“A Torre de Basileia” | Adam LeBor

“A Torre de Basileia” | Adam LeBor

Ajuste de contas

A linguagem do dinheiro consegue ser alheia a qualquer tipo de princípios morais, ainda mais quando se fala da alta finança. No caso do BIS (o Banco de Pagamentos Internacionais, o “banco central dos próprios banqueiros”), bem podemos aplicar uma máxima adulterada, algo como amigos ou inimigos, negócios à parte. Adam LeBor, autor de thrillers e jornalista britânico radicado em Budapeste, parte do princípio de que não conhecemos esta instituição e, se a conhecemos, talvez não saibamos o suficiente.

Tendo na sua mesa de reuniões a elite financeira mundial, uma comissão que «costumava ser conhecida como assembleia dos governadores do G-10», o banco dos bancos, sob o sigilo e imunidade que a lei suíça permite, viu recentemente o seu capital total avaliado em cerca de 20 mil milhões de dólares. LeBor descreve “A Torre de Basileia” (Bertrand Editora, 2014) como «um livro sobre redes, ligações e o exercício encoberto do poder». Considera que o BIS passou ao lado dos movimentos contestatários do 1% mais rico da população, já que a massa crítica considera-o anacrónico desde a criação do FMI e do Banco Mundial. O contexto histórico da instituição permite, também, afirmar que se tratou do «capitalismo mais cínico à face da terra», abordando a cumplicidade com o Reischbank e respectivo ouro nazi, assim como o fomento de transacções pela calada entre membros dos países Aliados e as potências do Eixo.

Vilipendiar os nomes que encabeçaram o BIS durante as duas guerras mundiais é uma oportunidade que não passa ao lado de LeBor. Para apontar bem o dedo, o autor e a sua equipa de investigadores levaram a cabo um exaustivo trabalho de arquivo, aproveitando o facto do próprio banco em estudo ter disponibilizado ao público o acesso aos seus registos com mais de trinta anos. Tal explicará o motivo pelo qual grande parte do livro se centra no período das grandes guerras e a posterior permanência no poleiro de vários indivíduos ligados ao partido nazi – indivíduos esses com dedo no reflorescimento da economia alemã.

A terceira e última parte do livro, confiada sobretudo aos resultados de reportagens feitas pelo autor e cúmplices, debruça-se tanto sobre a natureza anacrónica do banco (ainda mais com a crise da Zona Euro) como de uma enumeração daquilo que o BIS deve fazer para ser uma instituição transparente e lícita. Trata-se de uma breve e apressada conclusão, sustentada por um paralelismo com a Torre de Babel (metáfora de simplicidade bíblica), muito virada para o quem tudo quer, tudo perde.

Há espaço para LeBor usar técnicas narrativas pouco convencionais em círculos académicos, fazendo de “A Torre de Basileia” uma espécie de page turner. Mesmo que dotado de terminologias e passagens densas, este é um livro para um grande público, sedento por justiça e ansioso por uma repartição mais justa do capital, símbolo da fortuna de uns e a miséria de outros. No fim de contas, é-se sempre remetido para um animalesco jogo de dominação, com a particularidade dos jogadores vestirem fato e gravata.



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