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Estocolmo

A rota do vinil.

A ideia de escrever um artigo com os moldes de um roteiro que dissesse apenas respeito a lojas de discos, e mais especificamente às que vendem vinis, não é recente na minha cabeça. Já por várias vezes tinha pensado em fazê-lo, tendo Lisboa como base. Porém, em todas as ocasiões acabei sempre por não levar a ideia avante; ora a culpa era da maldita da preguiça, ora da falta de tempo ou por simplesmente achar que a quantidade de lojas em Lisboa , com o perfil pretendido não ser o suficiente. Confesso que por vezes também tinha a sensação que qualquer que fosse o resultado este ficaria sempre aquém do que seriam as minhas expectativas. Atenção neste aspecto em particular, porque me refiro única e exclusivamente ao que estaria à espera de mim próprio e não às lojas em si. Podem não existir com abundância em Lisboa mas o nível de qualidade e diversidade até é bastante elevado.

Quem me conhece minimamente bem, sabem que, independentemente dos tempos que correm, contínuo a comprar com gosto alguma música em formato físico. É certo que sou bem mais selectivo nas minhas escolhas; outra atitude não seria de esperar. Assim, não será de estranhar que seja relativamente normal amigos me falarem em lojas de discos sempre que encontram alguma, e em especial se vender vinis, já que, como muitos outros me rendi ao formato. E foi exactamente uma amiga que se encontra actualmente a viver em Estocolmo que, ao falar da quantidade anormal das lojas de discos que havia na sua zona, fez com que tomasse a decisão de escrever (finalmente!) este artigo.

Ao longo dos próximos parágrafos vão poder ler sobre algumas das lojas de vinis que podem encontrar por Estocolmo. A complementar o texto podem encontrar um link com todas as localizações das lojas que tive oportunidade de visitar. Quem sabe se num futuro próximo não dão por vocês em Estocolmo e decidem seguir as sugestões aqui deixadas?

Imaginem então que se encontravam em Estocolmo, mais precisamente em Fridhemsplan, perto da zona central da cidade. Começavam a caminhar calmamente por Sankt Eriksgatan, passavam a ponte que separa duas das várias  ilhas que compõem Estocolmo e, pouco antes de chegaram a S:t Eriksplan davam logo de caras com três lojas. Duas de um dos lados da rua e a outra mesmo em frente. A Record Hunter e a Beat Goes On são lojas semelhantes. Ambas pequenas e com um ar acolhedor, dividem as suas prateleiras entre CDs e vinis. Talvez os CDs existam em maioria. O vinil ainda representa apenas um nicho de mercado, se bem que em crescimento acentuado para espanto de alguns. Os géneros musicais são bastantes diversificados. Desde o mais recente – sendo os discos de estilos mais alternativos os que existem em maior número – ao mais clássico. Se ao entrar na Record Hunter se ouvia The Xx, na Beat Goes On ouvia-se Beatles. Deu para perder algum 20 minutos em cada uma delas.  Logo a seguir à Beat Goes On encontra-se a loja seguinte. Sinceramente não me consigo recordar do nome dela… Letreiro, esse nem vê-lo! A montra parece entregue aos bichos (acreditem que a expressão assenta que nem uma luva!). O vidro tem uma espessa cobertura de pó, os discos expostos, esses, há muito que perderam a cor. A loja em si é numa cave, pelo que para entrar é necessário descer umas pequenas escadas e depois virar à direita. Admito que quando estava à entrada ainda pensei duas vezes antes de o fazer. Acabei por fazê-lo, obviamente. O cenário é único: discos literalmente espalhados por todo o lado. Organização? Pouca ou nenhuma (pelo menos segundo os meus parâmetros…)! Discos novos ali não existem; só em segunda, terceira e talvez em quarta mão. Há de tudo, desde que não seja recente. Quem sabe se não é a loja perfeita para descobrirem aquela raridade perdida?

Alguns metros mais à frente encontram S:t Eriksplan. Aí, continuam a caminhar até que encontram o cruzamento com a Torsgatan. Nessa altura, sugiro que voltem à esquerda e andem um pouco até chegarem ao número 63, onde se encontra a House of Oldies, especializada em discos das décadas de 50, 60 e 70. Aqui Elvis, Johnny Cash, Beatles e Rolling Stones são reis e senhores. É uma loja de e para um público com idades mais elevadas, como foi possível constatar in loco, mas a visita-se recomenda-se de qualquer maneira. Se quiserem podem continuar a caminhar mas vão chegar à conclusão que não há muito mais para ver nesta direcção. Assim a sugestão passa por voltar atrás, até S:t Eriksplan e uma vez aí apanhar o metro em direcção a Gamla Stan, bem no centro da cidade, a cinco estações de distâncias. Uma viagem rápida, acreditem. Não mais do que 15 minutos e nem têm de esperar muito pelo metro porque estão sempre a chegar.

Em Gamla Stan o objectivo é achar a rua que dá pelo nome de Stora Nygatan. É nessa rua, no número 20 para ser mais preciso, que se encontra a segunda loja que mais gostei de vasculhar, a Sound Pollution (sim com dois ‘l’). Antes de mais uma curta nota para a zona, em pleno centro histórico da cidade, que é um prazer percorrer, repleta de pequenos e acolhedores cafés, galerias de arte e variadíssimas lojas. Assim que entram na loja, fiquem desde já sabendo que a vossa presença é logo anunciada pelo som dos sinos que se encontram sobre a porta. Lá dentro as sonoridades são mais pesadas. O metal e seus derivados foram a banda sonora enquanto lá estive. O espaço é pequeno mas não podia estar melhor aproveitado, repartido entre CD’s, vinis, revistas (a grande maioria inglesas, embora existissem algumas suecas bem interessantes por sinal que teria trazido não existe a barreira da língua) e t-shirts (quase todas alusivas a bandas de metal). A bancada dos vinis esta repleta de álbuns, de tal forma que por vezes se torna difícil vasculhar, tantos são os discos quase comprimidos. Como seria de esperar o metal está em maioria. Em segundo lugar surgem as sonoridades mais alternativas e (surpresa!) o punk. A Sound Pollution é daquelas lojas em que nos perdemos sem dar por isso. Dei por mim a vasculhar por todas as bancadas por que parecia que a qualquer momento podia aparecer o vinil perfeito a chamar por mim. Por acaso ali houve dois, no meu caso.

Quando conseguirem sair da Sound Pollution podem dar um saltinho à Bengans na Drottninggatan. De todas as lojas que tive oportunidade de visitar, é a mais virada para o consumidor mainstream. Os CDs dominam o espaço amplo da loja, o que a torna uma loja iguais a tantas outras pelo mundo fora. Os vinis têm direito a uma secção própria mas nota-se que são um pouco relegados para segundo plano. A parte interessante do espaço acaba por ser a secção de livros sobre música, onde as biografias são imperiais. The Smiths, Madonna, Pete Doherty, Rolling Stones, Eminem. Tudo se encontra por ali. A visita não durou mais de 15 minutos. Nesta altura considerem uma pausa num café (o mais certo é já o terem feito antes), pois as vossas pernas provavelmente já vão estar a queixar-se! Logo que estejam recuperados preparem-se para apanhar o metro, em direcção à penúltima paragem deste roteiro.

Tratem então de apanhar o metro em T-Centralen ou em Hotorget (escolham aquela que estiver mais próximo de vocês), em direcção a Hornstull em Sodermalm, na zona sul de Estocolmo. Uma vez em Hornstull espera-vos uma curta caminhada até ao número 20 da Långholmsgatan. Aí vão encontrar uma loja 5 estrelas se o vosso vício for comprar vinis em segunda mão. Chama-se Mickes e é composta por uma divisão maior e um pequeno corredor que dá acesso a duas pequenas divisões (mesmo pequenas, acreditem), todas elas atolhadas de caixotes cheios, cheios de discos. Ao contrário da loja cujo nome continuo a não me conseguir recordar, aqui existe organização. Seja por género ou por simples ordem alfabética, a lista de nomes e géneros disponíveis é interminável. Folk, Country, Rock, Metal, New Wave, Pop, Hip Hop, Pop Britânica, Blues, Funk, Soul e o que mais vos vier à cabeça. Acreditem que existe no Mickes!  Os Beattles são com toda a certeza a banda de eleição do proprietário da loja mas também podem encontrar nomes tão distintos como Siouxie and the Banshees, Bob Seger ou Cat Stevens. Os vinis estão em todo o sítio com excepção de um: o tecto. Não dá muito jeito, diga-se. As paredes estão todas, sem excepção forradas com vinis. Um deleite para os olhos. Fica já o aviso para a circulação no interior da loja, que não é nada fácil. Os corredores (a palavra trilho também poderia ser utilizada aqui!) são apertados e está sempre gente a circular de um lado para o outro mas a visita, essa, é mais do que recomendada!

Finalmente a cereja no topo do bolo, na minha humilde opinião. Dá pelo nome de Pet Sounds e fica na mesma zona de Estocolmo (Sodermalm) embora a caminhada a partir de Långholmsgatan seja um pouco longa. O vosso destino é o número 53 da Skånegatan e para isso o meu conselho é voltarem à estação de metro em que saíram (Hornstull) e seguirem até Skanstull ou em Medborgarplatsen (onde se situa o Debaser, uma conhecida discoteca e sala de concertos de Estocolmo). A Pet Sounds situa-se naquilo que pode ser considerada a zona mais alternativa da cidade. Lojas de roupa retro, lojas de produtos biológiocos, lojas de roupa para espíritos mais indie, lojas de design e cafés (sempre convidativos). Asseguro-vos que vão perder algum tempo nesta zona da cidade, quanto muito pela curiosidade.

O primeiro aspecto que chama a atenção na Pet Sounds é a montra. É grande e é um regalo para os olhos. CDs, vinis, DVS, edições especiais, revistas. Os olhos ficam a brilhar! Depois abrem a porta, entram, e pensam que estão no paraíso. Um espaço fabuloso, amplo e convidativo, repleto de CDs e vinis (estão em número idêntico). As paredes estão forradas de cartazes de conceros passados e futuros e por capas de vinis de históricos. De assinalar as várias fanzines existentes, todas elas em sueco, infelizmente. O empregado tem mesmo aspecto de ser aquele adepto incondicional do vinil. O John Cusak no High Fidelity do Nick Hornby passou-me pela cabeça. Parece mesmo que faz parte da loja. Preparem-se para começar a vasculhar e para perderem algum tempo da vossa vida. Fica feito o aviso. A organização é perfeita. Primeiro por género e depois por banda. Se existir aquilo que procuram – e existem boas probabilidades de existir – vão achá-lo facilmente. Os vinis existem novos e em segunda mão. Roça a perfeição. A Pet Sounds tem ainda um complemento. Um bar, o Pet Sounds Bar, do outro lado da rua, uns números abaixo. Aí, festas de lançamento de bandas e DJ Sets são habituais na cave.

Assim chega ao fim este roteiro pouco convencional. Se por acaso derem por vocês em Estocolmo, usem-no se estiveram na disposição para tal e tirem as vossas próprias conclusões.

Na viagem de regresso vieram comigo 5 novas adições para a minha (ainda curta) colecção, resultado de um elevado auto-controlo, caso contrário teriam sido muitos mais…



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