Enprincipio #6 – Texto de Pedro Saavedra e ilustração de Sónia Rodrigues

Enprincipio #6

O vagabundo hipster

Conheço um. Desde miúdo que reparo nos vagabundos da cidade com a curiosidade romântica de quem nunca foi um. Imagino sempre a história trágica de quem está atrás da máscara de vagabundo. Não lhes faço a biografia mas imagino sempre o momento que os terá transformado de comuns transeuntes em habitantes do submundo das esmolas. Não me levem a mal, sou assim.

Ser vagabundo não é evidentemente fácil, nem romântico, sei. É apenas a consequência de uma soma de infortúnios que podem ou não ter acontecido desde muito cedo. Imaginar qual terá sido a razão, sem virar a cara ao pedido de um euro que me é feito, leva-me sempre a parar para responder, mesmo que negativamente. E isso não é a imaginação e faz toda a diferença. Pelo menos é no que quero acreditar.

Mas continuemos a falar deles e não de mim. Os mais conhecidos dos vagabundos acabam por ser aqueles que se mantêm no mesmo local muito tempo. Conheço-lhes os locais e de cor. A maior parte de nós passa por eles como passa por um monumento. Sabemos que lá estão, partimos do princípio que lá estarão sempre, mas não lhes damos muita atenção. Nisso, os vagabundos têm tendência à invisibilidade. E todos aceitamos isso.

Mas eu só quero falar de um. Esse conheço-o por ser um dos estranhos, o mais estranho entre os vagabundos que conheço. Trato-o pelo nome e nunca passo por ele sem tomar a iniciativa de o cumprimentar com uma ou duas perguntas. Não espero mais dele do que ele espera de mim, e isso basta-nos. Uma espécie de reconhecimento precoce entre dois comuns mortais que pouco mais sabem de si próprios do que um cumprimento transformado em rotina.

Não me coloco aqui num espírito franciscano de salvador de vagabundos, mas algo neste ser humano me inspira. Das poucas perguntas, poucas respostas, mas todas suficientes para que o cumprimento se mantenha ao longo do tempo. Partilho por isso agora o único dos meus erros desta relação afectiva.

Avesso à esmola pensei numa ajuda ao frio do Inverno que tanto o parece afectar naquele canto de corrente de ar e escolhi assim um casaco quente que há muito deixou de me agradar. Escolhido e ensacado como presente inocente deixei-o a um canto na esperança de o poder ofertar em momento oportuno, mais para mim em casa quente, do que para ele em átrio frio.

Foi aqui que a imaginação me salvou.

Imaginei tudo e em detalhe, não imaginando pelos meus olhos mas pelos olhos dos transeuntes que todos os dias se cruzam ali com aquele ser até àquele momento só invisível. Imaginei-o a receber e a agradecer a oferta e a sentar-se ao canto com o casaco vestido. Satisfeito eu ao afastar-me com missão cumprida, os olhos e as bocas da multidão começaram imediatamente a falar, cada uns nas suas línguas, mas todos traduzidos nas mesmas palavras.

É vagabundo e hipster.

Apesar de a minha imaginação duvidar que ambos os substantivos possam ser propositados por uma multidão de anónimos como parte de um plano de destaque no mundo dos vagabundos da cidade, este vagabundo deixou instantaneamente de ser um vagabundo aos olhos de quem passava e passou a ser um vagabundo hipster nas bocas de quem falava.

Vagabundo por infortúnio amoroso, em que o objecto do seu amor o fez fugir milhares de quilómetros à procura de salvação numa história de amor de contornos ficcionais, este vagabundo passou, por acto meu, a vagabundo hipster. Não por acção sua mas porque a sua última peça de roupa vestida, aquela que só lhe vale um suficiente calor no Inverno ou uma frágil protecção do sol do Verão, é um blazer tweed oferecido pelo mais inocente dos estranhos que o cumprimenta diariamente.

Felizmente, só estava a imaginar, e só aí alguém como eu poderia juntar as palavras vagabundo e hipster.

Felizmente, nada disto aconteceu, e todos os dias continuo a dizer Vassily e ele a responder Amigo.

Crónicas anteriores aqui.

Texto de Pedro Saavedra
Ilustração de Sónia Rodrigues



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