Expresso_transatlantico_by_Miguel_Marquês_02

Expresso Transatlântico | Entrevista 

A banda de Gaspar Varela, Sebastião Varela e Rafael Matos.

Em vésperas de apresentação em concerto do seu mais recente álbum “Trópico Paranóia”, lançado em Janeiro do presente ano, (o) Expresso Transatlântico esteve à conversa com a Rua de Baixo. 

Expresso Transatlântico é movimento contínuo. Um fluxo livre e em liberdade, uma passagem para e em prol da boa música boa. Gaspar, Sebastião e Rafael são donos de um comboio que não pára mas que sabe esperar, que anda a alta velocidade mas que sabe abrandar. Várias carruagens cheias. E a música é o cais de chegada, o pouso sabido de cor. 

Fica o registo escrito deste diálogo-conforto-olhar-sobre-o-mundo. 

Boas escutas!

Rua de Baixo (RDB): De onde partiu, por onde tem passado e para onde vai este Expresso Transatlântico? Porquê Expresso Transatlântico? É uno e indivisível, orgânico? 
EXPRESSO TRANSATLÂNTICO (ET): Nós não sabemos muito bem o que dizer, até porque achamos que faz sentido aquilo que estamos a sentir no momento – sempre foi esse o nosso “modo”. Enquanto (e quando) fizer sentido, faz sentido. E quando assim deixar de ser, deixará de ser. Mas é por aí. Nunca tivemos propriamente as coisas calculadas – vai surgindo. | O nome vem mais ou menos de uma brincadeira quando começámos a fazer as nossas primeiras músicas, o Gaspar estava nos Estados Unidos e eu (Sebastião) e o Rafael estávamos cá em Lisboa – então o nome foi algo que apareceu desse cruzamento. 

RDB: Em 2021 lançaram um EP homónimo; desde então, já lançaram “Ressaca Bailada”, em 2023; agora, mais recentemente, a 30 de janeiro do presente ano, “Trópico Paranóia”. A minha pergunta é: como é que este processo evolutivo de afirmação e descoberta tem sido essencial para vocês se conhecerem enquanto banda, daquela que é a vossa sonoridade?
ET: Conseguir olhar para trás e reparar naquilo que fizemos e no que estamos a fazer agora, acho que sentimos todos que há uma evolução muito grande, tanto artística como pessoal. Fomos crescendo enquanto pessoas e artistas e isso acaba por moldar aquilo que fazemos. Não só a arte que fazemos, mas também a maneira como compomos. E o tempo em si – para aquilo que queremos descobrir a nível de som e imagem também. Também fomos ganhando experiência ao longo dos anos e isso moldou todas estas “portas”. Portas estas que se foram abrindo umas às outras, até chegarmos aqui, ao Trópico Paranóia – e onde queríamos ter chegado. 

RDB: Que estado de “paranóia” é este que vos levou por este “trópico” do qual resultaram doze músicas maravilhosas?
ET: É sempre um misto de várias coisas. Mas a necessidade é sempre fazer – e perceber porque é que nos faz sentido fazer. Dá-nos prazer fazer música, é a nossa cena digamos assim, como qualquer pessoa também tem a sua cena. Contudo, acho que o “fazer música” vai valer sempre só por si. Achamos que este álbum, acima de tudo, vem de muitas outras coisas também – começámos a compô-lo em 2023/2024 até o finalizarmos agora, em 2026. E toda a realização do álbum correspondeu a um tempo da sociedade em que vivemos no qual se está a perder, consideramos nós, alguns alicerces que deviam ser estáveis, básicos e inalteráveis. E tudo isso nos afecta enquanto seres humanos também. Termos feito o álbum da forma que o fizemos, um pouco “isolados”, permitiu-nos fazer também uma reflexão mais consciente – como um acalmar da cabeça e estar a olhar de fora para dentro. E mesmo assim acabamos por ser sempre influenciados pelo que nos rodeia – coisas boas e coisas más. O álbum é um bocado o reflexo daquilo que se passa nas nossas cabeças – o que pode ser um milhão de coisas diferentes, mas sobretudo este confronto com esta realidade quase distópica.

RDB: Falem-me de duas ou três características que tornam este último álbum diferente da música que têm feito até aqui? Como foi trabalhar com o The Legendary Tigerman?
ET: Desde logo foi a primeira vez que “assumimos” um ‘produtor’ no sentido em que houve mais tempo de preparação e mais cuidado – ou seja, foi tudo pensado de forma mais consciente e com mais tempo, também com condições que não tínhamos antes (o que, querendo ou não, ajudou bastante o processo criativo). Foi também a primeira vez que fizemos a ‘captação do disco’ – o que mudou até bastante o workflow e todo o processo pois passámos a ter alguém a trabalhar connosco constantemente, em todos os concertos também. Alguém que nos conhece e isso ajuda bastante no processo de construção do disco em si. No fundo, fizemos as coisas com mais calma, não demos nada como garantido. | Foi muito bom termos tido a possibilidade de fazer umas quantas residências artísticas. E trabalhar com o Paulo foi incrível sobretudo porque quando se está a meio com o processo chega-se a um ponto em que não conseguimos ver mais do que aquilo que se tem. O Paulo, de certa maneira, ajudou-nos bastante aí, mas também noutros aspectos – por exemplo, neste disco quisemos explorar uma vertente mais electrónica… Afora gostarmos muito e sempre de juntar universos distintos à/da banda. Criou-se uma ligação muito grande – também por termos os mesmos valores e foi giro fazer esse cruzamento e estarmos todos juntos, em sintonia. 

RDB: A vossa música desperta o lado dançante, ritmado e, ao mesmo tempo, curioso e misterioso que há nas pessoas que vos ouvem com gosto e vontade. Como é que se vão reinventando em prol disso? Simultaneamente, creio que há toda uma mensagem por trás disso – o olhar sobre a realidade que vocês têm é muito peculiar e assertivo – como chegam até aí?
ET: Nós achamos que há coisas que vivem num campo um bocado acima da mente, algo metafísico, não é? Como já dissemos, acaba por ser um reflexo de quem somos individualmente e colectivamente. É algo difícil de explicar, e se calhar uma música acontece de uma maneira porque aquele momento em específico correu menos bem ou menos mal, sabes? A música, a arte no geral, como forma de expressão é difícil de compreender de onde vem e para onde vai. O que é certo é que as coisas acabam por acontecer, e independentemente de soarem estranhas às vezes (porque o tempo vai passando, porque temos sensações diferentes de momento para momento…). É importante situarmos a música em si, criar até uma relação de memória com a mesma – é engraçado. 

RDB: Queria que me falassem sobre a capa do  novo álbum, como criaram ali uma confusão organizada ao milímetro. Também que me falassem um pouco sobre as “paisagens” que são criadas a cada título de cada canção. E o processo, assim mais formalmente, como foi?
ET: Foi pensado e estruturado. A capa surge um bocado como surgem as músicas, apesar de só aparecer porque existem músicas antes. E se calhar mais do que as músicas, as histórias que estão do nosso lado também fazem parte da criação das mesmas… os sítios onde andámos, as narrativas que fomos construindo na nossa cabeça… | A capa é basicamente a Bruxa do Caramelo – na nossa primeira residência aconteceu-nos algo bastante caricato, então ficámos com esta ideia de que havia uma ‘bruxa’ que nos estava a acompanhar, e que não tem de ser necessariamente má. Caiu-nos um trovão na casa onde estávamos a gravar, ficámos sem água, os carros atolados em lama… justificávamos tudo com esta Bruxa, que estava lá, mas sempre assim encoberta, sem causar mossa. 

RDB: Querem falar-me do processo de composição de uma das músicas deste “Trópico Paranóia”? Para além disso, como foi gravar a “Nikita Punk” live?
ET: Podemos falar mesmo da “Nikita Punk”, que surgiu logo na primeira residência que fizemos. E foi um processo criativo diferente porque foi muito directo no caso da Nikita – arranjámos uma ideia de estrutura, surgiu o riff enquanto improvisamos e foi assim. Independentemente disso, o processo de criação e composição foi sendo sempre diferente e variado, fomos experimentando muita coisa nova. | A live da Nikita foi também decidirmos por aquilo que nos apetecia fazer em vez de um videoclipe. Queríamos focar-nos no que nos trazia “ali”, na música. Quisemos basicamente ser só mesmo mais honestos. E pronto, fomos para um sítio com a nossa malta e gravámos a malha.

RDB: O que podemos esperar dos concertos de 13 de março, na Casa da Música (Porto), e de 14 de março, no Capitólio (Lisboa)?
ET: Esperamos que a malta venha numa de se divertir e de se soltar. Que sintam que estão num espaço seguro para serem quem quiserem ser e para fazerem o que quiserem. Há muitas coisas novas que vamos fazer em palco, então também vai ser uma cena fixe para nós.

RDB: Duas perguntas random. Aqui vão: 

  • Se a vossa música fosse uma refeição/alimento, qual seria?
  • Gostam de karaoke? Qual é a vossa canção “go-to” em karaoke?

ET: Caldeirada de peixe. | Faraó da Ágata. 





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