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Viva México!

Rita Cascais, artista plástica, participou num programa de residência para criadores em busca de novas experiências e aprendizagens.

Rita Cascais é uma artista que, como tantos outros criadores, saiu da sua zona de conforto para abraçar uma residência no estrangeiro. Procurando quebrar com velhos hábitos, rotinas, e novos desafios.

Tem os estudos completos em Artes Plásticas pela Faculdade de Belas Artes (FBAUL) e actualmente vive e trabalha em Lisboa.

Entre Agosto e Dezembro de 2009, participou no programa de residência para criadores Iberoamerica e Haiti no México por intermédio de FONCA e AECI e da segunda mostra Iberoamericana de artes visuais – e, também em 2009, fez parte da mostra de vídeo The One Minutes PT, na Fundação Calouste Gulbenkian. Contando ainda com uma escultura pública no Arts and Business Hotel center no Parque das Nações em Lisboa. Expõe os seus trabalhos com alguma regularidade mas gostaria de fazer muitas mais em exposições.

Podemos começar pelo princípio. Como é que foste parar ao México?

Bom, estou sempre à procura de oportunidades artísticas… Sempre soube das residências mas nunca tinha tentado submeter um projecto. Em Maio do ano passado candidatei-me a esta residência no México. Na altura em que apareceu a gripe A! Até pensei que não houvesse residência, mas para surpresa minha recebi a notícia de que tinha sido convidada para ir. Estava tudo organizado e só tinha de dar uma confirmação para marcar a viagem. Fiquei super contente e lá fui. Nunca sabes muito bem para o que vais e vais sozinha, sem conhecer ninguém, mas decidi arriscar. Era uma residência organizada pelo Fondo Nacional para la Cultura y las Artes de México e a obra a executar seria para fazer parte da II Mostra de Artes Ibero-Americana, com artistas de toda a América do Sul, Central e também Portugal e Espanha.

Queria levar um projecto que acrescentasse alguma coisa de desconhecido da cultura mexicana e pensei numa palavra portuguesa – saudade. Este sentimento existe em todas as pessoas, mas esta palavra não tem uma tradução directa e por vezes foi difícil explicar. Esta palavra que teve um significado de ir e voltar, como se a palavra tivesse um traço e duas setas de cada lado, de um país para o outro. Porque eu ia para lá e já sabia que ia sentir saudades de muita coisa e também sabia que quando voltasse para Portugal ficaria com muitas saudades também, porque quatro meses é tempo suficiente para criar laços. Começas a gostar de lá estar e a criar a tua rotina na cidade e a gostar do ambiente da cidade. E é claro que nos passa pela cabeça ficar no país.

Foi uma oportunidade de conhecer artistas de vários países…

Sim, no grupo só estavam duas portuguesas, eu e mais outra artista, a Ana Calhandro que estava com um projecto para multimédia. Este foi o primeiro ano em que foram portugueses. Havia uma variedade de pessoas de vários países da América Latina. A residência também tinha uma variedade de áreas: artes visuais, multimédia, literatura, dança, teatro, documentário. Consoante a área, as pessoas iam para uma cidade diferente. No caso das Artistas Visuais, fomos para Oaxaca trabalhar no projecto. Ao início tivemos de perceber o funcionamento da cidade, procurar lojas para comprar os materiais, perceber o que havia e o que não havia… Algumas pessoas tiveram de mandar vir os materiais de fora.

Falando da cidade, é a uma cidade populosa, mas no México quase todas o são. Não é uma cidade cosmopolita, mas recebe muito turismo e gente de fora. Tem um nível cultural bastante bom, tendo em conta a localização a sul e longe da Cidade do México. Nesta cidade encontram-se muitos pintores e muitas mostras de pintura. Ficámos a trabalhar na Casa das Artes em San Agustin Etla onde estavamos alojados numa vila muito pequena que fica a cerca de quinze minutos da cidade de Oaxaca. O Centro das Artes era uma antiga fábrica têxtil e foi feito um projecto de arquitectura para renovar o espaço, estando agora cheio de ateliers com óptimas condições. Havia artistas que trabalhavam lá e outros que trabalhavam fora, que era o meu caso, a minha peça era grande e eles não tinham um forno com dimensão suficiente. Então trabalhava num atelier de um mestre de cerâmica bastante conhecido.

E essa pessoa foi-te recomendada ou tu é que a encontraste?

Não, eles já tinham dois ceramistas que tinham sido convidados para receber os artistas de fora, para poderem trabalhar no seu atelier. Como tinham boas condições fiquei lá a trabalhar. Ia todos os dias de manhã fazer o meu trabalho. Foi rápido, mais rápido do que eu pensava. O mestre aconselhou-me em algumas partes técnicas. O meu projecto passava por executar em cerâmica a palavra Saudade, com alguma dimensão e algum impacto. O tempo não foi assim muito, para grandes experimentações, então o mestre Adam Paredes ajudou-me com outro processo que conhecia e com um outro tipo de barro típico. Quando vais para um país fazer um trabalho levas contigo uma ideia, que vais encontrar tudo o que há cá, a mesma maneira de trabalhar, os mesmos materiais e eu nunca tinha pensado muito sobre isso.

Que impacto é que essa diferença teve no teu trabalho?

Tive de ajustar o projecto. As cores que eles utilizam são mais desmaiadas, secas, tons terra e eu não estava a gostar muito disso porque a minha ideia era fazer um azul cobalto, fazer uma pintura mesmo na peça em azul cobalto, como os azulejos. Era construída a Saudade (peça) com alusão à azulejaria portuguesa.

Só que entretanto não quis arriscar a pintura da peça, porque não conhecia o comportamento das cores, as temperaturas. As cores que pretendia utilizar eram também muito pouco utilizadas no atelier onde trabalhava.

E para a cerâmica é preciso tempo e muita experimentação. Não consegues fazer um trabalho “à primeira” e eu não estava assim com tanto tempo para fazer pequenas experiências. Optei por projectar um vídeo sobre as letras. É um conjunto de azulejos projectados sobre as letras em que os quadrados que se alteram no fundo é um pequeno filme em looping. Acabei por gostar mais desta ideia e era mais segura. Existia no grupo muita ajuda mútua, podíamos sempre contar uns com os outros.

Sentiste que havia união dos artistas residentes ou com os artistas da cidade em geral?

Sim. Os artistas residentes eram bastante dispostos a ajudar. As pessoas aderem muito às inaugurações, estão sempre cheias. Para uma cidade que não está muito na rota das artes, havia muito interesse por parte das pessoas.

Havia disponibilidade por parte das pessoas com quem estiveste para te ajudar no teu trabalho?

Sim, sim. Toda a gente era muito receptiva nesse aspecto. Apoiaram-nos em tudo, até a encontrar o material que necessitávamos. A organização via a nossa lista de matérias que precisávamos e diziam-nos onde encontrá-las. Foi uma excelente recepção. Acho que deve de haver poucas residências assim. Que permitem conhecer um pouco do país antes de dar início à execução do trabalho, conhecer artistas e curadores mexicanos e, claro, receber uma bolsa bastante atractiva.

O facto de estares fora, de estares deslocalizada digamos, ajudou-te a trabalhar?

Não, não ajuda. Eu senti que me faltavam as minhas coisas, os meus materiais, o meu espaço. Estás num sítio novo e não tens uma relação com o espaço como tens no teu atelier. Isso para mim foi difícil inicialmente. Parece que não consegues pensar do mesmo modo mas não é nada que não se consiga ultrapassar. Não foi um obstáculo mas nunca tinha passado por isto. E outras pessoas também se queixaram que tinham dificuldade em pensar, em pensar num projecto novo, como se estivessem bloqueadas, porque estás num país estranho, com pessoas que não são as pessoas da tua vida, com outra língua e tens sempre coisas para te distrair porque tudo é novo e tudo te surpreende. Mas trabalhámos.

Como foi preparar a exposição?

No final da estadia de dois meses em Oaxaca voltámos para a Cidade do México para mais um mês e meio. Nos primeiros quinze dias preparámos a montagem da exposição e a trabalhar com o curador Erik Castillo. A exposição correu muito bem e eles foram excepcionais na montagem. Foi no Cenart – Centro Nacional das Artes – que é como se fosse uma cidade universitária em que há uma série de escolas; dança, teatro, música, artes visuais, cinema… Está tudo lá, até tem sala de cinema. É um espaço enorme com muito boas condições e as pessoas ao fim-de-semana costumam ir passear e assistir aos vários espectáculos de entrada livre mas com um um grande nível. A II mostra de artes Iberoamericana tornou-se itinerante e agora está no Centro Cultural de Espanha (CCM), do México. Também foi feito o catálogo da exposição e uma boa divulgação na Cidade do México em jornais, outdoors, revistas e mesmo na rádio fomos entrevistados.

Tens saudades?

Sim, bastantes. São quatro meses em que estás despreocupada, em que só tens de pensar na obra. Tinha muito tempo mas não tinha o outro lado da vida social, dos amigos, de fazer coisas, de ver coisas. Durante a minha estadia quase não usei telemóvel, não vi televisão e usar a internet também era difícil pelo menos quando estava em San Agustin Etla que está envolvida por umas grandes montanhas. Fiz grandes amizades com alguns residentes e também com mexicanos que conheci exteriores à residência.

E esse contacto com essa cultura foi produtivo para o teu trabalho?

Não sei até que ponto. Claro que influencia a minha vida mas não sei até que ponto poderá vir ao de cima. Em algumas coisas sim, por exemplo, a utilização das cores vivas exageradas, eles são muito coloridos e folclóricos, os letreiros pintados à mão quer a fazer publicidade quer a indicar o nome de uma loja, e isso atrai-me bastante. As casas são pintadas com tons fortes, são muito alegres. Também tive oportunidade de ficar lá no dia dos mortos e em Oaxaca que é onde há mais tradição. A morte não é um assunto tabu ou difícil de falar. Claro que também choram os mortos mas a dor também se envolve num festejo muito particular. Passámos a noite numa festa bastante típica onde há imensa gente na rua mascarada de caveiras e uma banda a tocar.

No dia dos mortos abrem os cemitérios e as pessoas ficam a noite toda no cemitério ao lado das campas dos familiares a beber e a comer as comidas que o morto gostava, lembram o morto, põem umas flores que são usadas mesmo para aquele dia e fazem os altares em casa para receber as visitas dos mortos. Há muitos objectos e utensílios que estão nesses altares. Não estamos mesmo habituados. Talvez por ter vivido isso, agora talvez sinta de outra maneira. É indiscritível. Eles adoram caveiras. Por exemplo, nós residentes tínhamos de organizar algum evento para a comunidade local. Propus dar um workshop na comunidade da vila numa escola do segundo ciclo. Então fui lá fazer o workshop de pasta de papel e disse aos miúdos para pensarem numa coisa que quisessem fazer e, claro, todos queriam fazer caveiras, abóboras e ceifas. Mas combinam isso com elementos alegres como as cores ou até mesmo corações. Ninguém quer representar um carro mas sim este tipo de imaginário. O México tem cenários e muitas outras situações com bastante interesse, visualmente é muito rico. Propõe uma construção cinematográfica constante. Por isso também aproveitei para fazer pequenos filmes.



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