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Festival de Roterdão

Todos os filmes vão dar à Holanda.

Para a maior parte das pessoas, a Holanda é sinónimo de actividades mais ou menos ilícitas, coffee shops e o Red Light District. No entanto, a Holanda é também um importante pólo cultural, um dínamo onde confluem várias sinergias artísticas europeias. É certo que não tem o impacto de Berlim ou Paris, mas cidades como Amesterdão ou Roterdão respiram vitalidade, arte e cultura.

É precisamente de Roterdão que queremos falar neste texto, mais precisamento do festival internacional de cinema da cidade, um dos mais conceituados do país e que, durante o final do mês de Janeiro, coloca a Holanda no centro das atenções cinematográficas europeias. O IFFR (as siglas para International Film Festival Rotterdam) celebra este ano a bonita data de trinta e oito primaveras, uma idade assinalável que demonstra bem o impacto e desenvolvimento do certame.

O grande alvo do festival é o cinema independente, mas extende o seu raio de abrangência por uma ideia total de cinema inovador e experimental, que vai até às artes visuais, às performances artísticas e as instalações audiovisuais. O peso do festival é tão importante para a Holanda, na descoberta e na projecção dos novos valores nacionais, como para o próprio cinema internacional, como é comprovado pelo CineMart, o maior mercado de projectos fílmicos, anualmente visitado por milhares de profissionais da área em busca do melhor e mais apelativo negócio.

A estrutura do festival divide-se em três secções: a primeira, intitulada Bright Future, é, possivelmente, a mais importante e apetecível. É a plataforma dedicada a todos os novos realizadores independentes, que competem entre si pelo mais requisitado prémio do IFFR: o Tigre de Ouro, que já passou pelas mãos de gente como Cristopher Nolan, Zhang Yuan ou Park Chan-ok. Este ano o grande atractivo chama-se “JVCD”, de Mabrouk El Mechri, um filme sobre… Jean-Claude Van Damme. Até podia não ser muito estranho se não estivéssemos a falar do primeiro filme do actor belga sem ser de acção.

Van Damme está mudado. Percebeu que a sua carreira estava numa fase descendente, encaminhando-se perigosamente para o fundo, e decidiu colocar um ponto final nos filmes de acção com que construiu a sua obra. Aliás, a sua filmografia apenas conta com um filme, que depois foi sendo renovado vezes sem conta, mudando apenas os actores, até deixar de pegar. “JVCD” é uma espécie de monólogo auto-biográfico de redenção e apresenta uma faceta do herói de acção belga que, ao que tem constado, tem deixado muita gente de boca aberta… A lutar ao seu lado pelo Tigre estará, provavelmente, o filme “Er Dong”, do chinês Yang Jin. Depois dos Jogos Olímpicos de Pequim, a euforia chinesa está a queimar os últimos cartuchos junto dos ocidentais e este filme de rebeldes sobre a geração punk chinesa pode aproveitar-se deste facto.

A segunda secção chama-se Spectrum e é destinada a todos os que, na opinião do painel responsável pelo certame, contribuiram para o que de melhor se fez na área do cinema no ano que passa. No fundo, é uma espécie de resumo dos mais originais, essenciais e inovadores autores internacionais. Nela vai ser possível encontrar-se títulos como “Achilles and the Tortoise”, de Takeshi Kitano, que chegou recentemente ao nosso país numa edição em dvd e que faz parte de uma trilogia sobre a figura do artista. O trabalho de Kitano não é consensual e costuma gerar reacções bem diversas por onde passa, por isso as mais mornas da crítica internacional perante este título não querem dizer grande coisa. É ainda nesta secção que é possível ver “Wendy and Lucy”, de Kelly Reichardt, uma pequena pérola que tem feito correr muita tinta ao recuperar o antigo cinema independente americano.

Por fim, a terceira e última secção tem o nome de Signals e é a mais eclética de todas, reunindo no seu conjunto retrospectivas de cineastas e artistas plásticos, ciclos temáticos ou reposição de fitas por qualquer motivo mais conveniente. No fundo, vale de tudo nesta plataforma e é uma desculpa para inserir tudo o resto que não encaixe nas restantes, desde uma secção de terror fantasmático com origem no Oriente, com o pertinente nome de “Hungry Ghosts”, uma retrospectiva de Paolo Benvenuti, um dos mais interessantes valores da cinematografia italiana, ou uma mostra do melhor que se faz actualmente no cinema turco, país a atravessar uma saudável vaga de novo cinema.

Claro que falar de um festival com esta envergadura faz com que, obrigatoriamente, um igual número de títulos fiquem de fora desta lista. No entanto, como diz o poeta, é um trabalho sujo, mas alguém tem de o fazer. Por isso, se está a pensar em dar um pulo até Roterdão no fim do mês e decidir ver alguns dos filmes do IFFR, tome estes destaques como meras sugestões e aventure-se. A longevidade e o palmarés do festival falam por si, assim como o certificado da FIPRESCI, a Federação Internacional de Críticos de Cinema, em que o festival de Roterdão é o único holandês a receber tal distinção.



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