist e Lisbeth, que desaparece e torna a surgir qual Fénix para defrontar a sua irmã, Camilla, uma espécie de reflexo negativo Salander.
O sétimo volume, lançado em 2023, seria assinado por Karin Smirnoff, uma das autoras que mais vende por terras suecas, assumindo assim a responsabilidade de continuar a terceira trilogia Millenium. Aos fãs, algo desgostosos, diga-se, com o trabalho de Lagercrantz, restava esperar por melhores dias e narrativas. Assim, e sem grandes manobras para fugir ao “esperado”, Smirnoff atacou os temas de sempre, não esquecendo de integrar a escalada da extrema-direita, mas adicionou um fulgor mais “romântico” a uma trama pautado pelo submundo do crime, como, por exemplo, o casamento de Pernilla, filha de Blomkvist, com um dos políticos mais influentes da região de Gasskas, uma vila ficcionada a norte da Suécia. Quem também tinha lugar de destaque nesse livro é Slava, uma adolescente problemática e extraordinariamente inteligente e dotada que é sobrinha de Lisbeth. As críticas, claro, fizeram-se notar mais uma vez, questionando-se o futuro da série.

E eis que chegamos ao recentemente lançado A rapariga com gelo nas veias (D. Quixote noir, 2025), oitavo tomo da saga, que tem a responsabilidade de manter a chama de Stieg Larsson acesa. Se consegue? Já lá iremos.
O cenário é novamente a vila Gasskas, que se encontra coberto de neve primaveril e marcado por tensões sociais. Tudo tem início com a destruição de uma ponte, que é um local de passagem essencial, e o assassinato de uma jovem jornalista. Este duplo acontecimento dá lugar a uma trama entrelaçada por interesses autárquicos, corporativos e disputas ecológicas.
É aí que Lisbeth Salander retorna: a hacker solitária, que procura preencher o vazio deixado por perdas pessoais, viaja de Estocolmo para encontrar a sua sobrinha Svala, da qual se tinha também tornado tutora, envolvida num grupo ativista, além de resgatar o amigo, rei dos hackers, conhecido por Praga. Ao seu lado, encontra um Mikael Blomkvist debilitado pela doença e uma vila onde predadores se disfarçam de salvadores. É este cocktail extremo que alimenta a narrativa de Smirnoff e dá vida a um dos melhores livros pós-Larsson.
Um dos seus trunfos é um maior dinamismo da prosa que sustenta de forma fluida um argumento arrojado com as características reviravoltas tão bem conhecidas e apreciadas pelos leitores familiarizados com a série. O único ponto menos positivo é um aparente excesso e personagens que gira em torno da trama central e que traz enredos paralelos que retiram protagonismo a Lisbeth e Mikael. Com isso, ganha Slava, qual andorinha rebelde em voo livre e picado, que é cada vez mais o âmago das histórias de Smirnoff ao leme da saga Millennium.
Contas feitas, A rapariga com gelo nas veias é, sem dúvida, um bom pedaço de entretenimento, bem escrito, trazendo a palco vários dilemas contemporâneos, seja isso adevastação ambiental, o tratamento abusivo por parte dos homens face a mulheres mais frágeis, com o espetro da violação de menores bem vincado, restando ainda espaço para refletir sobre o poder impiedoso dos bilionários e da emergente extrema-direita. Tudo ingredientes que, na dose certa, criam um prato gourmet para os aficionados do thriller noir. Só por isso, já vale a pena ler este livro.
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