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Festival FUMO 2014 | 20 de Junho

T-Rex visto à solta em Setúbal

Depois de se ter pintado com as cores e os sons do blues, o FUMO abraçou na segunda noite a pop e a folk com sabor a algodão doce, num Auditório Charlot muito bem composto. E, se o motivo aparente para tamanha audiência dava pelo nome de noiserv, o dinheiro do bilhete teria sido muito bem gasto para quem tivesse visto apenas a primeira parte.

Num duelo de banjo a que apenas faltou um pôr-do-sol da cor do sangue e o silêncio do deserto, Tio Rex e Hell Hound ofereceram um festim folk de se lhe tirar o chapéu, onde não faltaram evocações a Hank Williams ou Woody Guthrie. Tocando alternadamente entre si – com excepção ao tema de introdução e aos dois últimos -, os dois músicos mostraram as duas faces de uma mesma moeda, cunhada com o brasão da folk norte-americana apanhada em estados de espírito diferentes.

Hell Hound, que estamos habituados a ver ligado à corrente em projectos como os Sonic Reverends, os Jack Shits ou ainda os Los Saguaros, grita as palavras que nos surgem descarnadas e, mesmo que a espaços passe ao lado de alguma afinação, compensa tal pormenor colocando toda a sua alma na música, num universo múltiplo de sonoridades que terá, como algumas das incontáveis estrelas, Wooven Hand e a sua folk carregada de negrume ou, num outro hemisfério mais insano, uns The Soggy Bottom Boys (ver “O Brother, Where Art Thou?”, dos irmãos Coen).

Tio Rex, que o ano passado se estreou no mundo dos longas-duração com “Preaching to a choir of friends and family” será, muito provavelmente, o segredo mais bem guardado da folk portuguesa. Responsável pela composição, orquestração e letras, o músico de Setúbal mostrou-se ontem um cantautor de corpo inteiro, com uma voz grave e segura, que tanto vai beber ao clima pastoril de Simon & Garfunkel como ao lado barítono de um Johnny Cash. Uma actuação surpreendente que confirma que este é um nome para acompanhar bem de perto no panorama musical português.

E o que dizer de noiserv, projecto encarnado por David Santos, onde um homem só consegue trazer para cima do palco os fantasmas de uma orquestra inteira? Acompanhado como habitualmente por uma grande parafernália de instrumentos e gravadores, noiserv levou-nos numa visita guiada por uma carreira que se aproxima já dos dez anos, tendo em conta que “56010-92”, o primeiro EP de aspecto pirata lançado pela merzbau, teve edição no longínquo ano de 2005.

Com o método habitual da gravação de pistas, onde vai dançando entre instrumentos sempre com um timbre de voz carregado de melancolia, noiserv foi construindo sonhos com a forma de canções, acompanhadas pela magia de Diana Mascarenhas que, numa tela, ia inventando videoclips com ilustrações sempre surpreendentes, trazendo ao de cima a infância que resta em nós.

«Don`t say hi if you don`t have time for a nice goodbye», o tema que encerrou o concerto e que é também o capítulo final do novo disco, poderá muito bem apontar o futuro musical de noiserv, com a entrada de loops mais dançáveis e batidas que possam impelir, de certa forma, a um tímido abanar de anca. O que, a acontecer, será muito bem recebido, dando uma nova cor aos sonhos de David Santos. O futuro o dirá.



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