Vodafone Paredes de Coura | Dia 1 (13.08.2025)
A vida são dois dias, e o Vodafone Paredes de Coura são quatro.
Texto por Patrícia Santos e fotografia por Rui de Freitas.
O primeiro dia do Festival Vodafone Paredes de Coura foi ao encontro das nossas ânsias mais e menos comuns, para as desatinar e tirar da ordem. Simultaneamente, foi ao disparo com a energia que veria surgir, para quatro dias fora da caixa, sem serem a toque de caixa, a um ritmo alucinante e, todos os dias, mais empolgante.
Samuel Úria distinguir-se-ia, desde logo, com um concerto maravilhoso que irrompe (n)o Palco Vodafone. Editara o seu mais recente trabalho artístico em Dezembro de 2024, “2000 A.D.”, e, nesta tarde ardente, apresentar-nos-ia algumas das canções que compõem o mesmo. Ao mesmo tempo, faria soar algumas das suas músicas-fruto apetecido, como «A contenção», «Lenço Enxuto» ou «É preciso que eu diminua». A sua voz alberga sussurros e gritos desejados, como se de uma caixa de tesouro se tratasse. Neste concerto, abriu-se esse cofre, discernindo-se sobre cada letra carregada ao ombro, sobre cada melodia encaixada na mão. Cinco músicos em palco, um letreiro distinto que dizia 2000 A.D., e ainda a presença de Carol para cantarem «Daqui para trás». De seguida, já no Palco BacanaPlay, Unsafe Space Garden. Habitámos a idiossincrasia, a plenitude do desarranjo – o que implica tanta organicidade e, também, tanta perspicácia. Fomos caps locks ambulantes na ordem do caos – diminuídos e aumentados como devíamos ter sido; apequenados na mediocridade, agigantados no que nos reinventa. Complexidade compreensível, tremendos e irremediáveis. Contam já com três álbuns editados e lançados e, no palco, prometeram ‘demolir paredes’. Afinal, abalar mentes nunca fez tanto sentido, venha de lá essa demolição. Ainda no mesmo palco, mais tarde, Cass McCombs deliciou-nos com a apresentação de músicas novas, peças-parte do álbum “Interior Live Oak”, que sairia dois dias mais tarde. O artista é cúmplice da descomplicação e é detentor de desapegos; por sua vez, aparece-nos esperançoso, firme e capaz – porquanto, um regresso a casa nunca fora tão reconciliador e preciso. Novamente no Palco Vodafone, e a rasgar o início da noite, MJ Lenderman (& The Wind) foram sinónimo de borboleta acabada de sair do casulo. Um timbre que transforma a melancolia em livre arbítrio, que confere confiança à sensibilidade que pende. O artista e a sua banda deram arrimo à colina, colocando toda a gente de pé. Tendo lançado “Manning Fireworks” em Setembro do ano passado, MJ Lenderman trouxe-nos o mesmo, para não nos esquecermos que qualquer fogo de artifício que venha de dentro, causa sempre alguma mudança. A constante, essa, é o som da guitarra. Zaho de Sagazan e o arrebatamento total. Um concerto-maravilha que extasiou toda a plateia. O batimento eletrónico através de uma voz enraizada e de palavras demarcadas. A ‘canção francesa’ voou para outra dimensão com este ‘trovão’ que nos clareou a mente e a alma. Um espectáculo de duas mãos cheias, onde a comoção e a dança foram almas gémeas. Nós também somos capazes de ter encontrado a nossa cara-metade com esta primeira vez de Zaho em Portugal, não fosse o espaço sideral aquele que nós habitámos durante este momento tão especial. Nostalgicamente entusiasmados, recebemos Vampire Weekend. Sem grandes exaltações ou respirações (pro)fundas, apresentaram-nos um concerto unívoco e translúcido. Ouvimos as suas canções mais reputadas com uma sensação de coisa certa. Guarnições à parte, e a jovialidade é algo que lhes assenta bem.
Finda o primeiro dia do festival e uma vontade de pertença que agudiza. São os muitos concertos, é o espaço físico envolvente, é a aura social que se vive. Subamos e desçamos as colinas as vezes que forem precisas, nós vamos sem ser de empurrão, sem ser em contramão, afinal é aqui que queremos estar.
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Leiam aqui as reportagens do segundo, terceiro e quarto dia do festival.
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