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Expos em Serralves

Uma retrospectiva das últimas exposições patentes em Serralves.

Nota Prévia: Esta reportagem foi efectuada no dia 25 de Abril. As exposições descritas já não se encontram patentes.

É curto o caminho do centro do Porto até Serralves. Neste trajecto passamos pelas zonas mais emblemáticas da capital nortenha, avistamos alguns dos seus mui generis habitantes locais, atravessamos a movimentada Avenida da Boavista que liga a cidade ao Oceano. Entramos no Parque de Serralves. A cidade fica para trás e parece que o nosso espírito de ansiedade também. Começa agora a travessia

Para aqueles que não estão familiarizados com a história de Serralves, aqui vai: Criada em 1989 através de uma parceria do Governo Português e instituições públicas e privadas, a Fundação Serralves tem já, no entanto, uma longa história que começou com o sonho  do 2º Conde de Vizela, Carlos Alberto Cabral. Em 1940 mandou construir a Casa de Serralves – que acolheu as exposições até à abertura do Museu em 1999 e exemplo único de arquitectura Art Déco em Portugal -, tendo antes já encomendado uma reestruturação do Parque. O Conde de Vizela expressava assim o seu desejo de tornar o que antes era uma habitação privada e exclusiva, num espaço público, de cultura e acessível a todos

Espólios de Guerra em tons de conformismo – Guy Tillim “Avenue Patrice Lumumba

Entramos no Museu de Arte Contemporânea de Serralves e começamos pela exposição do fotografo Guy Tillim. De origem sul africana, este foto repórter construiu a sua carreira em cenários africanos terceiro mundistas e de guerra. E é com este tema que tem viajado pelo mundo com as suas fotos.

Nesta exposição, são os retratos dos edifícios do tempo colonial de Angola, Moçambique, Congo e Madagáscar que nos ficam. E como estes se tornaram agora parte do visual africano.

Em “Avenue Patrice Lumumba”, Guy  mostra-nos as cores pálidas da desilusão. Não da qualidade da exposição – essa é excelente! – é garantidamente da desilusão africana. Todos os vestígios da grandiosidade esperada e ambicionada devastados. Se são muitos os que questionam a fotografia como arte de provocar emoções, aqui está a prova final.

E porquê Patrice Lumumba? Esta figura incontornável da história do Congo, antiga colónia belga, foi um dos primeiros líderes eleitos democraticamente pelo povo africano. Ao conseguir este feito em 1960, também assinou a sua sentença de morte, tendo sido assassinado no ano seguinte. No entanto, a sua áurea manteve-se, sinónimo de esperança africana, e perlongando o mito até aos nossos dias,
E Guy Tillin pegou neste mito para retratar a destruída esperança africana. É o que podia ser retratado como é na realidade: a crueldade das imagens deixa-nos um sentimento de frustração contemporânea.

Testes em Aguarelas  – Raoul de Keyser “Aguarelas”

Provavelmente o grande dilema de alguém que visita uma exposição artística num qualquer museu de grande importância é o facto de poder ou não dar a sua verdadeira opinião. Ou seja, será que nós visitantes, puros leigos em matéria artística, podemos afirmar convictamente – sobre a obra de uma grande artista e sem conhecimento prévio do conceito Arte – que simplesmente não gostamos? Bem, é este o caso. Não se trata de desvalorizar o artista em si. Aliás, Raoul de Keyser tem já por si mesmo uma carreira comprovada, longe do grande comércio artístico e independente de opiniões. É simplesmente dar corda à nossa liberdade pessoal de escolha e artística e conseguir dizer simplesmente: não me agradou.

“Aguarelas” lembra-nos um teste inocente de pintura, uma expressão subtil de criatividade. Uma sequência de obras que não nos dão qualquer emoção ou inovação.

Mas em democracia, não basta nós termos a liberdade de dar a nossa opinião. Pensando e argumentando por outro prisma, é competência da parte do curador desta exposição, mostrar ao público o que ele pensa ser uma boa obra ou uma mais valia numa vertente de aprendizagem artística. É tudo uma questão de risco. Ele aposta na exposição. O público vai e experimenta. Em “Aguarelas” falhou. Pelo menos para nós.

You´ve finally arisen to the status of a conceptual artist, Erika – Bethan Huws “Fountain”

Bethan Huws é uma artista britânica nascida no país de Gales em 1961, conhecida pela sua capacidade de expressão em diversas linguagens artísticas e a sua ligação à obra de Marcel Duchamp. Em exposição na Fundação de Serralves, mostra aqui uma retrospectiva da sua carreira: um questionamento do mundo artístico e da sua obra.

Bethan, ela própria se questiona sobre a criação artística e a sua comprensão. Qual é o objectivo de criar cada vez mais, sem compreender o que já temos?

Esta artista fala-nos do seu mundo através de múltiplas representações: texto, aguarelas, representações, filmes (Singing for the Sea, documentário …). Consegue, com um pouco de sentido de humor, principalmente na galeria de texto, levar o visitante a reflectir sobre como interpreta o conceito de Arte. Será que uma longa carreira como artista nos coloca imediatamente num patamar mais elevado, sem termos de dar provas de talento? Será isso justiça?

A Rua de Baixo coloca também em destaque os jogos de palavras da artista e a capacidade de expressão em tantas plataformas. A diversidade e riqueza desta exposição merecem a visita.

From Mickey Mouse to Andy Warhol – A Apropriação dos clássicos animados

Os bonecos que sempre acompanharam a nossa infância afinal têm dupla personalidade. Não é contra natura, mas desde o início da sua criação muitos artistas pegaram em imagens associadas à vivência dos mais pequenos e deram outros significados, re-apropriando sentimentos, vivências, interpretações. O resultado é obviamente surpreendente! Humor, sarcasmo, sensibilidade, as nossas vidas de adultos misturadas com as recordações de infância.

Em “From Mickey Mouse to Andy Warhol”, temos o duplo significado dos desenhos animados. Numa exposição curada por Guy Schraenen é um Mickey Mouse travesti ou uma sátira em cartoon à cultura norte-americana que nos prende o olho. A recordação do livro infantil re-adaptado a uma outra qualquer realidade que nos faz pensar que a transgressão afinal tem resultados fantásticos.

Foi mais ou menos a partir dos anos 60 que estas adaptações a conceitos e livros infantis começaram a surgir. Nomes como Andy Warhol, Christian Boltansky, Claes Oldenburg ou Vieira da Silva, foram expressões deste movimento.

E as pessoas?

Apesar do sol que brilha fora do Museu de Serralves, são muitas as pessoas que escolhem trocar um belo dia à beira mar, por uma visita a esta Fundação. Vânia Reis, 28 anos e designer, e Nuno Campeão, 24 anos e estudante de medicina, chegaram cá através da Internet. Esta amiga de muita gente e eficaz divulgadora de actividades culturais, mostrou a este jovem casal que afinal a cultura pode ser uma boa e diferente escolha. Quanto à opinião sobre as exposições, referem Guy Tillin e a sua “Avenue Patrice Lumumba” como ponto alto. A impressão das imagens fortes marcou estes jovens visitantes.

Já Catarina Moutinho e Vítor Barbosa, ambos de 24 anos, referem que Serralves é simplesmente um hábito do quotidiano. Visitantes assíduos desde tenra idade, não escolhem um artista para ver, mas confiam nas escolhas dos curadores. Algo que garantem todos nós deveríamos correr. A Rua de Baixo concorda. Queremos mais gente em Serralves e queremos regressar, mas gostaríamos que esta fundação fosse ter com os portugueses ao resto do país. Museu fora de portas? Lançamos o desafio.



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