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Vodafone Paredes de Coura 2025 | Dia 4 (16.08.2025) 

Ao quarto dia tudo (parece) possível. Dizem que Roma e Pavia não se fizeram num dia. O Vodafone Paredes de Coura também não.

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Texto por Patrícia Santos e fotografia por Rui de Freitas.

Aqui não há coisa última nem finais tristes. Cada dia é sempre o primeiro, num contínuo de felicidade que não acaba. Dizem que os contos de fadas são feitos (maioritariamente) de desfechos afortunados; pois eu digo que somos capazes de ter encontrado o pote de ouro no final do arco-íris aqui no couraíso

A abrir o Palco Vodafone neste último dia de festival, Ana Frango Elétrico. Um timbre tímido e quase encolhido, em oposição a uma presença generosa e ousada. Em palco para apresentar o álbum “Me Chama de Gato Que Eu Sou Sua”, lançado em 2023, realçou que as curvas e as contracurvas do amor, da vida e da identidade se cruzam a cada instante, gerando um rebuliço que se desdobra numa alegria íntima e, até, confidencial. Um concerto que, visualmente, se fez de azuis, verdes e vermelhos; ainda que, esteticamente, se tenha feito de liberdade criativa. Foi-se contornando o volume baixo, e a artista fez-nos navegar por um belo mar de prazer. Quem diria que tocar teclado com a testa fosse tão sublime. No Palco BacanaPlay, é a vez de Hinds. A banda madrilena mostrou-nos o seu quarto álbum “VIVA HINDS”, lançado em 2024. Por sua vez, também nos demonstraram que quando há companheirismo a montante, depois tudo se torna mais clarividente a jusante. Dessa forma, anular-se-ia toda e qualquer ponte levadiça de instabilidade que pudesse existir. Problemas de som à parte, e um concerto cheio de uma energia boa, de umas gargalhadas sonoras e de uma amplitude bem precisa e expressiva. Hinds não é (só) sobre duas amigas que se juntaram para criar um grupo musical abundante em melodias vivazes; Hinds é, acima de tudo, acerca do que nos rasga e emaranha no bom sentido. Se por um lado, as sensações humanas nos fendem e despontam; por outro lado, esse emaranhado de ‘sentires’ é o que nos contagia, nos conquista e nos diverte. Sharon Van Etten & The Attachment Theory e um tapete que se instala sob os nossos pés e nos levita. Sharon Van Etten concretizou os nossos desejos e fez surgir mais e mais, tal nascente de água limpa. Uma ‘afeição’ que se concebeu, purificada e renovada, e que se abateu sobre nós, lavados e revigorados. Um concerto que arrombou, educadamente, a nossa porta de ‘cismas’. Sharon Van Etten e a banda que incorpora, agora “The Attachment Theory”, deram-nos a conhecer o seu mais recente trabalho artístico, divulgado em Fevereiro do presente ano. Uma hora na qual quisemos ‘viver para sempre’, sem ‘amarras de idiotice’ ou ‘pendências inquisidoras’. Uma voz que acolhe misticismo, como se a partir daí pudéssemos alcançar a realidade das coisas (palpáveis ou não). Ainda se viajou até às músicas «Seventeen» e «Every Time the Sun Comes Up» – magnífico. Segue-se AIR, esta entidade maior que compreende tudo o que é devaneio, ao ponto de o tornar esperança alargada e (quase) sagrada. Um momento bem metódico, em que, se por um lado, toda a estrutura arquitetónica e visual seguia essa lógica; por outro lado, toda a disposição e intenção física, psicológica e artística completavam essa mesma ordem. E o ‘bem metódico’ desvelou uma sequência de melodias que, no que diz respeito à música electrónica (e não só…), correspondem ao suprassumo do sonho e da imaginação. “Moon Safari” contém o tempo e o incomensurável; porquanto os AIR acolhem todo um firmamento que vai desde o mais pequeno detalhe à mais dilatada banalidade – trinta anos de existência em modo (necessária) sedução. Enfim, Franz Ferdinand e a colina vira, figurativamente, um ‘campo de batalha’ inverso, daqueles ideais onde a estratégia de combate dá lugar a um plano sinergético que abeira tudo e todos – afinal, a música salva (e saltar e tirar os pés do chão tão impulsivamente (e, quase até, imprudentemente) nunca foi tão vital). Franz Ferdinand foram os semideuses da noite, com um concerto culminante no Palco Vodafone. Uma espécie de tête-à-tête mas ‘à Lagardère’, em que cada canção foi entoada acerrimamente, e sem preceito. Uma espécie de ‘contrato tácito’, em que cada entoada fomentou mais e mais a concordância aclamada entre as partes acerca da banda (um concerto ‘sempre a abrir’, que foi de primeira a quinta sem lassidão, com ímpeto e do qual não nos esqueceremos, com certeza). 

Dizia, ao início, que ao quarto dia tudo (parecia) possível. E foi. Os pingos da chuva até podem não ter sido muitos (pouquíssimos, na verdade) – fugimos ao ditado que diz “casamento molhado é casamento abençoado” -, porém, foi sem dúvida, um dia de muito regozijo. Aliás, atrevo-me a estabelecer aqui um novo provérbio – chega-se ao couraíso para ficar, vai-se de lá com desejo de voltar. Até 2026!

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Leiam aqui as reportagens do primeiro, segundo e terceiro dia do festival.

 



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