Cavalo Pálido – Katherine Anne Porter

“Cavalo Pálido, Pálido Cavaleiro”

A melancolia que fica

De menina do campo a boémia de Greenwich Village, Katherine Anne Porter (1890-1980) tornou-se uma figura consagrada da literatura norte-americana, “considerada exímia no género do conto, na tradição de Anton Tchekhov e Virgina Woolf”. Não se restringindo a solo americano, conheceu a Europa e privou com Diego de Rivera no México, movido então pelo fervor revolucionário. Fosse em viagem ou no fervilhar da vida urbana, foi graças ao êxodo de um Texas essencialmente patriarcal e violento (onde cresceu e voltava na escrita) que garantiu a emancipação enquanto mulher.

Num belo posfácio aos três contos que perfazem Cavalo Pálido, Pálido Cavaleiro (Antígona), Diana V. Almeida aponta que, embora “nunca se tenha declarado feminista, um cuidado que a maioria das mulheres da sua geração teve, Porter confere centralidade a personagens e a pontos de vista femininos”. As mulheres escritas pela autora estão cientes do nexo dos direitos igualitários num mundo de dominância masculina, quer aceitem fazer parte dele sem muita discussão, quer afirmem a emancipação através dos seus actos. A diferença entre a vida rural de Velha Mortalidade e a citadina de Cavaleiro Pálido, Pálido Cavaleiro é notória, pese ambas coexistirem com mudanças sociais significativas de virar e início de século (XX), como o recém-direito feminino ao voto ou o enveredar por profissões mais excitantes que a de dona de casa subserviente.

Vejamos, em Cavalo Pálido, o alter-ego de Porter, Miranda, é uma jornalista de vida independente com o companheiro em vésperas de partir para guerra. Em contraste, para as jovens sulistas de Velha Mortalidade, o casamento e a vida doméstica ocupam um espaço central no seu quotidiano, avivado sobretudo por corridas de cavalos e festas ébrias. Já O Vinho do Meio-Dia, interlúdio entre os contos mais biográficos, é o momento alto da obra. Também no meio rural, trata-se de um microcosmos povoado por personagens de moral ambígua, protegendo os seus interesses no limiar oposto do bem e do mal. No que toca a personagens, uma especial menção a Mr. Hatch d’O Vinho do Meio-Dia, “mau da fita” provocador, meticulosamente elaborado e memorável.

A tradução de Paulo Faria oferece segurança à semelhança do seu trabalho em Meridiano de Sangue. De forma bem sucedida, lê-se uma voz em língua portuguesa que evoca em pleno a intenção original da autora. Há espaço para trasladar a oralidade, apropriada à nossa maneira, tornando-a convincente. Enfim, um tradutor exemplar, imensamente capaz, que nos tem habituado a um novo patamar de qualidade nas traduções do inglês. Quanto ao âmago dos textos, Katherine Anne Porter possui um estilo cru, com rasgos ocasionais quase poéticos. Poderá não ceder a virtuosismos, mas há detalhe e simbolismo que chegue na sua escrita para aliciar o leitor. Ser afectado pela densidade soturna de Porter, ao longo dos três contos, é o maior risco de ler Cavaleiro Pálido, Pálido Cavaleiro. Um espectro triste que paira, mesmo após baixar o livro.

 

 



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