Dom La Nena @ CCB (4-11-2015)

Dom La Nena @ CCB (4-11-2015)

No quarto dos brinquedos

Era uma vez Dom La Nena no Pequeno Auditório do Centro Cultural de Belém… Soa a fábula mas foi exactamente assim que arrancou a performance da artista brasileira na passada semana, em mais um concerto ao abrigo do Misty Fest.

Apenas com um kalimba a acompanhá-la, Dom La Nena entrou em palco a cantar, no meio da penumbra que ainda cobria o palco do Pequeno Auditório. E esta primeira imagem é um válido cartão de visita ao universo musical da cantautora: uma voz pueril, quase sempre solta e em tons coloridos, mas envolta não poucas vezes em sonoridades cheias de sombras e de tonalidades mais carregadas. Estávamos portanto curiosos por saber para que lado tenderia o concerto de Dom La Nena, o primeiro em nome próprio na capital portuguesa, apesar de já ter aberto concertos de Rodrigo Leão ou colaborado com as Danças Ocultas. E o resultado foi um equilíbrio fascinante entre ambas as facetas da artista.

E cedo se percebeu o quão fascinada estava por esta oportunidade, até porque o seu disco mais recente, “Soyo”, foi concebido em Lisboa, com produção de Marcelo Camelo. E as suas músicas denotam claramente o encanto que cada local lhe transmite, bastando atentar em títulos como «Buenos Aires» ou «Lisboa».

Além disso, demonstra igualmente respeito e interesse pelo idioma dos vários locais por onde a sua vida vai passando: temos o Português do seu País de origem, o Espanhol da Argentina (onde se diz jó em vez de yo) e o Francês de Paris, onde se encontra actualmente radicada.

Para lá da geografia da sua vida, Dom La Nena decidiu celebrar no palco do CCB outras vozes, que a foram marcando. Desde «Felicidade», do seu conterrâneo de Porto Alegre Lupicínio Rodrigues, passando por The National, e culminando já no encore durante o qual reproduziu os acordes de «Gracias A La Vida”, da chilena Violeta Parra.

Pela forma como parece deixar entranhar em si os sítios por onde passa, não admira que a sonoridade de Dom La Nena transpareça influências de todas estas latitudes, desde o Brasil de «Sambinha» e «Vivo Na Maré», o folk da América Latina presente em «Era Una Vez» e «Golondrina», o dramatismo português que passeia em «Lisboa», e a indie-pop francesa, em «Juste Une Chanson», com um refrão que a sua amiga Camille não desdenharia.

Apresentando-se sozinha em palco, rodeada dos seus variados instrumentos, a brasileira parece uma menina no seu quarto de brinquedos, que vão desde o seu melhor amigo violoncelo, às peles das percussões, a um ukelele decorado com lâmpadas, passando por uma guitarra emprestada por um amigo.

Esta “solidão” em palco é combatida com a ajuda dos sequenciadores, através dos quais tece várias camadas de acordes e ritmos, com lógica predominância para o violoncelo, que rege superiormente ainda que sempre de forma sóbria.

A empatia com o público é outro dos pontos que conta para Dominique Pinto, o nome por trás de Dom La Nena. Primeiro, em «Sambinha» desafiou a audiência para um concurso de dança e, logo de seguida, para uma cantoria em «La Nena Soy Yo», onde um vasto coro ecoou no refrão.

No final, saiu exactamente como entrou, a cantar, percorrendo o auditório como uma procissão de despedida, abandonando a sala pela saída principal, por onde um público de sorriso fácil deu por terminada a noite também.

Alinhamento
«Era Una Vez»
«Llegaré»
«Ela»
«Buenos Aires»
«Vivo Na Maré»
«Lisboa»
«Sambinha»
«La Nena Soy Yo»
«Juste Une Chanson»
«Felicidade»
«Golondrina»
«Start A War»
«Carnaval»
«Gracias A La Vida (Violeta Parra)»
«Você»

Fotografia por José Eduardo Real



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