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Melech Mechaya

Entrevista com a banda na noite em que o Villaret subiu ao Palco.

Uma plateia bem composta esperava os primeiros acordes de uma banda que em todos os espectáculos promete levar o público para cima do palco.

A música, para quem não conhece, lembra muito a banda sonora dos filmes do Kusturica, de onde aqui e acolá nasce um clarinete que entoa melodias de fazer assomar serpentes do cestos lá para os lados das Índias.

Pois vos garanto que do lado da plateia não faltaram serpentes encantadas. E isto porque os reptos ao trauteio eram mais que muitos – Agora só os homens – E lá se ouvia um trautear em voz grave meio desafinado – Agora só os altos – Desta feita já com muitas gargalhadas à mistura. E continuava – Agora só os canhotos

E em tom de festa prosseguiu a música até a altura em que vários elementos do público foram chamados ao palco para acompanhar a música a dançar.

RDB – No último concerto prometeram-me um chapéu e um CD se eu subisse para o palco…

Miguel Veríssimo – Somos tão aldrabões… (risos)

É assim que vocês garantem casa cheia?

Francisco Caiado – A mentira já é usada desde os Romanos, habilmente…(risos)

Afinal a interacção com o público é uma das marcas da vossa banda.

MV – Nós estranhamos hoje em dia e até acusamos um bocado quando isso não acontece porque achamos que o público não está a gostar. Portanto, quando não acontece é que não é normal. Nós tentamos fazer com que aconteça sempre.

FC – E acho que sempre que acontece e funciona, para nós é também muito motivador, ver o pessoal tipo hoje a bater as palminhas e a fazer aquele tipo de interacções que fazemos sempre. Quando vemos que o pessoal se está a divertir com aquilo e a rir-se, acho que isso também nos dá mais pica.

Quando é que uma vez não funcionou e que poderá ter sido assim uma coisa embaraçante ou no mínimo estranha?

André Santos – No Foz Côa, por exemplo. Acabámos o concerto, ninguém bateu palmas e depois veio o técnico de som ao camarim chamar-nos – As pessoas estão à espera de um encore!  (risos).

FC – Todas as interacções que viste hoje, nós fazíamos e estava para lá um miúdo a bater palmas.

MV – Em Nelas, tocámos talvez cinco músicas, acabámos, o pessoal cagou de alto, ninguém acusou, e depois às tantas aparece uma carinha entre o chão e a lona – Ó ó ó!! O som tá uma granda merda!! (risos)…  E depois no final vem um ter com ele – Vocês são muita bons… Eh pá, obrigado – Mas não é prá qui…

FC – E curioso é que já fomos dois anos seguidos a Nelas e querem que a gente vá lá o terceiro ano outra vez.

AS – Eu não percebo isto. O que é que eles querem de nós? (risos)

MV – É que isto tem sido um crescendo. No primeiro ano, ainda vá, correu bem, batiam palmas. No segundo ano cagaram.  Este ano vão atirar pedras e atirar com lixo… (risos)

Essas cenas que vocês fumam? Ajudam a compor ou são tudo bons rapazes?

MV – Por acaso somos uma banda de betinhos.

AS – Somos meninos! Somos os maiores betinhos do mundo! Temos vergonha de dizer isto! Nós o máximo que fazemos é  bebermos uma daquelas bebidas B de laranja ali em cima e agora uma jola.

FC – E este (MV) já não vai direito para casa. E não vai acabar a jola de certeza

RDB – Onde vão buscar a inspiração para a vossa música?

MV – Eu diria que é muito da gordura do McDonalds e da Telepizza… (risos)

É uma coisa urbana? É um escape?

M – Há uma base que é um arquivo que tem várias músicas tradicionais onde nós vamos buscar a maioria dos temas. Depois é a inspiração individual. Cada um traz a sua. Aquilo junta-se tudo no ensaio e normalmente quem tem mais força vence.

MV – O nosso repertório é o repertório tradicional de Klezmer. Todas as bandas do mundo de Klezmer funcionam mais ou menos assim. Vão beber do património de Klezmer que tem cinco séculos.

O que é o património de Klezmer?

MV – São músicas tradicionais que vão ficando.

De uma zona específica do globo?

MV – Algumas sim. Por exemplo o Miserlou é da Grécia, o Bulgar de Odessa é da Ucrânia, Basicamente há músicas onde há judeus. A música nova que tocámos hoje chama-se Freylech de Varsóvia, portanto, Polónia. E típico de um povo e não de uma região em concreto.. E depois temos as nossas originais. Nem acho que elas são muito inspiradas… (risos)

Eu li algures que vocês estão a colaborar num projecto de teatro. A ideia é fazer um musical e correr com o La Féria do Politeama?

FC – Foi uma companhia de teatro que é A Truta, que já realizou várias peças e neste caso era uma peça russa, do Tchekov. Eles queriam ter uma sonoridade próxima da música russa e de alguma forma também judaica em algumas origens. E tiveram que procurar algumas bandas que não conseguiram ter e nós fomos escolhidos.

Esta ideia de chamar o público para o palco é para garantir que ninguém se vai embora antes do espectáculo terminar?

AS – (Risos) Fixe! Estás a desmontar as nossas estratégias, pá!

Isto é uma marca vossa…

João Graça
– Foi uma coisa que foi surgindo espontaneamente. O primeiro concerto que a gente deu em Almada houve um amigo nosso que subiu para o palco e nós percebemos que aquilo podia ser um bom componente cénico. Aproveitámos isso nos outros espectáculos e desde aí tentamos fazer sempre isso.

MV – Sim, as interacções vêm muito do acaso. Há coisas que saem e quando correm bem nós repetimos. Quando correm mal nós também repetimos às vezes. Mas é uma coisa que não é muito pensada. Às vezes estamos num ensaio a trabalhar uma música e pensamos – aqui podíamos interagir com o público, pôr o pessoal a dançar. Umas vezes corre bem e nós mantemos. Se não dá nós mudamos. Às vezes há pormenores que nós tentamos fazer ou que achamos que em abstracto durante ensaio são giros mas depois perdem-se no concerto. Outras coisas aparecem no concerto porque alguém se enganou e aquilo ficou bem, mesmo musicalmente.

AS – Eu acho que a nossa música e a nossa disposição em palco vivem muito da energia que recebemos de volta. Então acho que também é um bocado o nosso escape. Sentir o calor humano. Teoricamente não devia ser assim, mas se o público não reage muito, a nossa energia em palco é muito menor. Então é normal que a gente tente puxar pelo público.

MV – São momentos de alegria e comunhão…e festa, mesmo!! Quando o pessoal não se diverte é porque nós de certa maneira estamos a falhar e não estamos a cumprir aquilo a que nos propusemos…

Já enviaram o vosso CD ao Carlos Queirós a ver se deixamos de ouvir os Blaked Eye Peas a torto e a direito?

AS – Eh pá, isso era uma ideia tão bonita!

FC – Achas que justifica gastar um CD?

MV – Tudo o que for para arrumar com aquela música eu acho que sim. Eu dava o meu pé direito!

FC –  Eu acho que antes de mais era obrigá-los usar bigode durante o Mundial… (risos)

Quando vocês estão sozinhos em casa a ouvir música os vizinhos vêm bater à porta e reclamar muito?

MV – Eh pá, estás a falar com músicos, por isso os nossos vizinhos estão habituados a ouvir.

O que é que os vossos vizinhos estão habituados a ouvir?

MV – O meu clarinete, quando estudava.

Que influências é que vocês vão buscar à música?

MV – Eu gostava de mencionar aqui em primeiro lugar uma banda oriunda de Liverpool, os fab four, os Beatles. Eu tenho um fetiche com Beatles, mas objectivamente é só um bocadinho de uma música nossa é que é inspirada em Beatles.

JG –  Tu és bué negro…(risos)

MV – Talvez os The Klezmatics seja a coisa mais próxima.

FC – Eu oiço muito música do mundo. Afro Mandinga, música tradicional francesa, etc. Eu gosto muito da onda do festival de músicas de Sines. É o que eu oiço mais.

AS – Eu gosto muito de música cigana, flamenco e flauta. São as minhas principais influências.  A minha maneira de tocar é muito cigana, em termos dos ritmos que uso na guitarra. Os meus vizinhos não me chateiam muito, porque felizmente tenho vizinhos velhos e surdos. Eu escolhi uma casa para isso.

FC – Por acaso escolheste bem. Mas curiosamente ouvem a tua cadela a ladrar.

AS – Mas ela está só a manifestar-se. Ela gosta muito.

Planos para o futuro? Música para casamentos e baptizados?

MV – Este ano acho que há um bocadinho essa ideia de tentarmos dar um passo em frente. Temos a Câmara do Porto, que foi uma confirmação recente e que é uma boa notícia, portanto, esperamos entrar um bocadinho nesse circuito, que estamos a tentar já há algum tempo, na verdade. E no final do ano haverá possivelmente uma surpresa, que depois desvendaremos…

Os Melech Mechaia são:

João Graça: violino;
Miguel Veríssimo: clarinete;
André Santos: guitarra;
João Sovina: contra-baixo;
Francisco Caiado: percussão.



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