“O Elixir da imortalidade” | Gabi Gleichmann

“O Elixir da imortalidade” | Gabi Gleichmann

Questionar as nossas próprias heranças familiares

«Senti o peso da responsabilidade e prometi que um dia iria descrever o universo exíguo e isolado que constituíra a nossa morada nesta terra. A minha mãe não prestou atenção, já estava de partida desta vida»

As histórias de família são uma herança comum a quase todos nós e algumas, as mais tocantes, ficam marcadas em memórias recônditas de acesso pessoal e intransmissível. Neste “O elixir da imortalidade” (Bertrand Editora, 2014), Gabi Gleichmann não esconde a sua herança judia ou os segredos da família Spinoza, fazendo um relato que se estende à história europeia de 1140 até aos dias de hoje, levando-nos a viajar aos mais distintos locais, Lisboa incluída.

Um tio-avô que consegue comunicar com entes desaparecidos serve o propósito e dá início ao percurso, relatando a dois jovens irmãos fantasias e realidades que eles, na sua inocência, ouvem apaixonada e atentamente. A “cabala” surge, assim, não no sentido a que estamos habituados – em Portugal, associada quase sempre a tristes factos políticos – mas como a identidade familiar que permite transportar uma herança única.

«”A cabala é um conjunto de ensinamentos místicos dos judeus” – Começava sempre a sua exposição por esta frase. Pronunciava as palavras lentamente e com reverência. Repetia-as para as gravar na nossa memória. E continuava em tom abafado, quase num sussurro…»

O que esta obra faz, desde logo, é questionar as nossas próprias heranças familiares, procurar respostas áquilo que somos no presente através da nossa relação com o passado; vasculhar baús em busca de uma árvore genealógica perdida ou cartas de amor esquecidas por uma avó apaixonada, na esperança de “destapar” um qualquer elo desconhecido.

Se o ADN de cada um fosse visível a olho nu, não seria necessário recorrer a certos expedientes mais científicos, mas será sempre preciso um contador de histórias para que estas perdurem nas memórias e possam ser recontadas infinitamente.

G.Gleichmann nasceu em Budapeste em 1954, tendo-se mudado para a Suécia com apenas 10 anos de idade. Estudou literatura e filosofia, trabalhou como jornalista e foi presidente do Swedish PEN club. Esta é a sua estreia como autor.



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