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“Aqui” de Richard McGuire

Para onde foi o tempo?

A pergunta surge logo nas primeiras páginas de uma cena que se divide entre 3450 a.C., 1983, 1933 e 2016, fragmentos que se fundem e divergem num verdadeiro e brilhante exercício que confronta espaço e, claro, tempo, que é Aqui de Richard Mcguire (Cavalo de Ferro, 2024), um livro que é mais do que uma novela gráfica, é um desafio à criatividade que “brinca” com essas entidades espaciotemporais que transformam o mundo em algo mais (ou menos) dinâmico ou caótico.

Tudo se passa no interior de uma casa, mais particularmente num dos cantos da sala, por vezes com janela, sofá e lareira, outras não, palco que se transforma em narrativa que percorre milénios e os acontecimentos que por aí supostamente sucederam ou vão acontecer.

A “lógica” cronológica não é para aqui chamada, mas sim a aleatoriedade do presente cada vez que se vira a página, seja isso sinónimo de um grupo de amigos ou familiares que contam anedotas, da perda da memória ou de um brinco, da realização de puzzles virtuais, de uma simples paisagem, da discussão familiar, da leitura de um livro, da doença ou nascença, de um jogo de mímica ou de lengalenga infantil ou de algo que se passou (ou passará) depois da construção (ou destruição) da casa.

O limite é mesmo a imaginação e arte de se deixar levar por um livro diferente, que se entranha depois de alguma estranheza, mas que não deixa ninguém indiferente. Esse conjunto de peculiaridades, entendam-se como qualidades, despertou mesmo o interesse do realizador Roberto Zemeckis em transportar/transformar as páginas de Aqui numa obra cinematográfica, a estrear brevemente, com Tom Hanks (a escolha no ator que deu vida a Forrest Gump, também ele um mestre na dialética do tempo, não parece coincidência) enquanto um dos protagonistas.

A própria capa do livro é uma discreta janela, entre a penumbra e alguma luz e escuridão ocultadas por uma cortina que se abre (ou fecha). O desafio é olhar para dentro dessa janela, onde a vida acontece e as respostas surgem, neste que é um dos livros do ano, independentemente da data.



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