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Estômago

Poder, sexo e gastronomia!

Marcos Jorge apresenta em Portugal a sua primeira longa-metragem, no género da ficção, neste título “Estomâgo”, com o mote de que se trata de uma história nada infantil sobre poder, sexo e gastromonia. Intrigante…não é?

A sinopse da história: Raimundo Nonato, é um homem simples, igual a tantos outros, com a particularidade de ser, aquilo a que no Brasil soa tão bem, quando dito com sotaque, um “banana”. Contudo, esse “banana” tem um dom; um dom nato para a cozinha, que é descoberto nas casualidades que a vida tem, e todo o filme gira em torno da ascensão e queda (?) de Nonato, enquanto cozinheiro. Sendo que, no filme, dois temas são transversais: o poder e a comida. Ou, como eu entretanto li, “na vida há os que devoram e os que são devorados”.

A história é contada, na primeira pessoa, e de forma paralela: o presente e o passado recente que culminou naquele presente. Esse presente é ocorrido na prisão, restanto saber, então, como é que aquele “banana” foi lá parar.

Confesso que sobre “Estômago”, a única referência que tinha era tão somente o facto de se tratar de um filme nada pueril… Nada mais. Aceitei, pensando que iria assistir a algo violento, lascivo, e bem pesado, (por algum motivo, retive a ideia de que iria assistir a algo semelhante a “Irreversivél”, de Gaspar Noel). Ideia essa que, aquando do inicío do mesmo, se dissipou. E dissipou-se, porque Raimundo Nonato, o cozinheiro, é cativante; é cativante pela maneira de falar, pela maneira de estar, pela inocência aparente… O que acaba por ser muito intrigante, porque, na verdade, ele encontra-se preso.

Daí que não seja totalmente displicente a opção do realizador, também co-argumentista, de “Estômago”, em rodar o filme nessa sequência de várias paralelas, e sempre dentro de um ambiente totalmente adverso e cruel; veja-se, por exemplo, que não há no filme uma personagem bondosa ou caridosa, e, como, de uma maneira geral, também quase todos os ambientes onde a acção decorre, despertam o nojo e a insalubridade. Propositado ou não, facto é que, dentro de um cenário tão hostil, é impossível não ser cativado pela “inocência” de Nonato… O que não deixa de ser irónico, porque apesar de tudo, acabamos por ficar deliciosamente a degustar cada passagem do filme, tão intensamente, quanto tranquilos.

E dessa tranquilidade aparente, há aquilo que se chama um twist na história, que esmurra o espectador, apanhando-o de surpresa. Servido com alguma mestria e no timing certo.

Uma atenção última para a trilha sonora, que compõe esta abordagem cinematográfica, a cargo de Giovanni Venosta, que só acentua ainda mais esta degustação cinéfila.

Já não é a primeira vez que lamento que, apesar de algumas excepções, em Portugal, os filmes fora do mainstream, acabam por chegar muito tarde: “Estômago” estreou no Brasil em 2007, e foi considerado um dos melhores filmes da década, o que fará talvez sentido perguntar, o porquê deste atraso. Deve haver certamente, mas desconheço. Contudo, não deveria haver. É que este filme em particular, apanha-nos pelo estômago, onde a comida não é mais do que o móbil da conquista do poder.

“Estômago”, realizador Marcos Jorge, com João Miguel, Fabiula Nascimento, Babu Santana,Carlo Briani, Zeca Cenovicz. 113 minutos. Brasil. 2007. Estreia prevista para 13 de Maio.



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