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O Bom Soldado

A lagarta da Guerra.

Ao mesmo tempo, em Portugal, estreiam em sala dois filmes de Kôji Wakamatsu – este “O Bom Soldado” e “Exército Vermelho Unido”, de 2010 e 2007, respectivamente – e são editados outros cinco – dos anos 60 e princípio dos anos 70 – em DVD, num pack denominado “5 Filmes do Mestre do Cinema Erótico Subversivo”. Wakamatsu, nascido em 1936, não é um novato, assinou o seu nome em cerca de cem filmes, boa parte dos quais, ao que parece, pertencente a essa mescla de erotismo e subversão política, que amedrontava, mais do que fascinava, os onanistas. (Estou a socorrer-me do que Luís Miguel Oliveira escreveu no Ípsilon a propósito do realizador – ver links relacionados)

Pelo que se vê em “O Bom Soldado”, Wakamatsu não largou por completo esse erotismo desconfortável e essa subversão política, se bem que as imagino domadas (ou talvez não): o filme pode ler-se como um libelo pacifista, contra todas as guerras, contra as máquinas de propaganda que as suportam. No entanto, não vai pelo caminho das flores e dos passeios pelo bosque, se transmite uma “mensagem”, ela vem com boa dose de verrina contra a humanidade.

Uma breve sinopse (uma estupenda premissa): o tenente Kurokawa regressa a casa da Segunda Guerra Sino-Japonesa, que é como quem diz a Segunda Guerra Mundial. A princípio, pelas caras dos familiares, julga-se que esse regresso é feito de cinzas, que o tenente pereceu na guerra. A mulher bem corre desenfreando para fora de casa, gritando: “Aquele não é o  meu marido!” Só depois o vemos: quase só tronco, sem pernas nem braços. Um pedaço de carne ali deixado. A tal lagarta de que fala o título original. Nem falar pode, expressando-se por grunhidos e dentadas. O resto da família logo se escapa, para nunca mais ser vista, e só resta Shigeko (Shinobu Terajima, premiada em Berlim), a mulher, para tomar conta do “Deus da Guerra”, desse condecoradíssimo soldado, que faz páginas de jornal – para gáudio dos habitantes da aldeia onde vivem – e pouco mais, para além de dormir e comer.

Pouco mais, não é bem assim, o tenente Kurokawa não perdeu a libido e lá se faz entender que a vida conjugal não acabou com o seu estropiamento. A mulher aceita, primeiro condoída da condição do marido, depois com um nojo que não pára de crescer. As histórias do “Deus da Guerra” soam-lhe cada vez mais como balelas e talvez se lembre bem de mais como era o marido antes de partir para a guerra, batia-lhe amiúde, e, ainda agora, é uma criatura de profundo egoísmo. Inicia-se, então, ou reinicia-se, o jogo do abusador e do abusado (e aqui reside o cerne do filme), com os papéis trocados. Numa posição de poder, Shigeko vai torturando o marido, ora levando-o para o campo para o mostrar ao povo (coisa que dá para perceber que ele detesta), ora recriminando-o pelo mais pequeno revés, ora batendo-lhe também, ora entregando o seu corpo a ele como forma de recompensa fortuita, ou como outra forma de abuso. (Seria dizer de mais que a condição do tenente é resultado de um outro abuso?)

“O Bom Soldado” não é tanto uma demonstração dos horrores da guerra como uma demonstração dos horrores da humanidade. Para o fim, espera-se o rebentar das bombas atómicas em Hiroshima e Nagasaki. E elas rebentam inevitavelmente.



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