A Caixa que não mudou o mundo mas transformou muita coisa

Jorge Romão

Caixa que não mudou o mundo mas transformou muita coisa. Entrevista com Jorge Romão, um artista que saiu da sombra

Até há dez anos atrás, todos aqueles que aguardassem julgamento por um delito considerável balançavam entre duas situações: aguardavam o julgamento em liberdade ou, caso se suspeitasse de fuga ou o crime fosse julgado muito grave, ficariam em prisão preventiva até serem chamados a Tribunal para uma decisão final. Em 2002, mesmo que por entre alguma apreensão, Portugal tinha o seu primeiro caso de Vigilância Electrónica (VE) e, desde então, muitos têm sido os casos de pessoas que experimentaram esta tecnologia, em alternativa a passarem o tempo na prisão.

Duas das componentes mais visíveis da VE são o Dispositivo de Identificação Pessoal (DIP), vulga pulseira, e a Unidade de Monitorização Local (UML), comummente designada de caixa pelos vigiados. Quando os dispositivos foram substituídos por outros mais modernos, Jorge Romão – coordenador da Equipa de Vigilância Electrónica de Lisboa – decidiu pedir à empresa fornecedora que lhe deixasse ficar com os antigos aparelhos, que muito provavelmente iriam parar a um ferro-velho ou no abraço de uma máquina incineradora. Foi aí que a sua veia de artista finalmente palpitou, transformando objectos frios e sem graça em pequenas obras de arte onde contou, de forma escultural, a vida de algumas das pessoas que haviam estado em Vigilância Electrónica. Nascia assim “A Caixa”.

As 10 caixas idealizadas por Jorge Romão foram, na sua maioria, construídas com materiais de desperdício, revelando um grande espírito inventivo e muita atenção ao pormenor – quase um trabalho de ourives. Nota-se também uma grande transversalidade, tanto em termos sociais como das próprias histórias: temos a casa portuguesa bem ao gosto do emigrante, o condomínio de luxo onde se passeiam Ferraris, um altar religioso capaz de agradar ao Papa ou a representação da própria justiça.

A RDB esteve à conversa com Jorge Romão, tentando perceber onde se tem escondido este artista plástico. Se tudo correr bem, as caixas poderão ser vistas de perto muito em breve.

Como é que um técnico superior de reinserção social e coordenador de Equipa de Vigilância Electrónica de Lisboa, sem qualquer ligação anterior às artes – pelo menos do foro público e visível -, revela agora o seu lado de artista plástico?

Antes de mais quero frisar que não me considero um artista plástico nem nunca tive pretensões de ascender a tal estatuto. Acontece que já na escola primária me salientava dos restantes alunos no desenho e nos trabalhos manuais, sem que no entanto tenha encarado tais capacidades naturais como algo de excepcional. Por vicissitudes da vida e talvez pela falta de estímulos – cresci no seio de uma família humilde, onde a arte não era valorizada (à excepção da minha avó materna, que sempre considerou que eu tinha umas “mãozinhas de prata”) – acabei por nunca desenvolver essa área e enveredar por um percurso profissional que me desse alguma autonomia e conforto. Paralelamente fui fazendo uns desenhos e alguns objectos, que ia oferecendo a amigos e colegas de trabalho pelo Natal e nos aniversários. Os elogios que esses trabalhos foram merecendo, conjugados com a oportunidade de celebrar os dez anos de vigilância electrónica em Portugal, levaram-me a ter a ousadia de apresentar o presente projecto, que acabou por evoluir para uma dimensão que me ultrapassou, em todos os sentidos. Hoje olho para as caixas e, paradoxalmente e apesar do apego que sinto, não me revejo como seu autor. Elas estão aí, ganharam vida e já não me pertencem. Estou no entanto plenamente convicto de que cada caixa tem o seu valor artístico próprio enquanto obra autêntica e, tal como a rosa, “bela sem porquê”. Há momentos que marcam toda uma vida e tenho que admitir que este projecto marcou a minha, pela envolvência e intensidade com que o fiz. Há, sem dúvida, um JR antes da caixa e um JR depois dela.

A Caixa que não mudou o mundo mas transformou muita coisa

O projecto foi pensado como um todo desde o início ou as caixas foram sendo criadas à medida das circunstâncias e da imaginação?

O projecto foi pensado como um todo e a sua matriz ficou definida de imediato. No sei se se tratou de um genuíno e espontâneo momento de criação ou de algo inspirado na minha experiência pessoal e profissional. Apenas sei que ao fim de dez minutos tinha à minha frente um primeiro esboço numa folha A4, na qual fiz um rascunho de dez pequenos quadrados, cada um deles com o título – que se manteve, sem qualquer alteração – das histórias que pretendia retratar em cada caixa.

Há uma grande transversalidade temática e social nas caixas, desde a religiosidade fervorosa ao fascínio por carros topo de gama. A justiça em Portugal é cega ou espreita por entre os dedos?

Não gostaria de trazer aqui à discussão a acção da justiça na sua amplitude, quer pela circunstância do projecto ter sido concebido à margem desse tema, quer pelo enquadramento institucional e profissional que ocupo. De qualquer modo, e com base na minha experiência ao longo destes dez anos, creio, com profunda convicção, que a vigilância electrónica é verdadeiramente transversal a todos os estratos sociais.

Pode dizer-se que cada uma das pulseiras e caixas contém um pouco da alma daqueles que as usaram?

De alguma forma sim. Para além do cumprimento da decisão judicial, cada vigiado estabelece necessariamente uma relação muito próxima com a caixa. Assim como as prisões criam histórias de celas e os quartéis histórias de caserna, também a caixa cria as suas histórias. E nestas, estão presentes as expectativas, crenças, atitudes e percepções dos vigiados. Apesar da neutralidade dos equipamentos e dos procedimentos a observar no seu uso estarem protocolados a nível nacional, a atitude de cada vigiado face à execução da VE comporta em si particularidades individuais. Cada caixa, cada pulseira, é percepcionada de forma diferente pelo seu utilizador. Há vigiados para quem aquele objecto estranho e frio colocado no tornozelo é um estigma, que procuram ocultar dos outros; há quem, numa atitude oposta, exiba a pulseira aos seus pares como símbolo de afirmação e poder do grupo.

A Caixa que não mudou o mundo mas transformou muita coisa

É curioso que os materiais utilizados, com excepção das colas e tintas, tenham provindo de desperdícios e lixo recicláveis recolhidos em bairros como Alfama, Graça e Mouraria ou, em alternativa, encontrados entre a Feira da Ladra e as lojas dos chineses. É uma forma de dar um carácter mais humano à tecnologia?

Seguramente que sim. Um dos objectivos a que me propus desde início foi tentar anular a frieza dos equipamentos tecnológicos, conferindo-lhes alguma humanidade. Fazê-lo com materiais novos pareceu-me redundante, já que não passaria de uma mera operação de cosmética: seria transfigurar equipamentos com outro tipo de equipamentos. Para tanto, procurei utilizar objectos utilizados e, literalmente, manuseados. Só para dar um exemplo: para a varanda da caixa “casa portuguesa” comecei por comprar um recipiente para comida de pássaros numa loja de animais, que acabei por trocar por um outro, já utilizado numa gaiola. Não o fazendo, estava a trair a autenticidade que pretendia conferir ao projecto.

A propósito do lixo utilizado, não posso deixar de falar de uma estranha e feliz conjugação de coincidências que ocorreu: parte dos materiais que idealizei para transfigurar algumas das caixas, veio, literalmente, ter ao meu encontro. Foi assim com a caixa “tecnologia e media”, em que antecipei que ficaria bem ilustrada com uma antena de TV interna dos anos 70. Na altura interroguei-me: onde é que raio vou agora encontrar tal coisa!? Dias depois, encontrei uma antena junto a um caixote do lixo na rua onde moro. O mesmo se passou com o cão utilizado na caixa “o campo” ou com as moedas e notas utilizadas na caixa “pé-de-meia”, que encontrei no interior de um sofá no bairro da Mouraria.

Qual destas dez obras de arte é a sua “caixa de estimação”?

Pronto! Lá veio a pergunta difícil…. Pode parecer um pouco “lamechas” mas na verdade é-me muito difícil eleger uma caixa já que, inexplicavelmente, sinto um certo apego a todas elas. No fundo, são “as minhas meninas”. Como tive oportunidade de dizer no vídeo que acompanha a exposição, as caixas não retratam apenas a história dos vigiados, dos técnicos ou da própria VE; há em cada caixa um pedaço de mim, um afecto, uma vivência, uma memória de infância (já para não dizer que durante a sua confecção perdi cerca de 8 kgs., o que dá uma média de 720 grs. por caixa (risos). Quem sabe se não inventei um novo modelo dietético.

De qualquer modo não quero deixar de responder à pergunta; vamos supor, com as devidas diferenças, que estávamos num concurso de misses: votaria como finalistas as caixa “devoção”, “casa portuguesa” e “regras e disciplinas”. Em próximas entrevistas talvez revele quem seria a miss simpatia e a miss fotogenia!

O humor pode conter a salvação do mundo?

A salvação não diria. Mas certamente pode contribuir para um mundo diferente e menos cinzento. S. Tomás de Aquino defendia que “o humor é necessário para a vida humana”.

Enquanto traço fundamental da natureza humana, traduz o bem-estar psico-emocional do indivíduo e, nessa medida, o humor é um veículo de transformações sociais. Quando utilizado com inteligência e oportunidade pode derrubar barreiras sociais e abalar paradigmas e preconceitos instalados.

Quando poderemos ver de perto estas caixas?

No dia 23 Novembro, no âmbito do Seminário evocativo dos dez anos de vigilância electrónica em Portugal, estiveram expostas no átrio da Faculdade de Direito de Lisboa. Entretanto recebi propostas por parte da Câmara Municipal de Lisboa, do Ministério da Justiça e da Ordem dos Advogados, estando a decorrer contactos para que sejam expostas num espaço destes organismos. Penso que muito em breve – talvez já em Dezembro – estarão aí, à disposição do público, perspectiva que encaro com entusiasmo e algum orgulho. Não por mim, que não tenho quaisquer pretensões de protagonismo, mas por acreditar que “as minhas meninas” merecem sair do armário.



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