Afonso Cruz

Afonso Cruz

"Acho que, a partir das nossas acções, conseguimos renascer de algum modo dentro de todas as pessoas que conseguimos tocar, seja através de gestos, palavras ou omissões." Mais uma entrevista com o selo RDB

 

Apreciador de labirintos que podem ser sinónimo da própria escrita e do acto de viver, Afonso Cruz é um dos autores mais prolíferos da sua geração. Tendo como pretexto a edição de “Livro do Ano” e um novo volume da “Enciclopédia da Estória Universal“, trocámos algumas ideias com este homem que afirma que a complementaridade entre escrita e imagem pode fazer o leitor voar nas asas da imaginação.

Escritor, músico, ilustrador, realizador. Comunicas através de diferentes formas de expressão. Existe alguma hierarquia dentro destas áreas ou a escolha é arbitrária?

Não existe uma hierarquia em termos absolutos, mas se considerarmos determinado dia, ou altura do ano, sim, poderá haver uma escala de valores. Por vezes preciso de tocar e isso ganha uma importância maior. Outras vezes preciso de escrever e, nesse caso, a escrita usurpa o trono. As minhas actividades são uma espécie de golpe de estado dentro da alma. Os prazos também determinam muita coisa, visto que me torno um ilustrador compulsivo quando tenho ilustrações para entregar.

Mesmo enquanto escritor dedicas-te a diferentes universos. Entre as últimas publicações contamos com “Livro do Ano” e mais um tomo da Enciclopédia da Estória Universal, desta vez referente aos “Arquivos de Dresner”. De um lado, um trabalho ilustrado em forma de diário e, do outro, um exercício mais literário. Qual dos dois deu mais prazer escrever/criar?

Não consigo responder. É como estar com dois amigos de quem gosto bastante, apesar de as suas personalidades poderem ser muito diferentes ou até opostas; ou escolher entre uma pilsener checa ou uma ale belga. Mas o facto de me mover em registos diferentes também é uma ajuda para combater uma eventual monotonia e permite-me explorar outras maneiras de comunicar, incluindo textos para os quais não teria qualquer inclinação ou apetência para escrever.

Afonso Cruz

Tendo em conta as duas referidas edições, como nasceu a ideia para o “Livro do Ano”? Ao folhear o diário desta «menina que carrega um jardim na cabeça», verificamos que o mesmo começa na Primavera mas, a sensação que dá, é que pode ser lido de forma arbitrária. Acreditas que a vida começa com a estação das flores?

Normalmente festejamos os começos na altura do nascimento e não no da concepção. Hoje, o ano começa no solstício de Inverno, ou perto dele, – o que corresponde à concepção e não ao acto de dar à luz – mas o calendário ainda tem a herança de outros tempos em que o ano começava na Primavera. Basta reparar na ligação de Setembro, Outubro, Novembro e Dezembro às palavras “sete”, “oito”, “nove e “dez”. Ou seja, de um modo empírico, é na Primavera que sentimos a natureza despontar. Sabemos que no Inverno os dias começam a ficar maiores, mas não o sentimos como um nascimento. De resto, “O Livro do Ano” pode ser lido de forma arbitrária, ou quase, pois os fragmentos do diário não são propriamente narrativos e conseguem, muitos deles, ser compreendidos isoladamente.

O que nasceu primeiro neste projecto? As imagens ou a história?

Escrevi o texto antes de ter as ilustrações, mas enquanto escrevia formava, simultaneamente, uma imagem mental daquela situação e do modo como poderia, com a ilustração, ter um complemento da escrita, um prolongamento. Para mim é muito importante que algumas coisas sejam ditas através das imagens e, para isso, tenho de fazer com que as palavras não ocupem o espaço todo. E, neste caso, também é muito importante que a imagem não mostre tudo, pois isso tornaria as palavras redundantes. Como se a escrita fosse uma asa e as ilustrações outra asa, formando em conjunto a possibilidade de voar.

Metaforicamente, o leitor é confrontado no livro com uma instituição apelidada de «Instituto das Pessoas Normais». A “marginalidade” e o absurdo enquanto comportamentos fora dos padrões ditos normais podem ser a desejada fuga para a felicidade?

Não acho que tenha a ver com a felicidade. O conforto daquilo que conhecemos, das rotinas, pode ser uma fonte de felicidade. Do mesmo modo que a aventura, o encontro com o desconhecido, a mudança, o comportamento incomum ou original, também podem fazer-nos felizes. Mas a rotina, como todos sabemos, também pode ser um suplício, e as surpresas, as novidades, podem também ser uns pesadelos. Mas acho que a evolução se dá quando algo absurdo se torna normal. De repente, a Terra deixa de ser plana para ser redonda. Por feitio, prefiro a mudança e o desassossego.

Jogas entre o silêncio e o grito, entre o branco e o preto, entre a fábula e a narrativa poética. A virtude da tua escrita resulta da junção destas características, entre contrastes e elementos que se completam?

Não sei se é uma virtude, mas gosto de contradições, de ângulos, de opiniões marginais, de perspectivas. Procuro isso à minha volta e acho que depois transparece na escrita.

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Num registo diferente, a “Enciclopédia da Estória Universal” aborda diversas temáticas e agrupa vários tipos de escrita. A ficção mistura-se com os pensamentos filosóficos e o ensaio, o mito alia-se a curiosidades diversas e os provérbios interagem com o discurso social. Estamos perante o livro completo?

A Enciclopédia pode incluir, de facto, inúmeros registos, mas acho que é apenas isso. É um lugar onde posso andar de um oposto para outro, onde posso confrontar as minhas próprias opiniões ou convicções, onde posso duvidar, mas também arriscar responder, timidamente, a uma ou outra coisa que me perturba. A noção de livro completo é quase religiosa e coloca-nos em frente do absoluto, do Todo, como se um livro pudesse conter tudo. E ainda nos deixa outro problema: se houvesse um livro completo, não o poderíamos saber, pois para ter essa certeza seria preciso saber tudo, para poder confirmar que não lhe falta nada. Felizmente, à excepção do professor Marcelo, ninguém sabe tanto assim.

As metáforas e a forma divertida como escreves sobre alguns temas levam o leitor para um labirinto muito sagaz. Será este conjunto de livros obra da tua personalidade de mensageiro, enquanto equra?

Mensageiros, como os equra – que foram baseados nos Hekura de outro povo, os Inomami -, têm normalmente tendência para o embuste: reconhecemos essas características em Mercúrio, Legbá, Toth, Hermes, etc. Eram todos mensageiros, e todos um pouco burlões. Deuses de labirintos e de encruzilhadas, lugares onde se lhes prestava – ou presta, em alguns casos – culto. Gosto muito da ideia de labirinto, pois acho que é uma excelente analogia da nossa própria vida, que também é uma encruzilhada de opções, de caminhos, de enganos, de tentativas, de encontros.

Neste volume enciclopédico acedemos ao universo dos “Arquivos de Dresner”. Como é feita a escolha das entradas que constituem cada tomo? Como dirige o processo da investigação em si?

Por vezes, de uma forma natural. Alguns temas simplesmente vão crescendo e vão compondo o caroço de um volume, vão criando tentáculos para outros verbetes. Neste livro, os Abokowo tiveram algum protagonismo e, por consequência, deram alguma visibilidade ao poeta Stamboliski, que viveu vários meses com estes índios. Os Abokowo são uma tribo que reúne uma série de características que me agradam filosoficamente, por isso, a descrição de alguns dos seus costumes, desde alguns mais gerais a outros mais particulares, acabaram por dominar este volume da Enciclopédia. Os arquivos de Dresner, contudo, não se esgotam neste volume.

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Disseste numa entrevista que “o livro e as histórias são reencarnações em vida”. O teu principal objectivo enquanto autor, escritor, poeta, é passar o teu testemunho, a tua experiência para outrem, para quem recebe a tua mensagem?

Acredito que nos transformamos naquilo que fazemos. Acho que, a partir das nossas acções, conseguimos renascer de algum modo dentro de todas as pessoas que conseguimos tocar, seja através de gestos, palavras ou omissões. Todos nós nos transformamos, nos esgotamos, e morremos por aquilo que mais amamos, que podem ser coisas, lugares, animais, pessoas, ideias… Ao passar a alguém aquilo que é mais importante para nós, estamos a entregar-lhes aquilo que consideramos essencial, aquilo que podemos chamar de alma.

Quantos volumes foram pensados para esta enciclopédia?

Já pensei em números, mas acho que escreverei até que um destes dois se farte: ou eu ou os leitores.

Que podemos esperar dos próximos projectos? Vamos ter mais palavra, imagem ou som?

Há, pelo menos, um romance e um livro ilustrado que serão publicados este ano. Os The Soaked Lamb também terão uma pequena surpresa.



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