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No Meu Lugar

À volta da violência.

A opinião de dois colaboradores da RDB sobre o mesmo filme.


“À volta da violência”, por João Lameira

Poucas semanas depois da estreia de “Os Famosos e os Duendes da Morte”, de Esmir Filho, mais um filme que se destaca do cinema brasileiro mais badalado. Se bem que seja uma história de violência, de polícias e tiros, de malandros e ladroagem, de vítimas e remorsos, “No Meu Lugar”, de Eduardo Valente, que chega a Portugal com dois anos de atraso (é de 2009), não busca o espectacular ou o pitoresco, é sorumbático, quase letárgico. A temática enquadra-se no registo habitual, o tom é radicalmente diferente.

“No Meu Lugar” desenha-se à volta do único acto de violência, que nunca mostra, preferindo observar as causas e efeitos do mesmo, não tanto do ponto de visto sociológico, mais do dramatúrgico, que é como quem diz, do destino. Como tal, Eduardo Valente alterna entre três tempos: antes da tragédia (seguindo o ladrão); depois (com o polícia atormentado); e alguns anos depois (a família da vítima). Tempos, esses, que, apesar de passarem simultaneamente no ecrã, raramente se tocam. Cada personagem no seu lugar; o único encontro é naquela casa assombrada (ou amaldiçoada), que encima uma encosta do Rio de Janeiro sempre triste e nublado.

Da estrutura do filme nasceram algumas comparações à obra de Alejandro González Iñarritu, que também aprecia cruzar histórias e baralhar cronologias. Contudo, os objectivos não parecem os mesmos: ao longo da sua filmografia, o mexicano como que força a transcendência — todos os acontecimentos estão ligados sob o desígnio de um deus qualquer (que bem pode ser o próprio Iñarritu); o brasileiro, por outro lado, preocupa-se mais com a inércia da violência ou a inércia que leva à violência, como se fosse um dado adquirido, a coisa mais natural do mundo (que, porventura, é). Essa sensação de inevitabilidade, que, se calhar, não é menos religiosa, é amplificada pela música dolente (a tal letargia) e pela fotografia que explora a escuridão.

Eduardo Valente força a mão aqui e ali, abusa das coincidências, impõe uma mensagem — se o título indica uma solidão incomunicável, o realizador compraz-se com a ideia de que só assumindo o lugar do outro se encontra a paz —, e aprisiona a sua história na estrutura atrás descrita. No entanto, ganha a filme nos pequenos momentos insignificantes, na dolência e na tristeza, que lembram um certo cinema asiático.

“Cada Qual No Seu Lugar”, por Inês Monteiro

A primeira longa-metragem de Eduardo Valente estreou no Brasil em 2009 e esteve no 62º Festival de Cannes, por onde já tinham passado as suas três curtas anteriores. Por cá, marcou presença no 13º Festival de Cinema Luso-Brasileiro de Santa Maria da Feira, onde recebeu o Prémio Revelação. Chega hoje às nossas salas e é uma verdadeira lufada de ar fresco.

“No Meu Lugar” começa com um grande plano de uma cara de olhos perdidos. A câmara demora-se nesse rosto gasto e abre, sem pressas, para uma arma que sai pela janela do carro. O polícia está lá dentro, preso e atrofiado. É o Rio de Janeiro, onde a violência passeia livre pelas ruas e as pessoas vivem através do medo.

É com medo e desespero que Zé Maria dispara sobre um inocente e é o tiro que despoleta a acção. Não vemos o que acontece dentro da casa onde entra porque a câmara se recusa a participar, mas escutar é uma escolha bem mais estimulante. Valente não quer mostrar violência gratuita, pois para estabelecer um diálogo sério sobre um assunto delicado, é necessário manter distância suficiente e trabalhar sobre factos, causas e consequências.

A partir do incidente são-nos contadas três histórias ocorridas em tempos diferentes: semanas antes do assalto, Beto – o rapaz que entregava as compras – apaixona-se pela empregada da família; imediatamente depois, Zé Maria é afastado do seu cargo, perdendo aos poucos a filha e um objectivo de vida; cinco anos mais tarde, a família da vítima volta à casa onde tudo começou, para a esvaziar e vender, mas principalmente para expurgar o passado.

Em comum têm o tiro que desencadeia a história e para o qual ela converge, mas os personagens nunca se encontram, apenas tocam os mesmo espaços físicos. A casa onde se dá a tragédia é um verdadeiro organismo vivo, pela qual todos têm de passar para expulsar o fantasma que os atormenta – o marido a quem a mulher sorri; o pai que vê os filhos brincar; o inocente a quem o polícia pede desculpa com os olhos. É talvez nessa ‘ressuscitação’ do morto que o filme peca – parecem cenas à parte, puxadas a ferros, sem linearidade.

A acção que catapulta a movimentação dos personagens não é, contudo, tão importante como as suas vidas – ainda que, por vezes, existam detalhes que nos relembram o fio de conduta, como quando o som de uma narrativa invade a outra em tempos e espaços distintos. Valente ‘perde’ tempo a filmar o comum em todo o seu deslumbramento e redenção, como quando Beto conversa com o tio sobre banalidades, ou quando as duas crianças brincam e olham para as estrelas baças no tecto do quarto. São esses momentos relativamente ‘irrelevantes’ os pontos altos do filme. E nunca nos são apontados culpados ou inocentes.

O Rio de Janeiro que Valente filma não tem sol, a maior parte das cenas passam-se em espaços fechados, em dias cinzentos. Beto e a namorada estão na praia, mas parece que vai chover – a mesma praia onde, de noite, Zé Maria e a filha se rendem ao cansaço. Há sempre algo que paira no ar, carregado de tensão e nervo.

“No Meu Lugar” porque todos andam à deriva, e na incapacidade de se encontrarem, sucumbem à derrota. O polícia amedrontado pelo passado, o rapaz da favela que quer dinheiro para uma vida mais luminosa, a família que não ultrapassou a perda. Cada qual ocupa um lugar bem definido na sociedade – e Valente não cai no erro da caricatura, os ricos não são excessivamente ricos nem os pobres aflitivamente pobres –, mas em termos de sentimentos não há pontes colossais a separarem-nos e é sobre sentimentos que o filme tenta falar, da perda da inocência e das ilusões perante a morte.

Estreia dia 13 de Outubro.



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