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Cinerama

O cinema não é um Museu, ou uma chata contemplação anti-narrativa de Inês Oliveira.

A sinopse deste filme fala-nos em três estórias sendo que a primeira se fragmenta pelas outras três mas que a terceira começa do zero. Adianta também que Cinerama é um conjunto de várias artes e artifícios, dança, música, pintura…e parkour. Apesar disso, o filme não é mais que um conjunto chato de deambulações sem sentido, protagonizadas por excelentes actores que não são mais que peças inanimadas num argumento inexistente e, diria eu, propositadamente incoerente.

Em termos plásticos e sonoros, Cinerama é mais que perfeito, arrojados planos-sequência e fotografia decente, som bem equalizado, boa fotografia. Mas um filme não é um museu. Um filme não é apenas “um conjunto de cenas ao calhas envolvidas de vazio: o espectador que dê o seu significado”, o cinema é narrativa.

Cinerama é, portanto, um teste à paciência do espectador, pois nada do que aparece no écran tem relação com absolutamente nada. Existe uma alegoria à vida de escritório, que até poderia ter sido mais interessante se fosse enquadrada numa narrativa, e até começa com uma estória promissora ao género thriller à Portuguesa, mas depois tudo se transforma, aparentemente do nada, e qualquer esperança de estória desaparece.

Um realizador serve o propósito da estória e das personagens, manipulando e dirigindo todas as cenas que compõem uma narrativa. Um realizador não é um ditador que come estórias ao pequeno-almoço; até pode ser, mas um realizador realiza um filme que, para além de actores, tem narrativa e coerência, mesmo que a coerência seja propositadamente incoerente a pedido da estória e do ritmo desejado da acção; isto é cinema.

Cinerama não é cinema. Por mais que todos os elementos plásticos e técnicos sejam perfeitos, como deveria ser sempre norma no nosso cinema, esta hora e meia de complicação não é mais que uma sequência chata que, infelizmente, vem provar que em Portugal há falta de argumentistas capazes de conduzir uma estória, onde a ditadura do realizador como artista plástico é a norma que resulta em exercícios que são apenas isso: exercícios. Mesmo com todo o mérito que merecem, estas chatas contemplações formam um ciclo vicioso de cinema medíocre onde há belíssimas excepções à regra; mas elas são só isso: excepções. Numa não-indústria como a nossa que preza muito a liberdade e a individualidade, as excepções são os Filmes, e a norma são os Exercícios. Algo está errado? Ao menos que isto sirva para potenciar a criação, é preciso fazer coisas, ficar em casa a assinar petições não é agir.



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