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Bolachas

No início era o tópico de um fórum onde se encontrava links para o download de álbuns. Chamava-se Bolachas Grátis. Hoje há um blog, chama-se apenas Bolachas e, embora estas estejam cada vez mais apetitosas, continuam a ser de borla.

pirata

Fig. Pessoa que enriquece à custa de outrem por exacções violentas.

exacção

s.f. Extremo rigor em exigir o pagamento de contribuições, dívidas, etc.

As redes de partilha de ficheiros trouxeram uma visão quixotesca a qualquer melómano: ouvir todas as músicas do mundo com uma qualidade aceitável, tendo acesso a elas quando bem entender. A triagem perfeita: os melhores álbuns compram-se, os menos bons mantém-se em formato digital, conhece-se todo o material das bandas preferidas e sobra dinheiro para a verdadeira vertigem – os concertos. Questões legais (ou morais) à parte, tem havido um fenómeno de proliferação de blogs que fazem um papel comunitário de divulgação cultural.

O Bolachas.org é um destes casos. À promoção dos álbuns, normalmente com respectiva review e informação adicional (links para myspace, editora, compra online) junta-se la piece de resistance: um link externo para a obra completa. Fundado por internautas portugueses, conta agora com cerca de 15 colaboradores (alguns dos quais estrangeiros) e tem cerca de 20.000 visitas diárias de melómanos espalhados um pouco por todo o mundo. Conversamos com um dos fundadores, de nickname Celtic, que nos contou como tudo aconteceu.

“Começou por ser um tópico (chamado Bolachas Grátis) num fórum de música onde se iam acumulando links para download de álbuns, sem qualquer critério. Ao verem que o tópico já tinha atingido um tamanho considerável, e já que diversos agentes da indústria visitavam o fórum regularmente, a equipa de moderação pensou que aquele amontoado de links poderia trazer dissabores ao administrador. Alguns dos que mais links postavam no tópico resolveram criar, então, um blog para poderem postar à vontade”. O Bolachas cresceu e depois de ter três casas diferentes teve recentemente direito a domínio e alojamento próprio. Tal como a maioria dos seus semelhantes, o Bolachas não tem lucros. Segundo Celtic, “só dá despesa”.

O objectivo primordial do blog é “fazer chegar às pessoas material que normalmente não ouviriam. A maioria dos actuais fãs de música não tem um gosto individual. Gostam daquilo que lhes é enfiado pela garganta abaixo. Vivemos num mundo em que mais uma detenção do Pete Doherty relacionada com drogas ou algo que a Lady Gaga disparate da boca para fora é mais blogável e mais notícia do que a morte dum enorme senhor da canção norte-americana como era o Vic Chesnutt – mesmo em meios ditos alternativos”.
O critério de selecção do material divulgado varia consoante as motivações de cada colaborador, sendo a amplitude de géneros assegurada, mas haverá a possibilidade da selecção ficar refém de um certo gosto? “Pessoalmente odeio impor aquilo que ouço a alguém. Para isso já existem publicações como a NME e a Pitchfork e é demasiado fácil encontrar pessoas cujo gosto é completamente influenciado por essas zines/revistas. E longe de nós tentar ter esse efeito nas pessoas”.

Enquanto as majors insistem que um download ilegal é menos um álbum vendido, os estados-membros da UE parecem empenhados na criação de uma lei que permita o corte de internet a quem fizer downloads ilegais. Na opinião de Celtic, “por mais medidas que os senhores do capital tentem implementar, nunca conseguirão acabar com a partilha de ficheiros. Os cortes da ligação à internet parecem-me apenas mais uma táctica para encher os utilizadores de medo. E aquilo que a nossa Justiça e, suponho, as dos outros países menos precisa é de milhares e, porque não, milhões de novos casos relacionados com um assunto que apenas resulta da má adaptação da indústria à era da informação”.

O Bolachas.org não aloja nenhum ficheiro ilegal na sua página. Os links para download são externos e são retirados “sempre que a editora, banda ou agente o pedem para fazer”. Mas há quem não goste e faça questão de o mostrar: “Uma ou outra pessoa duma editora ou banda já nos ameaçou com tribunais e afins, mas a maior parte usa formulários que arranjam algures cheios de texto. O que é uma manifesta perda de tempo da parte deles, já que basta enviarem um mail a pedir para retirar que acedemos ao pedido na hora. A grande maioria dos artistas não se importa e alguns até agradecem a promoção que lhes fazemos, as editoras é que não gostam dos posts feitos antes da data de lançamento”.

Esta visão, antagónica à da maioria dos agentes da indústria fonográfica, alimenta as pretensões de crescimento da equipa do Bolachas. A promoção de concertos e a edição de artistas “são duas das principais metas a médio prazo. Nesta altura é complicado por manifesta falta de tempo e recursos. A edição de artistas, então, vai ter que esperar bastante. Mas, entretanto, concentramo-nos a postar discos que nos enviem, muitos deles edições de autor – é o máximo que podemos fazer por enquanto”.



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