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B Fachada @ Teatro Maria Matos

Quem quer gostar do B Fachada?

Deixemo-nos de tretas, B Fachada é o mais importante novo músico nacional dos últimos dez anos. Sem merdas: é capaz de dividir um mundo em dois, de um lado os detractores que odeiam mais o Bernardo Fachada do que a música do artista, B Fachada, do outro os apreciadores, público informado que ouviu mais do que o ep de estreia do mais importante novo músico nacional dos últimos dez anos. Nós, já devem ter reparado, encontramo-nos no grupo dos apreciadores. Até porque se colocássemos de parte um artista apenas porque é mal criado, feio ou porque tem os dentes podres e as unhas pintadas, nunca ligaríamos peva a Lou Reed ou a Tom Waits.

Primeiro foi “Viola Braguesa”, ep que só não passou ao lado dos mais atentos. Seguiu-se “Um fim-de-semana no Pónei Dourado”, o disco que divide. Por um lado os que dizem que «Zé» é “a única canção gira” (vamos lá, a sério?), do outro os que assumem que «Beijinhos» e «O Ciúme e a Vergonha» é que são as verdadeiras pérolas. Depois veio O Disco, que é nome, mas também é isso mesmo, “O disco” de B Fachada, a obra-prima. Este álbum, o segundo de B Fachada, não foi ouvido pelos detractores, os tais que acham que o «Zé» é que é. Com «Há Festa na Moradia», Fachada regressou a um estética mais lo-fi – e aqui admite-se que afaste alguns. Com “É p’ra meninos”, disco simpático de canções infantis, B Fachada converte mais uns quantos à sua causa. Parece ser o disco que divide aquilo que já está dividido. Divide os detractores – de um lado os detractores que continuam a ser detractores, do outros os detractores que passam a ser apreciadores. Uma valente confusão. Chegamos assim ao Teatro Maria Matos, dia 3 de Abril.

Bernardo está cansado depois da sessão das quatro da tarde – as crianças, claro. A sessão da noite, para graúdos, é portanto a feijões. O concerto começa com canções dos discos anteriores como «Só te Falta Seres Mulher» (grande, grande canção), mas rapidamente se centra em “É p’ra Meninos”. «Barrigão», com Lula Pena, é a primeira e, acreditem, não é só p’ra meninos, é p’ra toda a gente menos para aqueles que têm o coração sensível. Assombrosa. Também ouvimos as óptimas «Tó Zé», «Dia de Natal» e «Conselhos de Avô», mas é com «Estar à espera ou procurar», do disco homónimo, que o público volta a reagir de forma mais efusiva, mostrando que o novo álbum ainda não está bem assimilado. Ninguém se queixa, mas o músico faz questão de alertar: “Eu sei que podemos parecer amadores, mas não é isso. É apenas sem truques e sem magia”. A máquina ainda não funciona em pleno e o artista assume-o sem pudores – não é a isto que chamamos de modéstia?

Tal como B Fachada este texto e o seu escriba são capazes de dividir, ser aplaudidos e atacados. Sem problema – se conseguirmos que, pelo menos, um detractor se ponha a ouvir “O disco” com alguma dedicação, esmiúce a coisa e depois, aí sim, decida se isto é bom ou mau, o texto já valeu a pena. Dos detractores que conhecemos, só ouvimos argumentos como “B Fachada é um pseudo-intelectual com a mania”, ou que “é uma Fachada” – esta última é claramente uma piada fácil com que Bernardo já deveria estar a contar quando iniciou o projecto. Os argumentos não apontam para a música, apontam para a pessoa, a pessoa que incomoda e incomoda porque destoa. Afinal de contas, é tão cool gostar de Fachada como não é não gostar.

Publicado em http://unidadedecuidadosintensivos.blogspot.com/



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