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Lisbon Unplugged 2010

Às moscas...

A primeira edição do Festival Lisbon Unplugged mostrou uma organização à deriva: inexperiente e pouco profissional. Não basta ter vontade para organizar um festival de Verão. Há que oferecer as condições mínimas – não nos referimos apenas a questões burocráticas. O primeiro parágrafo desta reportagem é a descrição daquele que foi, com toda a certeza, um dos maiores fracassos de sempre, no que a festivais nacionais diz respeito.

Ponto número um: a localização. Andámos mais de uma hora numa incessante procura pelo local do evento. Chegou-nos aos ouvidos que se ia realizar no Instituto Superior de Agronomia, mas quando lá chegámos, disseram-nos que era necessário contornar o muro que o circunda. Tentámos a pé até encontrarmos duas jovens que nos disseram que afinal não bastava contornar o muro, era necessário ainda andar cerca de um quilómetro até à entrada do recinto, entrada mal sinalizada – o que nos fez parar foi o parque de estacionamento que, ainda que longe de cheio, estava com mais veículos do que o habitual.

Finalmente chegados ao recinto reparamos que as bilheteiras estão vazias e quase não existe sinal de gente. Perguntamos se existem horários para os concertos. Respondem-nos que não, mas que “essa informação será disposta nos ecrãs” – até ao fim do evento não encontrámos os ditos ecrãs. Desconfiados entramos no recinto, um recinto despido de patrocínios – isto não é necessariamente mau -, onde não há zonas VIP e a zona de restauração é composta por duas roulotes de farturas e uma de pão com chouriço. Havia uma outra que vendia algodão doce e outros açucares – sim, mais parecia uma feira. À entrada não fomos revistados, prática comum em todo o festival – até cães vimos no recinto, tal era o rigor do controlo tanto da polícia como dos seguranças. E o público? Cerca de 20 pessoas à hora da primeira actuação. Ao fim da noite, estariam cerca de 50 pessoas no recinto, o que até faz sentido num festival que se diz sem preconceitos – normalmente associamos os festivais a banhos de multidão.

Outros inexplicáveis casos de desleixo: meia dúzia de WC e os cinco ou seis apagões nas roulotes de alimentação. E de que serve à imprensa ter um cartão de “press”, quando não há qualquer tipo de utilidade para o mesmo? É justo dizer que o grande número de festivais fez a sua primeira vítima? Tendo em conta a falta de promoção do evento e a qualidade do trabalho desempenhado pela organização, somos levados a dizer que não. Causa estranheza é o facto de o evento não ter sido cancelado. Vamos à música que, diga-se, também esteve longe de deslumbrar.

Os primeiros a subir ao palco foram os Berlam e Banda Larga, um trio que tem no seu extravagante vocalista o foco principal do espectáculo. Glam rock que vem do Brasil e que é mais pose do que outra coisa. O líder, o vocalista Berlam, mostra-se um indivíduo venenoso, irónico, bem-humorado e subtil. Posa para os fotógrafos e fala com cada um de nós, membros do público. Logo depois surge Lula Pena com a sua guitarra acústica. Entre o fado, a bossa-nova e a chanson francesa, Pena deu um concerto intimista a pedir um outro tipo de ambiente. “Devia estar ai ao pé de vocês, sem estas máquinas todas, à volta de uma fogueira”, disse a certa altura. Não podíamos estar mais de acordo.

Ligeiramente atrasado, Torino, também conhecido no Brasil por Lord Gaga, subiu ao palco num espectáculo teatral que incluiu muita electro-pop azeiteira. Quatro bailarinos – dois homens e duas mulheres – ajudam Torino a apresentar o pior da década de 80. Acreditem, Mika ao lado deste senhor é um Deus. “Desculpem o atraso e a desorganização”, disse na despedida – a modéstia é mesmo a melhor qualidade que lhe podemos destacar.

A seguir estávamos à espera de Rita Redshoes, mas é Jay Jay Joahnson que surge em palco, acompanhado de um teclista e de um portátil. A música de Johanson cria raízes no trip-hop e tem o condão de nos fazer sonhar. Embala-nos com o efeito narcótico (elogio) que a sua voz, aliada às imagens que passam em fundo, no ecrã, conseguem criar. O sueco que nunca passou do culto, passeou falsetes e apresentou uma canção escrita na última vez que passou por Portugal, há meio ano. A fechar o primeiro dia do evento, Rita Redshoes. O espectáculo é o mesmo que vimos no Super Bock Super Rock, com os mesmos dois “R” bem iluminados a fazerem parte do cenário. Sabemos que o melhor que já ouvimos de Redshoes foi a versão de «Lonesometown», incluída em “Femina”, o excelente último disco de The Legendary Tigerman. Em todo o resto, Rita Redshoes é chata. Blues, rock e country sem nada que nos prenda a atenção. É uma pop açucarada e bem arranjadinha, mas que acaba por cair na esparrela de ser um grande nada de especial. O segundo disco é ligeiramente mais interessante que o primeiro, mas nem assim a música da ex-Atomic Bees consegue deixar de soar aborrecida.

Dia 2

Ao segundo dia o número de festivaleiros duplicou. Foram cerca de 100, as pessoas que estiveram no segundo dia do Lisbon Unplugged.

Quando chegámos ao recinto já estavam três raparigas que dão pelo nome de Betty em palco, a fazer a festa. As Betty pegam em clássicos de sempre (ouvimos os Beatles e os Queen) e brincam com eles num misto de soul, gospel e rock. Ganharam o prémio simpatia e não mais que isso. Seguiu-se “o último concerto em muito tempo” das Au Revoir Simone. Um concerto descontraído e não muito diferente do que foi dado na Aula Magna há quase um ano atrás – aliás, este concerto não foi nem melhor nem pior do que o da Aula Magna, só que na sala lisboeta tivemos uma primeira parte de João Coração, o que faz toda a diferença. Voltamos a sentir um efeito narcótico, mas se, em Jay Jay Johanson era um elogio, com as Au Revoir Simone a expressão deve ser levada num sentido mais literal. Pouco dinâmico, muito estático, o concerto das Au Revoir Simone revelou-se uma seca.

Nikolaj Grandjean é um tipo magro e de aspecto frágil. Faz-se acompanhar de dois outros tipos com algum carisma e canta canções “sobre o amor e a liberdade”. Não sendo um músico particularmente dotado, rapidamente o espectáculo se torna penoso. Os tais dois tipos que o acompanham tentam dar um ar épico à coisa. Rejubilamos quando Nikolaj diz que “tem indicação para abandonar o palco”. “Não dá para tocar mais uma?”, pergunta. Sim, deu – tocaram mais uma canção que nada acrescentou ao que tínhamos visto. Ah! E a gritaria no final da canção era escusada. Não deixa saudades.

David Fonseca, o homem que até os bombeiros – sem muito trabalho, diga-se – quiseram ver, deu o concerto da noite. O espectáculo foi o mesmo que há meses apresentou no Coliseu – painéis electrónicos e cabine telefónica incluídos. A verdade é que num Coliseu muito bem composto ou num festival às moscas a atitude do músico de Leiria é a mesma. A música não é particularmente inspirada – só entusiasma em «The 80’s», a melhor que canção que alguma vez escreveu. David simulou «Borrow» – à imagem do que também tinha acontecido no Coliseu -, solou em «Stop 4 a Minute» como quem, assumidamente, não sabe “solar” e atirou-se (mais uma vez) a «Girls Just Wanna Have Fun», original de Cindy Lauper. Por momento até pareceu que estávamos num festival a sério. No final, soaram as sirenes e lá veio o DJ, o próprio David, claro, que já tínhamos visto no Coliseu para nos presentear com doses demasiado elevadas de azeite.

A fechar o evento estiveram os The Veils, banda de um carismático vocalista, uma espécie de Michael Stipe, eterna voz dos R.E.M. Não há grandes truques nem novidades na música dos Veils. O quarteto ocupa uma pequena parte do palco e atira-se a um rock alternativo que nunca se deixou sair do mero culto. Finn Andrews, o vocalista, ora se cola a Robert Plant, ora mostra manias de Anthony Caleb Followill, vocalista dos Kings of Leon. Noutras alturas ainda, quer ser Jeff Buckley. Há guitarras a dar para o épico – bem mais interessantes que os Editors que também se divertem a explorar estes ambientes épicos que as guitarras conseguem criar. Na atitude fazem-nos lembrar os Sonic Youth – baixista cheia de carisma incluída. Alguns problemas de som e o desinteresse do público – uma boa fatia deixou o recinto depois do concerto de David Fonseca, perdendo assim o concerto da melhor banda do festival – impediram de tornar o concerto em algo especial. Dia 11 de Setembro de 2010, o dia em que os Veils deram um concerto (quase) só para nós.

É provável que o Festival não se volte a realizar, mas a realizar-se exigem-se melhorias urgentes em quase tudo.



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