rdb_ciganolisboa_header

Cigano de Lisboa

No mês de Agosto, o Teatro Rápido (TR) proporcionou aos seus espectadores momentos plenos de sol. No labirinto da sala 1 era possível encontrar a estória do Cigano de Lisboa. A Rua de Baixo quis saber mais sobre este projecto e encontrou-se com Alexandre e Diogo.

«O Armando Nascimento Rosa já tinha o texto, partilhou comigo e pensamos imediatamente no Diogo Tavares para ser o Cigano, até pelo tom da pele dele», confessou o Alexandre Tavares, mais conhecido por Xano.  A partir daí, Xano criou a ideia do labirinto que constituiu parte da cenografia, por ser um símbolo do «percurso da memória e da mente, dos caminhos para escolhermos o que queremos», acrescentou Xano. Na sala 1 do TR os espectadores eram convidados a entrar nesse labirinto, como se entrassem dentro da memória do Cigano.

Apesar de ter sido a escolha imediata de Armando e Xano, Diogo Tavares só soube que iria participar quando o projecto foi aprovado pelo TR, para o mês de Agosto. «Foi uma agradável surpresa; já tinha trabalho com o Xano e sabia que havia “química” entre nós.», disse-nos Diogo, que já conhecia o conceito do microteatro, defende: «Ali tens oportunidade de mostrar trabalho; podes pegar numa ideia e propor.» Para Xano, um dos grandes desafios passa por “receber” uma sala em branco, para dar forma (e conteúdo).

O trabalho entre ambos começou pela tarefa de decorar o texto, por parte do Diogo. Xano gosta de dar tempo aos actores neste processo, para que o texto possa “ir largando” o papel. Tendo em conta a sua formação na área da dança, poderia haver a tentação de incentivar Diogo a uma prestação mais física, mas não foi isso que aconteceu «A fisicalidade ia fazer com que se perdesse muito do texto», disse-nos Xano, que optou por movimentos que faziam lembrar um “leque a abrir”: à medida que entravamos no labirinto da memória do Cigano, ele ia abrindo o seu coração e o seu pensar aos espectadores, até que nos permitia o contacto com os seus olhos.  Para Diogo, este trabalho constituiu-se como um desafio pela luta constante em não se emocionar «tenho tendência para o trabalho emocional; achei o texto muito forte, forte demais, para lhe imprimir carga emocional. E decidi não me emocionar. Mas houve sessões em que não o consegui evitar.» Esta fuga à emoção teve em conta o facto do Cigano já ter chorado tudo e da dor já ter sido trabalhada.

Neste trabalho há vários pontos de contacto com a realidade: o autor do texto, Armando, inspirou-se numa casa que existe, um último andar de um apartamento na Praça da Figueira; a vida do Cigano e a morte do seu avô também nos traz à memória algumas notícias sobre idosos que são mantidos mortos, em casa, pelos seus familiares, de forma a que não deixem de receber as suas reformas.

E como foi a experiência de representar num espaço como o TR, com um número de pessoas no público tão variável? «Eu tinha de pensar que a sala estava sempre cheia. Sentia um vazio enorme nos contrastes de 15 pessoas numa sessão e duas noutra,  sentia uma grande ansiedade entre sessões. », admite Diogo.

Numa peça em que o actor nunca cruzava o olhar com o público – até ao momento em que tirava o gorro – o contacto com os espectadores fazia-se com a voz, com a palavra. Apenas lhe víamos as mãos e os pés, «o que agarra e o que nos leva», esclarece Xano.

Durante a peça, o público via-se envolvido numa flash mob de homenagem ao avô falecido. Todos os presentes colaboravam naquele “ritual”.  «Ali não há palco, não há a “quarta parede”. Ali estamos nós, num espaço intimista e pequeno… foi uma experiência muito rica para mim», admite Diogo. Para Xano, o saldo é extremamente positivo, destacando o desafio da encenação. Depois de terem trabalhado juntos no projecto A Nossa Casa, Diogo e Xano criaram um Cigano de Lisboa que os aproximou ainda mais enquanto artistas.

O Cigano de Lisboa estará em cena na Miau Associação Cultural, em Lisboa, nos próximos dias 20 e 30 de Novembro, com três sessões diárias. A equipa está disponível para levar o Cigano para fora de Lisboa e, para tal, basta só estender-lhes o convite.

 

Fotografia de Mário Pires



Também poderás gostar


Pin It on Pinterest

Share This