“Génio” | Harold Bloom

“Génio” | Harold Bloom

Para lá do talento esconde-se o génio

«Encontrar o extraordinário noutra pessoa pode ser enganoso ou dececionante. (…) Encontrar o extraordinário num livro – quer seja na Bíblia, em Platão, em Shakespeare, em Dante ou em Proust – é um benefício quase sem custos. O génio na sua expressão escrita é o melhor caminho para alcançarmos a sabedoria, e eu acredito que é o verdadeiro uso da literatura para a vida.»

Logo na introdução a “Génio” (Temas e Debates, 2014), Harold Bloom trata de apresentar a sua visão muito pessoal da literatura antes de se lançar na apresentação dos 100 autores mais criativos da história da literatura. Porém, excepção feita a Shakespeare, Dante, Cervantes, Homero, Virgílio, Platão «e os seus pares», Bloom diz tratar-se de uma escolha puramente arbitrária e idiossincrática: «Queria escrever sobre estes.» E escreveu-o misturando crítica biográfica e literária, deixando de lado praticamente qualquer indício de historicismo.

O livro está organizado em conjuntos de dez, que por sua vez se desdobram em sub-conjuntos de cinco (dois por grupo), num mosaico construído a partir das Sefirot cabalísticas, «atributos em simultâneo de Deus e de Adão Cadmo, ou homem divino, a imagem de Deus.» A cada um dos grupos de cinco Bloom associa um “lustro”, onde, em dois parágrafos, nos explica por que razão decidiu associar as cinco figuras que vão ser apresentadas nas páginas seguintes. Bloom considera que cada uma das suas figuras representa uma diferente atitude perante a espiritualidade, que vai de São Paulo a Calvino.

Mas o que será, então, o génio? Bloom liga-o à resposta antiga de que será a fala de um deus interior, razão pela qual a genialidade estará tão desacreditada numa época como a nossa, dominada pelas ideologias materialistas. Mas como distinguir entre génio e talento? «A pergunta que precisamos de colocar a qualquer escritor será a seguinte: Ela ou ele aumentam a nossa consciência? E como é que o fazem? Acho que este teste é grosseiro mas eficaz: para além de me ter divertido a minha perceção intensificou-se? A minha consciência alargou-se e foi esclarecida? Se não, então deparei-me com talento e não com génio. Aquilo que há de melhor em mim não foi ativado.»

Ao longo de 900 páginas viajamos da Bíblia a Sócrates, passando pelas obras transcendentes de Dante, Camões e Shakespeare, até à modernidade de Pessoa, Faulkner e Hemingway. Bloom explica os paralelismos que encontrou entre os génios que seleccionou, bem como a forma em como se influenciaram uns aos outros na ininterrupta corrente do tempo. Além disso, Bloom apresenta alguns excertos de livros que certamente cumprirão aquilo que terá secretamente desejado: que o leitor vá de encontro às obras que estes génios deixaram para a eternidade.

Entre a irreverência e um apurado espírito crítico, Harold Bloom oferece em “Génio” uma obra monumental, que poderá ser olhada como uma enciclopédia livre da genialidade literária, recuperando a fé na literatura como a arte que conduz o homem à sabedoria.



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