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“A 20 de Novembro”

"Durante os meus 18 anos de existência aprendi que só podemos ser felizes se nos diluirmos na multidão anónima, se nos adaptarmos à sociedade como uns idiotas. Mas eu não podia, não o queria fazer"

A 20 de Novembro de 2006, Sebastian Bosse tinha 18 anos. A 20 de Novembro de 2006, Sebastian entrou no seu antigo liceu munido de uma multitude de armas, e feriu vários alunos e professores, suicidando-se de seguida. O rapaz que vemos em palco, à nossa frente, a olhar-nos nos olhos com tanta intensidade que só queremos virar a cara para o chão, é Sebastian, uma hora antes de se dirigir para o liceu. O texto é baseado no diário que ele deixou na internet, para que todos pudessem perceber o porquê. O que leva um jovem de 18 anos a provocar um massacre na sua escola?

Para João Pedro Mamede, o actor que personifica Sebastian, o mais difícil foi fazer que com aquelas palavras estivessem na sua boca. “E quando menos esperava elas começaram a ser ditas”. Há muita dor no discurso do jovem – este teve uma vivência que ninguém merece ter. E essa dor causa um grande ódio à vida e a quem é cúmplice dos padrões sociais que ele tanto recusa. “O fruto de uma sociedade de monstros”, comenta o encenador, Francis Seleck.

O jovem questiona o público, esperando respostas, e quando confrontados com a sua dor, questionamo-nos a nós próprios. Nenhuma das dúvidas de Sebastian está longe das nossas. Mas à lucidez que acompanha o seu discurso vem também, de mãos dadas, a esquizofrenia. E entre momentos de empatia entre jovem e audiência vem a raiva que emana por todos os seus poros; raiva das pessoas, da sociedade, de quem espezinhou a sua existência até ele querer deixar de existir. Mas não vai sozinho – Sebastian quer vingança.

O espectáculo apresentado é cru e assustador, mas durante aquela hora em que o jovem nos encara, não perdemos um segundo da sua mensagem. E, muitas vezes, o público tem também uma mensagem a dar. Sebastian questiona a audiência de forma agressiva; subitamente, ninguém quer ser o alvo da sua atenção, ter de responder às suas perguntas, pois nenhuma delas é confortável, e as respostas podem não ser bonitas. “É um risco”, diz Francis Seleck, “mas é sempre bom haver algum risco”.

Esta não é uma peça de consumo rápido. Não é um assunto que se consegue ignorar – até porque está tão próximo. A história de Sebastian não foi a primeira, como o próprio refere, mas não há-de ser a última. Mas Sebastian deu-nos uma hipótese de entrarmos na sua mente, e essa é talvez a arma mais poderosa contra estes acontecimentos. O que leva um jovem de 18 anos a provocar um massacre na sua escola? “A 20 de Novembro” tenta dar-nos as respostas. Ou, pelo menos, as perguntas certas a serem feitas.

“A 20 de Novembro” de Lars Norén Com João Pedro Mamede Direcção Francis Seleck

Teatro da Politécnica

De 9 a 19 de Janeiro
4ª às 21h – 5ª a Sábado às 19h

Fotografia e Vídeo de Luís Ferreira.



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